Quarta, 22 Setembro 2021

'Vivemos a república do ódio', diz idealizador da Marcha para Jesus e apoiador de Bolsonaro

CotidianoMarcha

'Vivemos a república do ódio', diz idealizador da Marcha para Jesus e apoiador de Bolsonaro

Três anos, uma vitória bolsonarista e uma pandemia depois, o líder da igreja Renascer em Cristo,  Estevam Hernandes, diz que "estamos vivendo a república do ódio, e aí fica muito complicado falar sobre tolerância" 

Hernandes vai liderar neste sábado (24) a Carreata da Solidariedade, versão sobre rodas do maior evento evangélico da América Latina ( Foto: Reprodução/ Renascer em Cristo)

'Vivemos a república do ódio', diz idealizador da Marcha para Jesus e apoiador de Bolsonaro

Em 2018, o apóstolo Estevam Hernandes aconselhou Jair Bolsonaro, então candidato à Presidência, a pregar mais "amor e tolerância".

Três anos, uma vitória bolsonarista e uma pandemia depois, o líder da igreja Renascer em Cristo diz que "estamos vivendo a república do ódio, e aí fica muito complicado falar sobre tolerância". Como chamar de genocida o presidente do país que acumula 543 mil vítimas da Covid-19. "Sabe, acho sinceramente um absurdo, um absurdo, pegar um homem e falar que ele é genocida dentro de uma pandemia."

Hernandes vai liderar neste sábado (24) a Carreata da Solidariedade, versão sobre rodas do maior evento evangélico da América Latina. Idealizada por ele em 1993, a Marcha para Jesus deve acontecer em novembro, se a crise sanitária arrefecer.

Para o apóstolo, que já votou em Lula e hoje marcha com Bolsonaro, dificilmente a esquerda reconquistará a maioria evangélica. Questões como aborto e família "são barreiras efetivas", diz. Mas ele não crava que em 2022 seguirá o presidente. "Creio que tudo é muito dinâmico."

O conservador Hernandes critica, contudo, a visão de que um crente não possa ser de esquerda. "Se você está na Renascer e é PT, é esquerda, amém", afirma. "Às vezes as pessoas falam, 'Deus não é de direita nem de esquerda, Deus é amor'."

*

Pergunta - Em 2020, a Marcha para Jesus foi cancelada. Em 2021, adiada. Como a pandemia afetou as atividades religiosas?

Estevam Hernandes - Num primeiro momento, as igrejas tiveram que ficar fechadas. Depois, com lotação reduzida. Depois fechou novamente. Obviamente que isso causou uma interferência negativa. Algumas pessoas, pela idade, não voltaram ainda à igreja. Mas tivemos muitas coisas positivas. Houve um despertar da igreja muito forte quanto à assistência ao próximo. Estamos distribuindo cerca de 20 mil cestas básicas por mês.

E no dízimo?

EH - Não houve muita alteração, porque temos um trabalho online muito forte. Claro que houve impacto, como houve para todo mundo. No primeiro momento foi muito brusco. Depois começou a ter adaptação.

O sr. foi um dos pastores que apoiaram templos abertos durante a pandemia. Por quê?

EH - A igreja é o hospital da alma, aonde as pessoas vão buscar Deus nos momentos difíceis. Tivemos casos de pessoas muito desesperadas, até houve tentativas de suicídio. Apoiamos 100% todos os protocolos. O risco no culto estava extremamente minimizado. Claro que não existe risco zero para nada. Mas a gente vê muitas incoerências, transporte público funcionando a pleno vapor. Não é a igreja que iria influenciar nesse sentido.

E ter culto presencial faz diferença? O sr. falou que a Renascer é pioneira no trabalho online.

EH - Ah, faz. Meu Deus do céu. Para nós, a comunhão é um fator fundamental para transmitirmos uns aos outros a presença de Deus de uma maneira mais forte. A Bíblia fala que é na comunhão dos santos que Deus ordena a bênção. E às vezes, em casa, a pessoa está ligada aqui [no culto], mas a criança chora, o outro vem e fala. De alguma maneira, tem um desvio de atenção.

Para o sr., a pandemia é um sinal do fim dos tempos, como escuto pastores dizerem?

