
O Condephaat (Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico) aprovou na segunda-feira (14) o tombamento estadual da antiga Fábrica Boyes, do Palacete Luiz de Queiroz e do Museu da Água, em Piracicaba. A decisão teve 20 votos favoráveis e dois contrários.
A medida representa uma nova etapa na proteção de um dos principais conjuntos históricos, arquitetônicos e paisagísticos da cidade. O processo envolve a antiga Companhia Industrial e Agrícola Boyes, instalada às margens do Rio Piracicaba, e considera sua relação com a industrialização paulista.
A análise também leva em conta a integração entre as edificações, o rio, o Salto e a paisagem formada pelo vizinho Engenho Central. O tombamento não se limita a uma construção isolada e abrange diferentes períodos e funções do complexo, incluindo estruturas ligadas ao sistema hidráulico usado pela indústria.
Os edifícios foram implantados em diferentes níveis, acompanhando o desnível do terreno em direção ao rio. A antiga fábrica preserva características da arquitetura industrial, como grandes pavilhões, alvenaria aparente, aberturas em arco pleno e janelas projetadas para favorecer a iluminação e a ventilação dos ambientes de produção.
Os blocos também possuíam porões, solução que permitiu adaptar a construção à topografia do terreno. Juntos, os edifícios e demais estruturas ajudam a contar a história da atividade industrial em Piracicaba e da formação da paisagem urbana associada ao Rio Piracicaba.
Uma fábrica ligada ao rio
Um dos aspectos mais marcantes da Boyes é a relação física com o Rio Piracicaba. O complexo utilizava a água como parte da infraestrutura produtiva, por meio de canais que desviavam o fluxo para a área da fábrica e depois permitiam seu retorno ao curso principal.
O sistema hidráulico estava ligado à movimentação das estruturas de geração de energia que atendiam à fábrica. A força da água permitia transformar o desnível e o fluxo do rio em energia para as atividades industriais. A antiga central hidrelétrica, assim, conecta a história da Boyes à própria história da eletrificação de Piracicaba.
A presença da água também fazia parte da arquitetura do complexo. Registros históricos indicam a existência de um canal junto ao conjunto fabril, próximo a áreas de circulação e ao antigo jardim francês, além de uma ponte na entrada do pavilhão. A caixa d’água e outros equipamentos mostram a integração entre engenharia, arquitetura e produção.
A origem desse sistema está relacionada à implantação da indústria de Luiz de Queiroz no século XIX. A Fábrica de Tecidos Santa Francisca começou a ser instalada na década de 1870 e iniciou as atividades de fiação e tecelagem em 1876. O uso da água como força motriz ajuda a explicar a escolha daquele trecho do Rio Piracicaba.
O que muda com o tombamento
Além da antiga fábrica, a decisão estadual inclui o Palacete Luiz de Queiroz, associado à história do idealizador da Esalq-USP, e o Museu da Água. A Praça Dona Ermelinda Ottoni de Souza Queiroz, conhecida como Praça da Boyes, foi definida como área envoltória.
A medida amplia a proteção sobre um espaço que reúne arquitetura, história industrial e paisagem urbana. A aprovação também abre discussões sobre quais elementos do complexo estarão efetivamente protegidos e que intervenções poderão ser realizadas no futuro.
O movimento Salve a Boyes, que acompanha o processo de preservação, apresentou ressalvas em relação à decisão, especialmente quanto ao Canal de Água e ao chamado Edifício 8, estrutura que mantém o letreiro “BOYES”. O grupo também questiona a falta de uma definição específica sobre os limites de altura para novas construções na área.
A situação do canal é relevante porque a estrutura representa uma ligação física entre a fábrica e o Rio Piracicaba e está associada ao antigo sistema de geração de energia. A discussão sobre sua inclusão na proteção estadual evidencia o desafio de preservar não apenas fachadas e edifícios, mas também os elementos de engenharia que explicam o funcionamento do complexo.
A decisão do Condephaat ainda será seguida pelos procedimentos administrativos para a formalização do tombamento, com a publicação da Resolução de Tombamento no Diário Oficial do Estado e a notificação dos proprietários. O detalhamento das regras deverá ajudar a definir o futuro da área.
Para Piracicaba, o reconhecimento estadual reforça a importância da Boyes como patrimônio industrial e paisagístico. Ao mesmo tempo, inicia uma nova etapa de discussão sobre a preservação da memória de um complexo formado pela relação entre arquitetura, indústria e o próprio Rio Piracicaba.





