quinta-feira, 23 maio 2024

Seu trabalho faz sentido?

Iludi-me há algumas décadas com as promessas do sociólogo italiano Domenico De Masi, que acenava com a “era do ócio”. O século 21 seria aquele em que não teríamos que trabalhar tanto. Tudo estava feito, as conquistas garantidas e sobraria tempo para o lazer. Passeios, leituras, viagens, hobbies. Tudo num ambiente de tranquila convivência entre semelhantes que se consideram irmãos.
Não é bem isso o que enfrento. E talvez a maior parte das pessoas não tenha adentrado a esse paraíso. Mais uma utopia? Trabalho cada vez mais. Não sobra tempo para nada. Estou engolido em compromissos, tarefas, obrigações. Os anos passam rápido. Só não passa depressa o minuto para os exames de sangue, o teste ergométrico, o motorzinho do dentista.
O professor de antropologia da London School of Economics David Graeber escreveu em 2013 um ensaio para uma revista radical chamada Strike. Partiu da observação de que 37% das pessoas não acreditam que seus empregos contribuem significativamente para o planeta. A conclusão do antropólogo, que lançou o livro “Bullshit Jobs”, recentemente resenhado por Pilita Clarck no Financial Times, é de que o capitalismo do século 21 lembra o socialismo do século 20. Há muitos empregos desnecessários, apenas para manter as pessoas empregadas.
Para ele, os trabalhos absurdos fazem sentido para a elite empresarial rentista, preocupada com o tempo que esses serviçais teriam para pensar e exigir outras ocupações. O livro analisa mais de 250 depoimentos pessoais que Graeber recebeu ao criar conta no Gmail com o endereço: “doihaveabsjoborwhat” – tenho mesmo um emprego cretino, não é? Convidou seus seguidores no Twitter a lhe enviar testemunhos sobre seus empregos absurdos e apurou 124 descrições oferecidas pelos que acorreram ao convite.
A permanência de funções desnecessárias coincide com o prevalecimento da “gestão feudal”, com hierarquias complexas e uma teia de subordinados para maximizar a importância do chefe.
Dentre os trabalhos absurdos, ele elenca os lacaios, que nada produzem, mas dão prestígio ao chefe, a tropa de choque, os “conselheiros” do patrão, a “turma do esparadrapo”, que consertam defeitos organizacionais fictícios, os carimbadores, que legitimam a burocracia, os feitores, que supervisionam quem não precisa de supervisão.
Tal situação é clara no Brasil na Administração Pública. Tudo o que o Estado faz é mais dispendioso, mais demorado, menos eficiente. Enorme quantidade de tarefas desimportantes e irritantes causam péssima impressão ao cidadão contribuinte, que mantém a máquina. E o equipamento estatal é carregado por poucos, que acumulam funções, são responsáveis pelo andamento – ainda que irregular – dos serviços que poderiam ganhar eficiência se a gestão fosse levada a sério. Mas uma das consequências da política partidária é o abrigo obrigatório dos apaniguados ou daqueles que se “converteram” assim que se delineou o quadro de quem venceria a eleição.
No dia em que a cidadania se qualificar para efetivo controle, fiscalização e cobrança, talvez as coisas mudem. Mas para isso é preciso que, além de se considerar injustiçado e reclamar a sua parte no bolo, cada vez menor e mais pobre, os indivíduos assumam responsabilidade. Uma democracia participativa só existirá no momento em que, ao lado dos deveres, não houver hesitação em cumprir a sua parcela obrigacional para converter esta República num verdadeiro Estado de Direito de índole democrática.
De qualquer forma, um bom exercício é cada qual se questionar. Os privilegiados que ainda têm trabalho remunerado devem se autoindagar: o meu serviço ajuda o Brasil? É relevante? Se ele deixasse de existir, o que aconteceria à Nação? Posso melhorá-lo? O que eu faria se eu fosse o meu chefe?
O País está numa encruzilhada atroz. Não pode dispensar a colaboração de toda pessoa que tiver condições de pensar. As micro-revoluções podem fazer toda a diferença. Não deixemos passar a oportunidade de oferecer nossa opinião e, mais do que isso, nossa vontade de mudar as coisas, para que não sejam ainda piores.
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