
O rapper e poeta Renan Inquérito transformou um dos momentos mais delicados da vida em arte. O álbum Tireoide, seu décimo trabalho de estúdio, nasceu durante o enfrentamento de um câncer e carrega um tom pessoal, urgente e profundamente emocional. O disco já está disponível nas principais plataformas digitais.
Segundo o artista, o projeto não seguiu um planejamento tradicional. “Ele saiu, vazou pelos poros”, define. Mais do que um trabalho musical, o disco funcionou como uma espécie de terapia ao longo do tratamento. “Pra mim, ele é um expurgo. Foi a minha maneira de me segurar, de me encontrar comigo mesmo”, afirma.
Como se fosse a última vez
Embora o rap frequentemente carregue traços de desabafo, Renan destaca que Tireoide tem uma intensidade singular. As letras foram escritas sob a perspectiva da finitude. “A grande diferença é que eu fiz como se fosse a última vez. Isso não vai acontecer de novo. É único”, explica.
O diagnóstico, inédito na família, trouxe reflexões profundas sobre a vida, o corpo e até o significado das palavras. No álbum, termos como “maligno” ganham não apenas sentido clínico, mas também simbólico e existencial.
A filha como ponto de partida
O impulso inicial veio da relação com a filha Elis, de três anos. A faixa “Elis Não Sabe Nada” foi a primeira a ser composta e deu origem ao restante do trabalho. “Eu comecei a escrever tentando me comunicar com ela, até como uma forma de despedida”, revela.
Explicar a doença para uma criança tão pequena foi um desafio. Professor e escritor, ele recorreu à poesia e a uma linguagem lúdica para abordar o tema. “Eu expliquei pra ela, mas, no fundo, estava explicando pra mim mesmo”, diz.
Metáforas e transformação
A estética do disco também dialoga diretamente com o tema central. Inspirado no formato da glândula tireoide, frequentemente associada a uma borboleta, o artista construiu uma narrativa baseada na metamorfose.
Segundo ele, a fase de “larva” representa o diagnóstico, o “casulo” simboliza o isolamento e o processo criativo, e a transformação marca o enfrentamento da doença. “Eu me tranquei no estúdio, mas também me tranquei dentro de mim”, conta.
Processo criativo e sonoridade
Na produção, o trabalho mantém a essência do rap, mas incorpora instrumentos como saxofone, guitarra e trompete, criando camadas mais densas. As composições surgiram tanto de forma espontânea quanto a partir de bases enviadas pelo produtor Pop Black. “Muitas letras vieram de uma urgência. Outras nasceram já com a música. Quando vinha o beat, eu simplesmente desaguava”, explica.
Um registro de sobrevivência
Tireoide já conta com videoclipes lançados e novos projetos previstos. Os shows começam a partir de maio, mês de conscientização sobre doenças da tireoide.
Para o artista, o álbum vai além de um lançamento: é um marco pessoal. “É um disco feito do fundo da medula, literalmente”, resume





