sábado, 5 abril 2025

Famílias estimulam crianças a brincar na rua

Pega-pega, amarelinha e queimada são brincadeiras que fazem parte do imaginário coletivo de vários adultos de hoje, mas que são cada vez mais escassas nas ruas. Frente a esse cenário, alguns pais se preocupam em incentivar seus filhos a ocuparem espaços ao ar livre para se divertir em grupo.

É o caso da psicopedagoga Viviane Setaro Baruchi, 45 anos, que toda semana leva os dois filhos, Enzo, 11 anos, e Giovana, 7, para brincar com os amigos em parques e ruas que fecham para carros aos domingos, na capital paulista. “Quando a criança brinca de uma simples amarelinha, está fazendo um trabalho imenso na parte corporal dela e na criação de sua personalidade”, defende Baruchi.

Ela explica que os pais ficam muito mais preocupados com outros aspectos, como o desenvolvimento da escrita da criança, e se esquecem de brincar com ela, de levá-la para pisar na grama e na areia, desenvolvendo assim seu equilíbrio, conhecimento corporal e interação com outras crianças e a natureza. “É importante resgatar essas brincadeiras para a formação da coordenação motora, da atenção e da imaginação”, afirma.

Baruchi também vê seus filhos mais vulneráveis com um celular e dentro do quarto do que brincando ao ar livre. Ela afirma que muitos pais se preocupam em trabalhar para ter uma condição financeira melhor e poder pagar uma boa escola, por exemplo, e acabam se esquecendo de estarem presentes. “Muitas vezes as crianças precisam até de um direcionamento, porque não conseguem brincar sozinhas justamente por estarem acostumadas aos celulares. Preciso falar ‘vai lá, pega isso, brinca daquilo’”, conta.

NOLSTALGIA

O empreendedor Bruno Luiz Leibholz, 38 anos, diz se preocupar em ser presente para sua filha Manuela, 4, e por isso a leva para brincar ao menos uma vez por semana em parques da capital paulista. A brincadeira, no entanto, também precisa ser sempre assistida. “A gente fica esperto. Na minha época, brincávamos na rua sem pai nem mãe, mas hoje já não dá”, diz Leibholz.

As brincadeiras mais frequentes para eles chegam a ser nostálgicas para alguns: jogar bola e andar de skate ou de carrinho de rolimã. “Estimula muito a adrenalina e alegria, vejo isso no rosto da Manuela. Fora o contato entre pai e filha, que fica muito mais próximo.” Sempre que possível, a menina se junta aos primos da mesma idade para se divertir e esquecer que existe celular – Manu já disse que prefere a brincadeira ao ar livre e se sente melhor movimentando o corpo. Pietra, 9 anos, filha da vendedora Diana Coelho, 37, também prefere o mundo real ao virtual.

“No celular a gente fica ali, parado. Na rua dá para correr, fazer mais amigos, brincar. A gente se mexe mais.” Moradoras de Guaratinguetá, no interior, as duas encontram mais segurança nas ruas menos movimentadas. “Tem bastante criança na rua por aqui. Elas saem da escola e brincam de capoeira, pega-pega, amarelinha, esconde-esconde e queimada”, diz Coelho.

Quando a criança brinca de amarelinha, está fazendo um trabalho imenso na parte corporal e na criação de sua personalidade. VIVIANE BARUCHI psicopedagoga

Tecnologia em excesso pode causar problemas

Muitos pais não levam os filhos para fora de casa por medo da violência. Mas, segundo a psicopedagoga Viviane Setaro Baruchi, na verdade a insegurança sempre existiu e só parece se intensificar por conta das notícias ruins que chegam a todo momento.

Ela mesma afirma tomar cuidado quando sai de casa com os filhos, como vestir uma camiseta de cor mais chamativa e estar sempre de olho na cria. “Na periferia você ainda encontra crianças andando sozinhas, mas, conforme os bairros vão ficando mais elitizados, isso muda”, diz. “Em geral, as ruas não permitem mais essas brincadeiras pelo trânsito, mas os parques proporcionam esse espaço e cabe aos pais arrumarem tempo livre para seus filhos.”

Segundo Baruchi, os pais estão cada vez menos preparados para lidar com essas situações e encontram no celular e na tecnologia um “sossego” imediato, que pode ter consequências negativas – ela diz que já recebeu crianças em seu consultório que não conseguiam ficar em um só pé ou pular amarelinha. A psicóloga infantil Milene Matos também percebe essas mudanças no mundo contemporâneo. “Vemos cada vez mais crianças com menos recursos psíquicos para enfrentar os desafios da convivência. Nas clínicas, há crianças mais ansiosas e com dificuldade de dormir. Muitas estão tendo até dificuldade de interação e de linguagem.”

Ela avalia que não só crianças, mas também adultos, têm saído cada vez menos de suas casas, e isso acontece também porque as famílias são cada vez menores. “Com menos crianças, essa companhia de ir para rua, com irmãos ou primos, diminuiu. Antigamente se vivia de forma mais comunitária e os vizinhos se conheciam.”

A psicóloga diz que a tecnologia é, sem dúvidas, um agravante dessa situação, e que pais têm tido muita dificuldade de tirar as crianças de frente das telas –a oferta de programas hoje é muito maior e mais atrativa, diferente de antigamente, quando um único filme era exibido na televisão, em um determinado horário. “Existe uma economia psíquica quando se fica em frente a uma TV. Brincando na rua, ele terá que compartilhar o seu brinquedo e viver sob as regras da brincadeira. É um desafio.” Ela também ressalta o problema da “infância vigiada”, ou seja, do acesso cada vez maior a tudo o que acontece nas escolas.

 

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