domingo, 14 junho 2026
DIA MUNDIAL CONTRA O TRABALHO INFANTIL

Comércios, lava-rápidos e vias públicas concentram mais casos de trabalho infantil na região de Campinas, diz MPT

Especialistas apontam que evasão escolar, pobreza e falta de oportunidades contribuem para o problema
Por
Nicoly Maia
O Dia Mundial contra o Trabalho Infantil tem como objetivo ampliar o combate a essa prática. Foto: Prefeitura de Limeira

A região de Campinas concentra os maiores registros de trabalho infantil em comércios, estabelecimentos varejistas, lava-rápidos, atividades em vias públicas, buffets e trabalho rural, segundo o MPT (Ministério Público do Trabalho) de Campinas.

Em Campinas, 30 abordagens relacionadas ao trabalho infantil foram realizadas apenas em 2026. Nos dois anos anteriores, entre 2024 e 2025, o município contabilizou 228 atendimentos. Em Sumaré, foram registrados quatro casos neste ano e 99 entre 2024 e 2025. Hortolândia registrou cinco casos em 2026 e nove ocorrências no mesmo período.

Em Santa Bárbara d’Oeste, o fortalecimento da rede de proteção social ampliou o alcance das ações de combate ao problema. O Projeto AEPI (Ações Estratégicas para Erradicação do Trabalho Infantil) atendeu 42 crianças e adolescentes em 2024, 46 em 2025 e 22 neste ano.

Dia Mundial contra o Trabalho Infantil
Celebrado em 12 de junho, o Dia Mundial contra o Trabalho Infantil tem como objetivo ampliar o combate à prática. É considerado trabalho infantil toda atividade realizada por crianças e adolescentes menores de 16 anos, exceto na condição de jovem aprendiz a partir dos 14 anos. Também é classificado como trabalho infantil o exercício de atividades proibidas por adolescentes entre 16 e 17 anos.

Para Ana Raquel Machado Bueno de Moraes, procuradora do Trabalho do MPT, os casos registrados refletem maior conscientização da população sobre o tema. “Infelizmente, o trabalho infantil acaba sendo invisibilizado por fatores culturais e pela naturalização dessa prática. Ao longo dos anos, foram difundidos mitos de que seria aceitável que crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade social e econômica trabalhassem, sob a ideia de que seria melhor estar trabalhando do que nas ruas. Isso acaba naturalizando algumas formas de trabalho infantil, que permanecem subnotificadas e não chegam ao conhecimento das autoridades”.

Abandono escolar e zonas de risco
O avanço do trabalho infantil está ligado à evasão escolar. Em Campinas, dados do INEP apontam que o 9º ano do Ensino Fundamental é o período mais crítico, com taxa de abandono de 1,6%. Esse fenômeno ganha força nas periferias e regiões de maior vulnerabilidade social.

Nas regiões Sul, Sudeste e Noroeste de Campinas, bairros como Campo Belo, Vila União e Satélite Íris somam mais de 103 mil pessoas que dependem do suporte dos Creas (Centros de Referência Especializados de Assistência Social).

Em Sumaré, mais da metade da população economicamente vulnerável se concentra nos bairros da Área Cura, Matão e Centro. Segundo a administração municipal, a região do Jardim Picerno concentra 26,2% dos registros de trabalho infantil, com forte incidência do tráfico de entorpecentes praticado por adolescentes maiores de 14 anos. Nova Veneza (21,2%) e Centro (17,5%) completam a lista das regiões mais afetadas.

Em Americana, as áreas de maior vulnerabilidade social são a Área de Planejamento 6, que inclui bairros como São Jerônimo, Jardim da Paz, Parque da Liberdade e Zincão, e a Área de Planejamento 10, formada pelos bairros Jardim dos Lírios, Mathiensen e Jardim Alvorada.

“O trabalho infantil, além de ser uma grave violação dos direitos das crianças e dos adolescentes e causar prejuízos ao desenvolvimento social, emocional e biológico, traz uma série de consequências, como a perpetuação do ciclo da pobreza. A partir do momento em que a criança ou o adolescente é submetido ao trabalho precoce, deixa de ter oportunidades de qualificação e encontra mais dificuldades para alcançar postos de trabalho que proporcionem melhores condições e remuneração. Isso acaba contribuindo para a manutenção desse ciclo”.

Bolsa Família e rede de proteção
O Programa Bolsa Família contribui para o combate à pobreza. Além de garantir renda às famílias em situação de vulnerabilidade, o programa busca integrar políticas públicas e fortalecer a proteção social.

Entre os benefícios está o Benefício Primeira Infância (BPI), de R$ 150 por criança, para famílias com crianças de até 6 anos. Também é pago o Benefício Variável Familiar (BVF), de R$ 50 por pessoa, para famílias com gestantes, nutrizes, crianças ou adolescentes entre 7 e 18 anos incompletos.

Para a assistente social Vanessa Ferreira, os programas de transferência de renda ajudam a reduzir a evasão escolar e proteger crianças e adolescentes. “Uma das condicionalidades do Bolsa Família é a frequência escolar, além do acompanhamento na área da saúde. Se a criança não estiver frequentando a escola, a família pode perder o benefício. É uma forma de garantir que esses direitos sejam observados. Sabemos que o programa, por si só, não retira uma família da pobreza nem elimina todas as situações de vulnerabilidade, mas oferece um suporte importante. Também ajuda a prevenir situações de trabalho infantil. Embora existam casos em que a criança continua trabalhando, na maioria das situações essas dificuldades são superadas”.

Em Sumaré, 32.297 famílias estão inscritas no Cadastro Único. Entre crianças e adolescentes, esse público representa 32,4% da população menor de 18 anos. Desse total, quase 13 mil famílias recebem o Bolsa Família, enquanto outras 1.840 aguardam habilitação.

Campinas lidera em volume absoluto, com 321.378 famílias cadastradas no Cadastro Único, sendo mais de 33 mil delas compostas por crianças de 10 a 14 anos. Hortolândia incluiu 757 novas famílias no Bolsa Família em abril. Santa Bárbara d’Oeste zerou a fila principal de espera do CadÚnico.

Segundo Vanessa Ferreira, os municípios contam com o Cras (Centro de Referência de Assistência Social), responsável pela proteção social básica, e o Creas, que oferece atendimento especializado para famílias com registros de trabalho infantil.

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