quinta-feira, 3 abril 2025
INTERVENÇÃO POLICIAL

Piracicaba puxa alta de mortes em confrontos policiais na região; agentes e especialistas debatem o tema

Cidade registrou alta de 600% em relação ao mesmo período de 2024
Por
Nicoly Maia e Airan Prada

No primeiro dia de abril deste ano, Gabriel Júnior Oliveira Alves da Silva, de 22 anos, resistiu a uma abordagem e atacou policiais com pedras. Como reação, recebeu um tiro na cabeça e morreu. O caso ocorreu na região do bairro Vila Sônia, em Piracicaba. As informações constam no boletim de ocorrência.

Depois, a esposa, grávida de 8 meses, foi puxada pelos cabelos por um agente. As imagens foram gravadas por uma testemunha e viralizaram em aplicativos de mensagens.

A ação pode motivar, inclusive, uma representação da Comissão de Direitos Humanos da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) de Piracicaba contra a polícia. A entidade acredita que houve “excesso” na operação. A possibilidade foi confirmada pelo presidente da comissão, Gustavo Pires, que também presta assistência à família de Gabriel.

A cidade chegou ao sétimo óbito desse tipo em 2025, considerando os três primeiros meses do ano e o primeiro dia de abril. O número representa aumento de 600% no comparativo com o mesmo período de 2024.

Gabriel Júnior Oliveira Alves da Silva, morto pela PM de Piracicaba. Foto: Reprodução/Redes sociais

Com mais esse registro, a região atingiu a marca de 20 óbitos nessas circunstâncias. Somando os dados de Piracicaba, Campinas, Hortolândia, Sumaré e Santa Bárbara d’Oeste, houve aumento de cinco mortes, elevação de 33,33%, em relação a 2024. As vítimas fatais são homens com idades entre 20 e 45 anos.

No ano passado, considerando o período analisado, a cidade que teve mais mortes em confrontos policiais foi Campinas, com 11 ocorrências. No mesmo ano, Sumaré, Piracicaba, Hortolândia e Santa Bárbara d’Oeste registraram um óbito cada. Os mortos eram homens, com idades entre 14 e 49 anos, a maioria parda e preta.

Em 2025, Piracicaba registra sete mortes, assim como Campinas. Hortolândia teve 3, Sumaré, duas, e Santa Bárbara d’Oeste, uma.

Gráfico de comparação das mortes com confronto policial. Fonte: SSP-SP

OS CONFRONTOS POLICIAIS SÃO UMA POLÍTICA DE ESTADO?

O Secretário de Segurança Pública do Estado de São Paulo, Guilherme Derrite, esteve em Piracicaba em 28 de março para a cerimônia de posse do novo comandante do CPI-9 (Comando de Policiamento do Interior), Coronel Sabino.

Na ocasião, afirmou: “eu não incentivo nenhum confronto, mas, se ele acontecer, rezo para que o policial saia vivo. Eu não sou hipócrita. Mas você vai elogiar uma ocorrência de confronto? Sim, vou, e vou continuar elogiando.”, pontuou Derrite.

O secretário Guilherme Derrite durante discurso em Piracicaba. Foto: Reprodução/TV TODODIA

O secretário, responsável pelas ações das polícias militar e civil, também mencionou que as famílias acabam sofrendo as consequências dos embates.

E isso ocorre, inclusive, com aquelas que sabem que o familiar é envolvido no crime.

FAMILIAR DE ALVO DA PM QUESTIONA MÉTODOS DA CORPORAÇÃO

Em 19 de março deste ano, durante a cobertura de uma morte por intervenção policial em Piracicaba, uma mulher se apresentou como esposa de um foragido da Justiça e comentou o caso à TV TODODIA. Ele estava foragido depois de não retornar da saída temporária do presídio, em 11 de março.

A mulher, que se identificou apenas como “Mel”, admitiu que o homem praticou roubos na região da comunidade Renascer, porém alegou que o marido estaria desarmado. “Ele errou? Errou. [Mas] tinha criança andando aqui. Tinha mãe de família andando aqui. Não tinha precisão [sic] disso. O menino estava sem arma.”

