domingo, 25 janeiro 2026
PESQUISADORES DA REGIÃO

Estudo liderado pela Unicamp aponta colisão cósmica no Brasil há mais de seis milhões de anos

Pesquisa identificou cerca de 600 fragmentos de tectitos e revelou o primeiro campo desse tipo já registrado no país
Por
Nathalia Tetzner
Os tectitos são um tipo específico de vidro, produzidos por colisão cósmica contra o solo. Foto: Álvaro Penteado Crósta

Um estudo liderado pela Unicamp identificou evidências de que o território brasileiro foi atingido por uma colisão cósmica há mais de seis milhões de anos. Os resultados foram publicados em uma série de artigos científicos, entre eles “Geraisitos: a primeira ocorrência de tectitos no Brasil”.

Os materiais analisados são fragmentos conhecidos como tectitos, batizados pelos pesquisadores de “geraisitos”. À primeira vista, eles se assemelham a pedras comuns ou restos de vidro industrial, mas, quando observados sob luz intensa, apresentam coloração verde-acinzentada e características que indicam origem extraterrestre.

Esses fragmentos são formados quando um corpo vindo do espaço atinge a superfície da Terra com energia suficiente para derreter instantaneamente o solo, que se solidifica novamente em forma de vidro natural.

Descoberta e campo de espalhamento
Pesquisadores da Unicamp já identificaram cerca de 600 unidades desse material em território nacional. A quantidade e a distribuição indicam que o Brasil foi atingido por uma colisão cósmica de grandes proporções em um período remoto da história geológica.

O campo de espalhamento é considerado extenso. Os primeiros registros ocorreram no norte de Minas Gerais, e os fragmentos já foram rastreados ao longo de mais de 900 quilômetros, alcançando áreas do Piauí.

Trata-se da primeira vez que um campo de tectitos desse porte é identificado no Brasil. Com isso, o país passa a integrar um grupo restrito, já que, até então, apenas outros cinco grandes campos de tectitos eram reconhecidos pela ciência em todo o mundo.

Os tectitos foram encontrados em uma extensão de 900 quilômetros pelo território brasileiro. Foto: Álvaro Penteado Crósta

Importância científica do achado
O estudo é coordenado pelo professor do Instituto de Geociências da Unicamp, Álvaro Penteado Crósta, que explica a relevância do material encontrado. “Tectitos são vidros naturais. Existem alguns tipos e os mais comuns são aqueles produzidos por vulcões. Os vulcões, quando expelem lava, também expelem vidro. Mas os tectitos são tipos específicos de vidros naturais, formados por uma grande liberação de calor quando há a queda de um enorme meteorito na superfície da Terra, ou seja, uma grande colisão cósmica”, afirmou.

Segundo o pesquisador, uma das principais diferenças entre os tectitos e outros tipos de vidro natural é a composição extremamente seca, resultado das temperaturas elevadas atingidas durante o impacto.

Busca pela cratera de impacto
A próxima etapa da pesquisa é localizar a cratera associada à colisão. Os estudos indicam que a área de maior interesse é o Cráton do São Francisco, uma das regiões geológicas mais antigas do continente sul-americano.

“Os tectitos são um material muito raro. Até a nossa descoberta, existiam apenas seis ocorrências conhecidas no mundo. Todas as ocorrências possuem características físicas e de idade bem típicas. A nossa se diferencia pelo fato de que se trata de um material produzido há mais de seis milhões de anos”, explicou Crósta.

Participação da população e divulgação científica
O professor relatou que parte do material foi identificada a partir do contato de moradores das regiões onde os fragmentos ocorrem. “Quem encontra esse tipo de material, normalmente, não são os cientistas, mas sim quem reside nos locais de ocorrência. No nosso caso, aconteceu também de uma série de moradores da região da Bahia entrarem em contato com dúvidas sobre os tectitos”, disse.

Além da pesquisa acadêmica, o grupo mantém ações de divulgação científica para combater a desinformação sobre impactos cósmicos. Com apoio de estudantes da Unicamp, Crósta participa de um perfil em redes sociais dedicado ao tema.

“É um tema que atrai muito interesse do imaginário popular, então, existe muita desinformação sobre o assunto. Quando pensamos nisso, elaboramos um perfil no Instagram com os estudantes da Unicamp para informar a sociedade sobre o assunto”, afirmou.

A divulgação científica é importante para a veiculação de trabalhos acadêmicos. Foto: Álvaro Penteado Crósta

Próximos passos da pesquisa
Para o pesquisador, compreender eventos ocorridos há milhões de anos contribui para diferenciar riscos reais de especulações sem base científica. Ele reforça que a colaboração da população pode ser decisiva para avanços futuros.

“É importante que, caso alguém encontre um material parecido com os tectitos, entre em contato conosco. Através disso, talvez possamos encontrar a cratera que originou essa ocorrência no Brasil, que é mais uma etapa da nossa pesquisa”, destacou.

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