segunda-feira, 24 junho 2024

Por que o diagnóstico do TEA é tão desafiador

 Alguns transtornos podem se confundir com o TEA, como o TDAH e a síndrome de Savant

A ONU (Organização das Nações Unidas) definiu o 02 de abril como Dia Mundial de Conscientização do Autismo (World Autism Awareness Day). Ao longo do mês, é realizada a Campanha Abril Azul, para conscientizar a população sobre a inclusão de pessoas com TEA (Transtorno do Espectro Autista).

De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), estima-se que dentre 200 milhões de habitantes, cerca de 2 milhões possuem o TEA. Para comprovar esse número e entender a prevalência do TEA no Brasil, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) colocou, pela primeira vez, o transtorno no radar das estatísticas, com o objetivo de mapear quantas pessoas vivem com o TEA e quantas podem ter, mas ainda não receberam o diagnóstico.

Esse dado foi incluído após a sanção da Lei 13.861/19, que obriga o IBGE a inserir perguntas sobre o autismo no Censo de 2020. Esses dados deveriam ter sido mapeados em 2020, mas foram adiados para 2022 por conta da pandemia do COVID-19.

Já segundo o mais recente relatório divulgado em 2021 pelo CDC (Center of Diseases Control and Prevention), órgão ligado ao governo dos Estados Unidos, 1 em cada 44 crianças tem TEA. Os dados são baseados exclusivamente em declarações de diagnóstico de TEA, com crianças de 3 a 8 anos.

As pesquisas mostraram diferenças importantes nos resultados entre os grupos raciais e étnicos. Em várias regiões, as crianças hispânicas apresentaram menor prevalência de TEA do que crianças brancas e crianças negras não hispânicas.

“É fundamental aprofundar estes estudos para entender o motivo de tanta diferença no diagnóstico de TEA quando comparado a regiões geográficas (Estados, cidades, bairros) e diferenças raciais. Assim, é possível descobrir mais sobre o transtorno e investigar suas causas que, hoje, são apontadas como genéticas e ligadas a fatores ambientais”, defende Danielle H. Admoni, psiquiatra geral, preceptora na residência da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP/EPM) e especialista pela ABP (Associação Brasileira de Psiquiatria).

Entenda o TEA na infância
Segundo a psiquiatra, o diagnóstico começa pela observação do comportamento da criança.

“O TEA, na realidade, envolve um grupo de transtornos do neurodesenvolvimento, de início precoce (antes dos 2-3 anos de idade), e que se caracteriza por dois aspectos principais: dificuldade de interação social e de comunicação. Uma criança neurotípica (que não possui problemas de desenvolvimento neurológico) começa a interagir com outras pessoas em torno dos 4-6 meses de idade”.

De acordo com ela, a criança é capaz de sorrir quando vê alguém conhecido ou reagir com medo se um estranho, por exemplo, tenta pegá-la no colo. A medida que a criança cresce, o amadurecimento permite que a interação com outras pessoas se torne possível antes da aquisição da linguagem e da fala.

Ao longo dos primeiros anos de vida, estas evoluções indicam o progressivo aumento da capacidade de interação social da criança. Já aquela com TEA se mostra indiferente à interação social e não expressa a reciprocidade no contato com outras pessoas. Tem grande dificuldade na comunicação verbal e não verbal, e parece desligada do ambiente em torno de si. A linguagem corporal e o contato visual com outras pessoas se mostram prejudicados.

“Numa idade maior, o desinteresse em brincar com outras crianças é ainda mais nítido. Normalmente, ela se isola e se fixa em uma única atividade, com ritualização de movimentos repetitivos. Outra característica é a dificuldade de seguir rotinas, além de apresentar hipo ou hiperatividade aos estímulos sensoriais”, reforça Danielle Admoni.

Por que o diagnóstico é complexo
Há uma certa dificuldade em entregar um diagnóstico preciso, principalmente em meninas, pois elas não costumam se encaixam na maioria dos estereótipos do TEA e apresentam sintomas muito mais mascarados do que meninos.

“Alguns transtornos também podem ser confundidos com o TEA, por apresentarem sinais semelhantes, como dificuldades no desenvolvimento, principalmente o social e de comunicação”, aponta Danielle Admoni.

Veja alguns exemplos:

Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH)
Há dificuldade para prestar atenção e concluir tarefas, além de haver episódios de agitação e impulsividade.

Síndrome de Savant
Há uma capacidade de memorização elevada e resolução de problemas matemáticos, mas apresenta um déficit de inteligência em alguns aspectos e dificuldades de interação social.

Síndrome X-Frágil
Muito semelhante ao TEA, pois os sintomas mais característicos são os distúrbios de comprometimento intelectual, desde leve dificuldade no aprendizado até deficiência mental grave.

“Devido à falta de informação, muitas famílias não conseguem perceber os primeiros sinais do transtorno, que podem surgir antes da criança completar um ano. Sendo assim, é muito comum obter o diagnóstico tardio”, conta a psiquiatra.

Tratamento
Embora o TEA não tenha cura, o acompanhamento multidisciplinar é fundamental, envolvendo psicólogo, pediatra, psiquiatra, fonoaudiólogo, neurologista, entre outros especialistas.

Medicamentos são utilizados quando há outros sintomas associados, como ansiedade, TDAH, depressão, transtorno obsessivo compulsivo, agitação, irritabilidade, distúrbios do sono, entre outros. Para cada situação, há uma medicação específica.

“Vale lembrar que a busca por terapias com práticas baseadas em evidências científicas pode fazer toda a diferença. Também é fundamental entender que a evolução da criança e as intervenções utilizadas pelos profissionais podem variar muito, já que o TEA pode afetar cada criança de maneira totalmente distinta”, finaliza Danielle Admoni.

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