domingo, 14 junho 2026
INSTITUTO BUTANTAN

Suspensão da vacina contra a dengue: entenda o que motivou a decisão do Ministério da Saúde

Mais de 500 mil doses já haviam sido aplicadas em profissionais da saúde
Por
Cristiani Azanha
Vacina é produzida pelo Butantan. Foto: Reprodução/Comunicação Butantan

O Ministério da Saúde suspendeu temporariamente a estratégia de vacinação com a Butantan-DV, vacina contra a dengue desenvolvida pelo Instituto Butantan. A medida foi adotada por precaução após o registro de eventos adversos raros que não haviam sido observados nos estudos clínicos realizados antes da aprovação do imunizante.

Mais de 500 mil doses já haviam sido aplicadas em profissionais da saúde e pessoas entre 15 e 59 anos em cidades selecionadas do país. Segundo o governo federal, não há conclusão de que os casos graves tenham sido provocados pela vacina, mas o sinal de alerta exige investigação aprofundada.

Instituto Butantan defende rigor na apuração
O diretor-presidente do Instituto Butantan, Esper Kállas, ressaltou que a identificação de eventos adversos demonstra o funcionamento adequado dos sistemas de monitoramento e reforçou a importância de uma análise criteriosa antes de qualquer conclusão definitiva.

Segundo ele, a investigação segue protocolos rigorosos e busca esclarecer se existe, de fato, alguma relação entre os episódios registrados e a aplicação da vacina.

Casos graves estão sob investigação
O sistema de farmacovigilância identificou 42 notificações com sinais de alerta, como dor abdominal intensa, vômitos persistentes e sangramentos. Os casos representam apenas 0,008% do total de doses aplicadas.

Entre essas ocorrências, três evoluíram para quadros graves. Dois pacientes morreram e um terceiro recebeu alta hospitalar após internação em UTI (Unidade de Terapia Intensiva).

O primeiro caso envolveu uma mulher de 39 anos que apresentou febre, dores musculares e náuseas seis dias após a vacinação. Ela desenvolveu choque, precisou ser internada na UTI, mas se recuperou.

O segundo caso foi o de uma mulher de 48 anos, que apresentou sintomas compatíveis com dengue grave associados à meningoencefalite 19 dias após receber a dose. Ela não resistiu.

Já o terceiro paciente, um homem de 58 anos, apresentou febre cinco dias após a imunização, evoluiu rapidamente para dengue grave com choque refratário e também morreu.

As autoridades sanitárias reforçam que, até o momento, não existe comprovação de relação direta entre a vacina e esses desfechos.

Infectologista explica importância da farmacovigilância
O infectologista de Americana, Arnaldo Gouveia Júnior, destacou que o acompanhamento pós-vacinação é uma etapa prevista em qualquer campanha de imunização.

Ele lembrou que a farmacovigilância permite identificar eventos extremamente raros, muitas vezes impossíveis de serem detectados durante os estudos clínicos, justamente pelo número limitado de participantes.

O especialista também ressaltou que a suspensão temporária não significa que a vacina seja insegura, mas sim que as autoridades estão adotando uma postura cautelosa para garantir a segurança da população e esclarecer definitivamente os casos investigados.

Estudos apontam eficácia contra formas graves
O Ministério da Saúde destaca que a interrupção é temporária e não significa que a vacina deixou de ser segura ou eficaz.

Nos estudos clínicos, mais de 11 mil voluntários foram acompanhados por até cinco anos. Os resultados apontaram eficácia geral de 65% contra a dengue e de 80,5% na prevenção das formas graves da doença.

Enquanto a investigação segue em andamento, as doses já distribuídas permanecerão armazenadas nos postos de saúde, aguardando uma decisão definitiva das autoridades sanitárias.

O SUS (Sistema Único de Saúde) mantém normalmente a aplicação da vacina japonesa Qdenga em crianças e adolescentes de 10 a 14 anos nos municípios contemplados pela estratégia nacional de imunização contra a dengue.

Especialista reforça confiança nas vacinas
Durante a entrevista, Arnaldo Gouveia Júnior afirmou que a suspensão temporária não deve gerar medo generalizado ou estimular a desconfiança em relação às vacinas.

Segundo ele, a vacinação continua sendo uma das ferramentas mais eficazes para prevenir doenças infecciosas e reduzir complicações graves, especialmente em países com alta circulação viral.

O infectologista destacou ainda que a população deve acompanhar as orientações oficiais e aguardar os resultados das investigações conduzidas pelas autoridades de saúde.

Vacinação protege indivíduos e a coletividade
O Ministério da Saúde ressalta que, além de prevenir doenças graves, a imunização contribui para reduzir a disseminação dos agentes infecciosos na comunidade, protegendo também pessoas que não podem ser vacinadas por motivos de saúde.

A recomendação é que a população continue buscando informações em fontes oficiais e mantenha atualizado o calendário vacinal disponibilizado pelo SUS.

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