segunda-feira, 24 junho 2024

A cidade, as enchentes, a solução

Léo Rosa de Andrade, doutor em direito pela UFSC, psicanalista e jornalista

As águas deixaram a cidade, as pessoas se acalmaram. As pessoas talvez pensem que tudo se acalmou. Ninguém pergunta para onde foram as águas; seu destino não importa. As pessoas se sentem aliviadas da inundação e não desejam nem lembrar o triste assunto.

As águas, todavia, têm que ir para algum lugar. Elas estão por aí, vão retornar. Certamente, um dia mais, um dia menos, voltarão. Quando voltarem, virão como chuva, descerão montanhas, ocuparão vales. Nada detém as águas; se muitas, tomarão lugares, farão estragos.

Nós devíamos ter construído a paisagem da cidade incluindo a paisagem das águas, considerando que elas existem, que vão, que vêm. Nós fizemos as cidades, sem observar a repetição das águas, o seu sempre retorno, a força que elas têm. Laboramos em grave equívoco.

As águas que caem sobre cidades caem sobre campos. Nos campos, grande parte das chuvas infiltra-se no solo, some sem causar males. Nos vilarejos, se as pessoas não se estabeleceram no caminho das águas, acontece igual: as águas adentram o solo; desaparecem.

Muitas cidades edificaram no caminho das águas, obstaculizando o seu curso: cobrimos os solos, as águas não se podem infiltrar; cercamo-las, elevando o nível das estradas; desmatamos, propiciando enxurradas; lastramos os baixios que as recebiam. Atos de grande insensatez.

Nas cercanias das cidades, desmatamos até mesmo as encostas. Sem árvores que retenham as águas e lhes deem tempo de infiltração, formam-se grandes volumes que correm morro abaixo, levando terra consigo, produzindo lama, provocando destruição. Causa e efeito.

Fala-se em vingança da natureza. Nada. A natureza não tem vontades; a natureza simplesmente acontece. Nós fizemos tudo isso. Nós bem que podemos desfazer. O mundo tem muitos exemplos de erros danosos assim. Assumindo nossos erros, nós bem podemos consertá-los.

O mundo tem muitos exemplos de recuperação. Essas águas que assustam as cidades, correm nos bairros, invadem e estragam nossas casas podem ser conduzidas. Com tecnologia, podem-se conduzir as águas. Conduzir as águas é preservar nossas casas, nossa paz.

Refiro qualquer cidade, mas penso na minha urbe: Tubarão. A cidade se foi fazendo sem considerar a drenagem das águas que vêm doutros lugares: cidades, campos, encostas de serra, riachos e outros rios. Todas essas águas desembocam no nosso rio. O rio não dá conta.

Você já foi no Morro de Congonhas? Todo\a tubaronense merece e deve conhecer a elevação. Vê-se o perto e o longe: a serra, o mar, mas sobretudo vê-se a cidade. Quando eleito vereador, fui lá; fui mirar o compromisso que acabara de assumir: legislador municipal de Tubarão.

A cidade, exceto poucos morros, é um baixio, uma vasta ribeira (não por acaso um “caminhão de aterro” é valiosa moeda de corrupção eleitoral). Quando dispusemos nossa paisagem urbana, a conformação geográfica da Cidade Azul, muitas vezes feita marrom, não foi respeitada.

Explico: as margens de um rio que corta vales comumente são mais altas do que os terrenos afastados. Nas bordas do rio, lentamente se acrescentam terras resultantes das enxurradas ou mesmo enchentes. Transborda água com terra; a terra se assenta nas beiras (assoreia).

As bordas do rio Tubarão, portanto, são mais altas do que a sua bacia (o vale que ligeiramente se inclina, na medida em que se afasta do leito). Quando o rio transborda, as águas tendem a se afastar, inundando toda a região, o que, em geral, sucede em crescente sem violência.

No passado, as águas transbordadas ocupavam o extenso vale; volume expressivo se infiltrava no solo desocupado. A cidade cresceu, aterrou boa parte do território, construiu casas, deitou calçadas, asfaltou ruas, cimentou pátios. Em solo coberto as águas não se podem influir.

Então, outros erros advindos do crescimento urbano pouco ordenado: primeiro, a BR-101, uma enorme barragem; depois, a SC-370, outra barragem. Enfim, as tantas avenidas, ruas, ruelas, todas elevadas, quase nenhuma com a adequada drenagem. As águas foram cercadas.

Em resumo, águas contidas se avolumam, suplantam obstáculos, provocam enxurradas, invadem casas, destroem lares, entristecem famílias. Um desastre anunciado pela desconsideração à arquitetura (paisagem) urbana. A adversa situação, entretanto, pode ser resolvida.

Como disse, em meu tempo de vereador, por dever de ofício, estudei a questão. Sei que há tecnologia disponível a custo possível. Li e conversei sobre o tema, ouvi bons livros, exposição de casos e alguns urbanistas. Problemas mais complexos do que o nosso foram resolvidos.

Sofremos um “mal de origem”, a falta de planeamento, e, hoje, uma ingênua esperança de não repetição baralhada com a hipótese de que não há solução. Mas a cidade não tem que estar sujeita às forças da natureza. Haverá outras cheias; seria desidioso deixá-las ao acaso. 

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