População preta e parda cresce em São Paulo e chega a 41,8%, mas desigualdade racial ainda persiste, apontam especialistas
Na região de cobertura da TV TODODIA dados do CNJ (Conselho Nacional de Justiça) apontam o registro de 51 novos casos de racismo entre 2023 e 2026
A população que se reconhece como preta e parda no estado de São Paulo representa 41,8% do total, segundo dados da PNAD Contínua 2025, do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). Em contraste, a pesquisa mostra que a população que se autodeclara branca diminuiu 6,48%.
Segundo o professor Juarez Xavier, da Unesp (Universidade Estadual Paulista), o fenômeno pode ser explicado por três fatores: a valorização da questão racial com fortalecimento da autoestima, o avanço de políticas públicas e uma reação da população negra diante da valorização de discursos racistas e de um identitarismo branco nos últimos anos. “A população negra passou a reforçar a autodeclaração como forma de afirmação e resposta a tentativas de manutenção de privilégios históricos, construídos desde o período da escravização.”
Números da pesquisa
De acordo com o IBGE, em 2012, 2,4 milhões de pessoas se declaravam pretas. Em 2025, esse número subiu para 3,9 milhões. A população parda também cresceu, passando de 12,4 milhões em 2012 para 15,3 milhões em 2025.
Segundo o analista socioeconômico do IBGE, Jefferson Mariano, a metodologia da pesquisa é baseada na autodeclaração. “A pergunta é como a pessoa se autodeclara. Não há imputação de dados pelo pesquisador. É o próprio entrevistado que diz como se vê.”
O analista aponta dois fatores principais para esse crescimento: a maior taxa de fecundidade entre mulheres pretas e pardas e o aumento da autoestima ao longo dos últimos anos. “O primeiro é a maior taxa de fecundidade entre mulheres pretas e pardas, o que amplia a presença de jovens nesses grupos. O segundo é o aumento da autoestima ao longo dos últimos anos. Pessoas que antes se declaravam brancas passaram a se declarar pretas e pardas, reforçando o pertencimento.”
Desigualdades persistem
Apesar do avanço, Juarez Xavier afirma que ainda há desigualdades no acesso ao mercado formal de trabalho, à renda e à educação. “A população negra não tem o mesmo acesso ao mercado formal de trabalho nem ao mesmo nível de renda da população branca. Também enfrenta maior dificuldade no acesso à educação, mesmo com políticas de ação afirmativa.”
Ele também aponta a existência de segregação social, com a população negra concentrada em espaços mais afastados e com menor acesso a serviços públicos de qualidade, o que limita o exercício da cidadania e mostra a importância de políticas públicas mais efetivas.
Para Jefferson Mariano, o crescimento da população preta e parda também impõe desafios à gestão pública. “Ainda há desigualdade no acesso a oportunidades, especialmente no mercado de trabalho. Mulheres pretas e pardas têm rendas menores. Esse cenário exige políticas públicas que ampliem a inclusão e também maior atenção do setor privado na geração de oportunidades.”
Racismo na região
Na região de cobertura da TV TODODIA, dados do CNJ (Conselho Nacional de Justiça) apontam o registro de 51 novos casos de racismo entre 2023 e 2026.
No número de casos julgados, foram três em 2023, sete em 2024, 11 em 2025 e dois em 2026. Já os casos pendentes somaram oito em 2023, 16 em 2024, 30 em 2025 e 29 em 2026. “O racismo é sempre violento, pois impede o reconhecimento da humanidade do outro. Não há forma amistosa dessa prática. Trata-se de uma violência que contribui para o aumento da letalidade da população negra. Além disso, ainda não há efetividade plena da legislação em um país de maioria negra”, afirma o professor.

Fraudes em políticas públicas
Outro ponto destacado é o registro de fraudes para acesso a políticas públicas destinadas à população preta e parda. Segundo Juarez Xavier, a comissão de heteroidentificação da Unesp, em Bauru, identificou mais de 300 casos de pessoas brancas que se autodeclararam pretas ou pardas. “A comissão de heteroidentificação reduz danos e garante que a política pública alcance quem tem direito. É um mecanismo importante para assegurar o acesso da população negra.”
O professor defende a responsabilização dos casos de fraude. “Trata-se de falsidade ideológica e deveria haver responsabilização legal. Isso poderia coibir esse tipo de prática, que ainda ocorre em larga escala, especialmente em concursos públicos.”
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