Terça, 28 Junho 2022

Paulo Vaz

Marcos BarbosaPreconceito

Paulo Vaz

Por Marcos Barbosa 

Inconcebível. O ano é 2022 e ainda é preciso mortes para que pautas indispensáveis venham a público. Racismo, xenofobia, gordofobia, LGBTFobia.

Nesta semana, infelizmente, uma alma notável, sensível e inspiradora nos deixou de forma trágica. Me refiro a Paulo Vaz, ou aos mais íntimos, Popo Vaz. Creio que boa parte da massa não saiba quem seja, mas àqueles que permeiam a bolha LGBTQIA é impossível nunca terem ouvido falar.

Paulo foi um homem trans. Transsexual e transgressor. Ativista, influenciador e referência trans na comunidade. Conheci-o por meio do Pedro HMC, criador do canal Põe na Roda no Youtube. Paulo e Pedro tinham um relacionamento aberto e estiveram juntos nos últimos anos. Sempre admirei a relação dos dois.

Para além disso, Paulo era inspiração, em uma sociedade onde marginalizamos transsexuais, travestis e pessoas que fogem ao padrão: masculino e feminino. Era policial civil e contou algumas vezes na internet sobre como entrou pra corporação, e outras histórias as quais eram permitidas contar. Foi exemplo de sucesso e de que há espaço e luz para semelhantes.

Como citei há pouco, Paulo mantinha relacionamento aberto com Pedro. Aos que desconhecem, relações assim permitem contato afetivo e sexual, consensual, com outras pessoas.

Antes desta fatídica perda, Pedro publicou um story, em seu Instagram, acompanhado de um homem cis. O que despertou comentários transfóbicos direcionados ao então marido, Paulo. Fico me questionando se as pessoas realmente sabem o peso que as palavras carregam. Sejam elas ditas pessoalmente ou através de comentários via rede social. Será que não se dão conta que do outro lado da tela existe também um ser humano lendo e sentindo o proferido?

Desconheço o processo de uma pessoa trans e sequer possuo lugar de fala, mas me coloco no lugar enquanto gay, e com base nas coisas pelas quais passei e senti. Que não devem ser de perto 5% do que transsexuais enfrentam em sua jornada. Por que atacar alguém por ser somente o que é? Pela coragem de mostrar-se ao mundo como se enxerga? É sobre RESPEITO! Você pode não gostar, mas deve respeitar e tratar o outro como merece.

Desconhecemos o momento pelo o qual o outro está passando. Se lida com uma depressão ou feridas ainda abertas. Munidos de uma falsa verdade, nos armamos e metralhamos sem dó quem está na outra face de um smartphone. Enquanto essa for a realidade da grande maioria, continuaremos a ter muitos Paulos nos deixando.

Fiquei estarrecido e em choque quando soube. Me dói e tenho certeza que em muitos que tiveram a oportunidade de consumir qualquer conteúdo o qual pôde participar.

Expresso aqui meu repúdio! É de se indignar, enojar, irritar-se e também é triste. Ver uma sociedade doente, que nem após passar por uma pandemia, responsável por ceifar milhões de vidas, e em meio a uma guerra, tratar tão mal um semelhante. Paulo era humano! Muitos não são. Esse é o amor que tanto prega? Essa é a humanidade que deseja compartilhar? Repense!

Meus sentimentos aos familiares, amigos e toda a comunidade que acolhe e escolhe estar perto de pessoas incríveis e únicas como foi e sempre será, Paulo Vaz. 

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