sexta-feira, 19 abril 2024

Um sorriso ajuda a melhorar

Por André Luís, teólogo e psicanalista
Por
André Luís

Há alguns dias estive no litoral da Bahia com minha família. Lá, como sempre, encantei-me com as praias paradisíacas, com a alegria dos baianos, com o sotaque arrastado, com a calorosa recepção, com os pontos históricos que demarcam o “nascimento do Brasil”, e, claro, com a música. Dizem que baiano não nasce, estreia, e creio nisso também. Eita povo artístico!

Dentre as tantas músicas que ouvi em diversos ambientes, uma sempre esteve presente em todos eles: Tô Rindo à Toa, interpretada há alguns anos por uma banda de forró chamada Fala Mansa.

Ao voltar de viagem, fui pesquisar a letra na internet para poder analisá-la melhor (sim, porque quando a gente está em férias, cantando um forrozinho, nem sempre a gente se aprofunda na letra, né?). E num é que a letra é encantadora! Mas, do todo, me chamou a atenção a afirmação terapêutica dos compositores: “há há há há há mas eu tô rindo à toa, não que a vida esteja assim tão boa mas um sorriso ajuda a melhorar” (você conseguiu ler sem cantar?).

Fiquei pensando, essa música deveria ser um hino pra nós (eu sei, há outras que também deveriam ser um hino pra vida, mas eu quero, hoje, falar só sobre esta). Lembrei-me que a sabedoria bíblica também faz essa afirmação, ela diz: “A alegria do coração transparece no rosto, mas o coração angustiado oprime o espírito.” (Provérbios 15:13). E, de fato, um sorriso faz toda a diferença, especialmente nos dias maus. E faz toda a diferença porque, quando é possível sorrir nos dias maus, significa que lá dentro do peito há um coração mergulhado na esperança.

E a vida se manifesta assim mesmo: com muitas lutas, o tempo todo, de muitas formas e diversas representações para cada pessoa. Contudo, o grande desafio, para além das ilusões da vida perfeita, é não perder a esperança e nem permitir desmoronar-se sem, antes, ser resiliente.

Um sorriso sempre ajuda a melhorar. E imagino que você já tenha convivido com pessoas que têm um sorrisão. Alguns, especialmente os mais invejosos, vão dizer que o sorrisão é mera hipocrisia. Mas não é. Conheço muita gente que fez a escolha de investir na esperança, na perseverança, na fé, na resiliência, na determinação, ao invés de abandonar-se ante os dias maus. Elas, ao que percebo, entenderam que a vida é composta por dias bons e maus; entenderam que outros momentos maus já foram vivenciados e que, vencendo-os ou não, estão ali, vivas, mesmo carregando as dores, traumas e frustrações das derrotas.

A vida permite recomeços, sempre. É importante que percebamos isso, senão tudo se torna caos pra nós e, assim, somos consumidos por todos os instantes, nas multi situações que enfrentamos diariamente.

Eu sei que não é fácil perder. Sei que não gostamos de perder. Mas perdas são necessárias, fazem parte do processo, fazem parte da vida. O que não faz parte é o cultivo de uma auto-rotulação perdedora, incapaz, fragilizada; isto faz muito mal mesmo, faz muito mais mal do que as perdas que carregamos. Por isso, exercitar a esperança e, a partir dela, o sorriso, mesmo que a vida não esteja assim tão boa, nos revigora.

Com isso, não estou dizendo que não podemos sofrer; que não devemos nos entristecer; até porque isso não é possível, afinal, somos constituídos também de emoções. Eu apenas estou considerando a importância de não nos permitirmos ficar estacionados no sofrimento, na tristeza, na frustração, pois isso nos adoece e não produz meios pelos quais possamos crescer e amadurecer na vida; estou considerando que, após o tempo do lamento, é necessário o tempo do enfrentamento, aquele tempo que, poetizado na voz de Elza Soares, nos convida a levantar, sacudir a poeira e dar a volta por cima.

Portanto, no tempo oportuno, retome o sorriso; retome a esperança e a perseverança; retome a fé, mesmo que a vida não esteja assim tão boa, pois um sorriso ajuda a melhorar. Na Bahia sempre se diz: Sorria, você está na Bahia! Também podemos parafrasear e dizer: Sorria, você está na vida!

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