EH - Acho complexo falar que é sinal do Apocalipse. Jesus falou no Evangelho de Mateus que, quando ouvíssemos falar de guerras, pestes etc., isso seria o princípio das dores, não o fim. Quando houve a peste espanhola, diziam: "Agora é o fim". E não era. Muitas vezes criam um clima de terror em relação a isso, mas a Bíblia é clara. Cremos na rota de Cristo, e isso não é motivo de angústia, e sim de resgate da igreja.

Na Páscoa, a bispa Sonia pregou sem máscara para 500 fiéis e os orientou a desligar a Rede Covid, uma alusão à Rede Globo. Como a mídia deveria retratar uma pandemia que matou 543 mil?

EH - Acho que ela não falou nesse sentido de querer reprimir ou censurar a mídia. Creio que falou no sentido daquilo que é a insistência muitas vezes em notícias aterrorizantes. A mídia tem que falar a verdade, mas muitas vezes essa insistência pode levar as pessoas ao desespero.

E a mídia acerta o tom para a gravidade da pandemia?

EH - É o tom adequado, mas às vezes vejo coisas exageradas. Pega um evento como o Grande Prêmio de Fórmula 1 da Inglaterra. Completamente lotado, todo mundo sem máscara, e é uma realidade, a Inglaterra acabou com as restrições. Quando você fala como se fosse, "nós vamos usar máscara eternamente", aí acho que é forçação desnecessária. Não precisa deixar a mensagem de que devemos usar máscara eternamente. Eu sou a favor de usar, tô vacinado, tive Covid, poderia falar: "Não uso mais máscara". Eu uso porque minha consciência é a de que no momento é necessário, e devo dar de exemplo às pessoas.

A sua Covid foi leve?

EH - A minha Covid foi fantástica, porque não tive nada. Em dois dias acordei febril, mas fui treinar, nadar, não senti mais nada. Não tinha feito teste ainda.

Muitos pastores fizeram barulho ao defender templos abertos e atacar medidas como o isolamento, mas poucos postaram fotos se vacinando.

EH - Não sei te dizer o porquê. Desde o primeiro momento, estimulei, postei, fiz campanha de conscientização em todas as minhas redes, na igreja. Sempre acreditei que a vacina era a saída, a ciência que Deus deu ao homem para podermos efetivamente nos tratar. Precisamos nos vacinar, mas claro que temos que depender 100% de Deus. Talvez algumas pessoas tenham esse receio de querer invalidar, "ah, não foi Deus, foi a vacina". Ou então porque alguns efetivamente não creem na vacina. Aí é de foro íntimo.

Muitos exaltaram o kit Covid...

EH - Há tanta controvérsia. Eu não tomei nada. Também não sou contra quem toma. Se tem comprovação científica, deve tomar. Se não tem Muitas vezes, a pessoa toma placebo, ela crê 100% naquilo e, associando à sua fé, fica curada. Então não sou contra o kit. Agora, obviamente também que não propago aquilo que não tem comprovação científica.

Por que fazer a Carreata da Solidariedade?

EH - Chamamos de Esquenta Marcha. Queremos ter a presença do povo de Deus nas ruas. Pegamos como mote a solidariedade porque estamos trabalhando esse aspecto de amor ao próximo. Pedimos para [o fiel] encher a mala de alimentos, vamos fazer uma arrecadação.

O sr. é fã de motocicletas.

EH - Sou!

Já foi a uma das famosas motociatas de Bolsonaro?

EH - Estive na de São Paulo.

O sr. me disse em 2018 que Bolsonaro precisava pregar "mais amor e tolerância". Ele seguiu seu conselho?

EH - Meu conselho foi o daquilo que creio no Evangelho. Jesus participou de todas as atividades que a sociedade laica permitiu, teve diálogo com a prostituta, entrou na casa de Zaqueu, pessoa completamente discriminada. Era chamado até de beberrão e fanfarrão, exatamente porque quebrou uma série de paradigmas. Pra mim só existe Evangelho se houver amor, e amor é aquilo que respeita o próximo. Continuo crendo nisso. Agora, conselho a gente dá, a pessoa segue se quiser.

Mas o sr. o vê como um presidente do amor e da tolerância?

