Hoje damos continuidade ao texto da semana passada, assinado pelo amigo e cliente, Marcelo Vieitz. “É incrível como o mundo pode aplaudir ou se incomodar com o seu cabelo.
Durante toda a minha vida fiz apenas três mudanças drásticas no corte de cabelo, todas de curta duração. Ainda assim, todas elas tiveram o seu efeito. Duas foram na casa dos 20.
A primeira foi pintar todos os fios de uma cor incomum e chamativa, sem motivo justificado.
Na segunda, raspei totalmente a cabeça, fora de qualquer ritual ou contexto que determina essa prática, como ingresso numa universidade ou monastério oriental.
Tomei ambas atitudes sem qualquer tipo de cuidado ou orientação. Foi um ímpeto.
As reações foram diversas, em sua maior parte e em algum grau, depreciativas ou e justificativa a necessidade pessoal de mudar um pouco.
Como em certa medida eu “discordei da sociedade”, esta precisava encontrar uma justificativa que lhe agradasse, mas também depreciativa, por afrontar seus protocolos: ou eu não admitia minhas verdadeiras intenções com a mudança (desonestidade); ou era muito jovem para lidar com a minha imagem de maneira adequada (imaturidade).
A terceira estripulia capilar dista substancialmente das anteriores. Foi agora, aos 44, com emprego respeitável e relações sociais bem estabelecidas que decidi me divertir com o privilégio de não ter calvície. Queria deixar o cabelo crescer porque jamais o havia feito. As experiências do passado já tinham deixado bem claro o quanto a questão social pode se tornar um problema.
Como faria? Há poucos anos houve esse outro funcionário na mesma empresa em que trabalho (super “pra frente”, diga-se de passagem), que ficou entre manter seu cargo de chefia ou ficar com o cabelo longo, o qual teve “permissão” de crescer enquanto seu dono se aprimorava na Europa. Então, mesmo num ambiente mais tolerante devia tomar meus cuidados.
É disso que se trata. De como ajustar minha identidade ao meu gosto ou às minhas necessidades sem criar problemas sociais que possam afetar uma estabilidade de viver que todos batalhamos para conseguir. É no mínimo estranho perceber algo que a maioria quer também ser o que a maioria não permite. Continua…
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