terça-feira, 27 fevereiro 2024

Liceu Coração de Jesus fecha as portas aos 137 anos por causa da cracolândia

 O  colégio sofre há décadas com a falta de segurança que tem levado à perda de alunos

Fachada do Colégio Coração de Jesus, em São Paulo (Foto: Moacyr Lopes Junior/Folhapress)

Fundado há 137 anos, o Liceu Coração de Jesus, no Campos Elíseos, região central de São Paulo, anunciou que vai encerrar as atividades. Instalado nas proximidades da cracolândia, o colégio sofre há décadas com a falta de segurança que tem levado à perda de alunos.

O fechamento do colégio foi anunciado às famílias no começo de agosto. As atividades escolares serão mantidas até o fim do ano letivo. A partir de 2023, o prédio vai funcionar apenas para as atividades sociais, uma creche conveniada com a Prefeitura de São Paulo e um abrigo para catadores de recicláveis, além da paróquia que funciona no local.

Um dos mais tradicionais colégios do país, o Liceu Coração de Jesus foi fundado em 1885 com o apoio da princesa Isabel. Na unidade já estudaram, por exemplo, o ator Grande Otelo e o cantor Toquinho.

O colégio já chegou a ter mais de 3.000 alunos e ofereceu até mesmo cursos de graduação, mas há cerca de 20 anos sofre com a insegurança do local.

O liceu fica na alameda Dino Bueno, próximo a praça Júlio Prestes, região onde a cracolândia se concentrou por anos até migrar para a praça Princesa Isabel, até que foi dispersada em março deste ano. Ainda que os usuários não se concentrem mais no local, eles têm peregrinado pela região.

Hoje, segundo a direção, o colégio tem menos de 200 alunos matriculados e só tem turmas de ensino fundamental (do 1º ao 9º ano). Com baixa procura de famílias, a unidade deixou de ofertar turmas de educação infantil e ensino médio há alguns anos.

Segundo a direção do colégio, o pequeno número de alunos e o alto custo de manutenção do prédio, que ocupa uma área de 17 mil m², tornaram a situação financeiramente inviável.

“Ficou insustentável continuar com o colégio. Não temos mais procura de famílias porque o entorno dificulta muito. Tentamos de tudo para melhorar a situação, mas não é mais possível”, disse o padre Cássio Rodrigo de Oliveira.

Em reunião com os pais para anunciar o encerramento, a direção do colégio explicou que os alunos podem ser matriculados em outras unidades da Rede Salesiana Brasil de Escolas na cidade: o colégio Santa Terezinha e o Instituto Madre Mazzarello, ambos na zona norte.

Ainda segundo Oliveira, os alunos bolsistas do Liceu podem tentar manter as bolsas nessas outras unidades. Também disse que tentarão alocar professores e funcionários nos outros colégios da rede para evitar demissões.

Oliveira não informou o número de funcionários da escola. Segundo dados do Censo Escolar, feito pelo Ministério da Educação, a unidade tinha 51 professores em 2021.

“Avisamos primeiro nossos colaboradores e depois as famílias com seis meses de antecedência para que todos tenham tempo de se programar e encontrar a melhor situação. Essas famílias confiavam seus filhos a nós, por isso, precisamos ser responsáveis e leais a elas também” disse o padre.

Em um comunicado oficial às famílias, o padre José Adilson Morgado, diretor do Liceu, destacou a vocação humanística e social do colégio e explicou que a situação financeira não é mais sustentável.

“Sempre existiu a preocupação de corresponder às necessidades de cada momento. Não é sem dor que temos que assumir os momentos difíceis da história. Nos últimos tempos, temos diminuído o número de alunos e de atendimento e é uma situação delicada”, disse o diretor no comunicado.
As famílias lamentaram que a insegurança da região tenha forçado o colégio a encerrar as atividades. Edna Santos, 50, é moradora do bairro e mãe de uma aluna que está há oito anos na unidade.

“A situação do bairro está muito difícil, cada dia mais inseguro. E é triste perder uma escola desse tamanho e dessa importância para a insegurança”, disse a mãe, que paga atualmente R$ 1.481 pela mensalidade da 8ª série do ensino fundamental.

Manoela Garcia, 39, também já teve os dois filhos estudando no liceu e disse estar inconformada com o fechamento da escola. “Era uma extensão da nossa casa, da nossa família. É uma tristeza muito grande que a situação atual tenha levado ao fechamento de um colégio”, disse.

A mãe Patrícia Santana, 38, diz que os pais foram pegos de surpresa com o anúncio do fechamento. “Ficamos bem chateados, tristes. Achávamos que teríamos mais um ano para correr atrás de outras escolas e agora estamos vendo o que fazer. A situação é bem complicada e estamos bem preocupados com o que fazer para o próximo ano.”

Já Sintia Picin, 35, que possui dois alunos há oito anos estudando no Liceu, tece elogios ao colégio, tanto na parte educacional quanto no cuidado com as crianças. Ela afirma que a região está atualmente melhor do que já foi no passado.

“É uma grande perda para a região do centro. Já teve momentos bem piores, porque a cracolândia era na rua da escola. Claro que essas pessoas continuam espalhadas pela cidade, mas a situação já melhorou bastante, até com a construção do hospital [Pérola Byington, que fica nas proximidades]. Então, a região está melhor e ficamos muito tristes. A gente não queria que isso acontecesse e gostaria de reverter a situação, se fosse possível”, comentou Picin.

Procurada, a Prefeitura de São Paulo apenas listou as ações que estão sendo realizadas no Centro da capital. Em relação ao acolhimento de dependentes químicos da cracolândia, a gestão Ricardo Nunes (MDB), “por meio da Secretaria Executiva de Projetos Estratégicos (Sepe), informa que o resultado das ações integradas do Programa Redenção tem gerado ampliação no atendimento dos dependentes químicos e redução do fluxo de pessoas consumindo drogas nas ruas”.

E quanto à segurança da região, “a Secretaria Municipal de Segurança Urbana informa que a Guarda Civil Metropolitana realiza o policiamento comunitário e preventivo na região da Nova Luz, 24 horas por dia, por meio de rondas periódicas em todo território, inclusive nos pontos turísticos da região, com efetivo de 80 agentes e 20 viaturas. A Guarda mantém duas Bases Comunitárias fixas na região Central, uma no Vale do Anhangabaú e outra na Praça da Sé”.

Próximo ao colégio Liceu Coração de Jesus, a prefeitura destaca o trabalho feito pela Guarda Civil Metropolitana (GCM). “Além do patrulhamento efetuado na região, a Guarda iniciou em julho o Programa Praça Segura, na Praça Júlio Prestes, com o objetivo de aproximar a GCM da comunidade e incentivar o uso do espaço público pela população”, diz a nota.

HISTÓRICO DO LICEU CORAÇÃO DE JESUS
– Fundado em 1885, tinha como missão a educação de jovens de baixa renda
– Seus primeiros alunos foram filhos de escravos e de imigrantes italianos
– Em 1924, o prédio foi atingido por um dos bombardeiros lançados à antiga sede do Governo de São Paulo durante a Revolta Paulista
– Foi a primeira instituição paulistana a oferecer ensino médio noturno
– Em 2021, tinha 233 alunos matriculados em turmas do ensino fundamental e 43 no ensino médio, segundo o Censo Escolar 

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