Mulher conhecida como “Mel” explica ocorrência em que o marido, foragido da Justiça, foi morto pela polícia. Foto: Reprodução/Plantão Notícia.

Ela ainda questionou a demora para seguir adiante com os trâmites burocráticos necessários. “Aí simplesmente falam que só vai reconhecer o corpo lá no IML (Instituto Médico Legal)?”, indagou.

TAMBÉM MORRE QUEM ATIRA?

O atual comandante da Guarda Civil Municipal de Piracicaba (GCMP), Marcos Alexandre Pavanello Rodrigues, viveu “os dois lados da moeda”.

Em 6 de outubro de 2017, ele e outro patrulheiro foram internados em estado grave após serem alvejados por tiros de fuzil. Na ocasião, os criminosos haviam fugido para Piracicaba depois de explodirem um carro-forte na Rodovia Luiz de Queiroz (SP-304). Os dois sobreviveram.

“A preocupação maior quando você volta é com a família”, afirma Rodrigues. Ele relata que o parceiro dele foi atingido com mais de 70 tiros àquela época.

Marcos Alexandre Pavanello Rodrigues comanda a GCM de Piracicaba. Foto: Reprodução/Câmara Municipal de Piracicaba.

Quase 10 anos depois, em 11 de março deste ano, ele liderou a ocorrência em que um homem que ameaça a esposa acabou morto em confronto com a GCM. “O cidadão faleceu após tentar agredir a guarda com uma faca. Infelizmente, ele veio a óbito. As forças policiais trabalham na preservação da vida, mas, em alguns casos, não há como evitar. Ou é a pessoa ou o policial”, argumenta Rodrigues.

ESPECIALISTAS TÊM OPINIÕES DIVERGENTES

O especialista em armamento, perícia e segurança estratégica, Sandro Bearare, relata que “o melhor confronto é aquele que não existe; uma redução não começa quando o policial está com a arma em mãos. Ela começa na base da estrutura social”.

Para Bearare, o principal fator que influencia os confrontos é a reincidência criminal. “Quando o sistema prende e solta, o policial é obrigado a enfrentar o mesmo agressor. A redução não depende apenas da força de vontade do policial; esse profissional não tem muita escolha quando a situação já estourou na sua frente. O confronto, nessa altura, já é um resultado das falhas públicas.”, salientou o especialista.

O especialista em segurança Sandro Bearare acredita que o confronto policial resulta de uma falha da sociedade. Foto: Reprodução/TV TODODIA

O advogado criminalista Tiago Malosso possui outra visão. Ele crê que o aumento nos índices de mortes em confrontos está relacionado ao uso excessivo de força policial. “A gente não tem uma segurança pública bem estruturada, que utiliza inteligência em vez de força bruta no momento da intervenção.”

Advogado criminalista, Tiago Malosso. Foto: Reprodução/TV TODODIA

Para Malosso, o confronto se torna desproporcional e reforça que a polícia tem treinamento e técnicas para usar nas intervenções. “A gente está pensando mal no nosso sistema de segurança, em como a gente age, como preparamos nossas corporações policiais e como elas são geridas e comandadas.”, finaliza Malosso, que também indicou o “racismo estrutural” como uma das causas da escalada de mortes em confronto.

O QUE DIZ A SSP-SP?

A reportagem questionou a Secretaria de Segurança Pública do Estado de São Paulo sobre o tema. A pasta informou que, em todos os casos de mortes decorrentes de intervenção policial (MDIPs), são instauradas comissões de mitigação de riscos, e todas as ocorrências são investigadas rigorosamente pelas polícias Civil e Militar, com o acompanhamento das corregedorias, do Ministério Público e do Judiciário.

Íntegra da nota da SSP-SP.

No documento, a SSP-SP reforça que em, janeiro deste ano, as MDIPs caíram de 59 para 38 casos no Estado, revertendo a alta registrada nos meses anteriores. Segundo a pasta, em 2024 o estado registrou 32 policiais mortos, o terceiro menor número da série histórica, representando uma redução de 81% em relação a 2001.

A secretaria relata que a gestão atual tem investido na formação contínua do efetivo, no uso de armas de menor potencial ofensivo e na revisão de procedimentos operacionais com o objetivo de reduzir a letalidade policial.

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