EH - Olha, acho que ele é o presidente da honestidade, que tem muitas propostas importantes para o país. Estamos vivendo a república do ódio, e aí fica muito complicado falar sobre tolerância. Temos polarização hoje no país. Obviamente que ele também tem seus momentos de colocar pontos de vista que se tornam muitas vezes, para muitos, intolerantes em relação a algo. Mas é a posição dele, que eu respeito. Só que creio que ele é o homem certo para o momento que o país está vivendo, independente de tudo aquilo que lamentavelmente as pessoas imputam.

Como o quê?

EH - Como [chamá-lo de] genocida. Sabe, acho sinceramente um absurdo, um absurdo, pegar um homem e falar que ele é genocida dentro de uma pandemia. Que possam existir erros, é uma coisa. Agora, atribuir mortes a uma pessoa, [algo sobre o qual] ele não tem absolutamente controle Muito difícil, às vezes, a gente pegar e tomar algumas posições tolerantes num contexto como esse em que a gente vive.

Daria um novo conselho a Bolsonaro?

EH - Daria muitos. De prudência, até no aspecto pessoal, para que se preservasse mais, para que ele pudesse até de certa forma ouvir mais as pessoas.

Minha próxima pergunta era se o presidente terá seu apoio em 2022, mas acho que o sr. já respondeu.

EH - 2022 é o ano que vem. Creio que tudo é muito dinâmico. Eu obviamente, em termos do presidente, falo para você que só se houver mudança brusca, radical, que me faça mudar de posição. Só que 2022 está muito distante ainda. É um cenário que a gente tem que esperar, observar.

O eleitorado evangélico virou uma bússola eleitoral?

EH - Até mesmo pela proporção dentro da população, esse peso acaba definindo eleições, sem dúvida nenhuma. Só que também não existe monopólio desse povo. Existe a liberdade. Nós temos nossas posições, mas não existe isso de "você tem que votar". Claro que uma liderança influencia. Mas não tem garantia do voto evangélico para "a" ou "b".

Pesquisa Datafolha aponta que Lula e Bolsonaro empatam entre evangélicos. O petista pode fazer algo para reconquistar esse voto?

EH - Há algumas questões que são barreiras muito grandes para que o PT consiga penetrar no segmento. Como o aborto, a família, que são barreiras efetivas que podem impedir esse crescimento.

A esquerda ensaia diminuir o espaço das pautas identitárias para focar mais em questões econômicas e sociais. Esse discurso vai ter aderência?

EH = Acho muito, muito difícil. Hoje temos um público esclarecido. Se você pega uma pauta específica e coloca como foco, não invalida tudo aquilo que a esquerda pensa.

Na semana passada, um pastor da Assembleia de Deus disse que o crente filiado a partidos de esquerda não poderia estar na igreja dele. O sr. concorda com essa visão?

EH - Acho um absurdo se manifestar dessa maneira, com todo o respeito ao pastor que está ausente aqui. Não tem nada a ver o aspecto espiritual com o político. Se você está na Renascer e é PT, é esquerda, amém. Não há absolutamente nenhum tipo de problema. O apóstolo Paulo fala que a graça de Cristo é multiforme. Às vezes as pessoas falam, "Deus não é de direita nem de esquerda, Deus é amor".

O sr. já simpatizou com a esquerda?

EH = Simpatizar, nunca. Mas creio que todos nós um dia votamos no Lula, né? Confesso que votei no Lula, mas não por simpatizar. Estive com Lula uma vez, um encontro no Rio. Nunca tive proximidade. Sabe que quem assinou a lei da Marcha para Jesus foi Lula? Estive com ele lá no Palácio [do Planalto] também, quando ele assinou a lei [de 2009, incluindo a Marcha no calendário oficial do país] .

Se ele quisesse conversar, toparia? O PT vem tentando abrir frente com evangélicos.

EH - Se for para conversar sobre coisas espirituais, converso com qualquer pessoa. Mas se for para conversar sobre aspectos políticos e de apoio, não converso. 

 

Comentários:

Nenhum comentário feito ainda. Seja o primeiro a enviar um comentário
Já Registrado? Acesse sua conta
Visitante
Quarta, 22 Setembro 2021

Ao aceitar, você acessará um serviço fornecido por terceiros externos a https://tododia.com.br/