Bastante difundido nas redes sociais e até recomendado pelo presidente Jair Bolsonaro, o tratamento precoce contra a Covid-19 – com cloroquina, ivermectina e, principalmente, medicamentos com corticóides – não tem comprovação científica de eficácia e tem causado complicações em pacientes que dão entrada no Hospital Municipal Dr. Waldemar Tebaldi, em Americana, que viveu na última semana um cenário de lotação total nos leitos de UTI (Unidade de Terapia Intensiva) e enfermaria.
O relato das complicações é do médico infectologista Arnaldo Gouveia Junior, que atua no hospital municipal e está na linha de frente do atendimento de pacientes com Covid desde o início da pandemia.
Ele explicou que existe nesse cenário de tratamento precoce duas esferas: a de tratamentos inócuos e os tratamentos que acabam colaborando para o agravamento do quadro dos pacientes.
No caso da Covid, dois medicamentos são considerados inócuos e não interferem em como o paciente reage ao coronavírus: a cloroquina e a ivermectina. O primeiro, segundo Arnaldo, não tem apresentado interferência em relação à Covid, mas o segundo apresenta alguns riscos.
“A ivermectina está tendo casos de pessoas tomando direto e está dando hepatite nas pessoas. Não adianta usar ivermectina e ficar andando por aí sem máscara e indo a festas. O risco nesse caso é a falsa sensação de segurança que o remédio pode gerar”, disse o médico.
O problema mais grave, segundo o infectologista, está no uso de medicamentos com corticoides no momento errado de evolução da doença, e isso tem ocorrido com frequência na cidade, de acordo com o profissional.
Dr. Arnaldo explicou que a Covid tem duas fases, a da multiplicação do vírus, que é vencida pela maioria das pessoas infectadas, e depois a de inflamação, que geralmente começa a ocorrer após o sétimo dia de sintoma.
“É quando ocorre a inflamação dos pulmões, falta de ar. Não é um efeito direto do vírus, é causado por uma resposta exagerada na qual o organismo, para te liberar do vírus, acaba atacando o tecido do pulmão”, explicou o médico.
Para tentar conter essa inflamação dos tecidos do pulmão, segundo o infectologista, a única arma dos médicos são os medicamentos com corticoides.
“Alguns médicos, talvez por não pesquisarem sobre o assunto, e algumas pessoas, por automedicação, têm receitado ou tomado esses corticoides no começo da doença. Quando isso ocorre, o remédio baixa a imunidade do paciente, mas na fase inicial a doença a gente quer essa imunidade preservada. Então se o paciente tomar o corticoide no começo e tenha essa inflamação, vai ser mais perigoso. É temerário usar qualquer corticoide antes do sexto ou sétimo dia de doença”, alertou o médico.
Dr. Arnaldo citou que a única saída é a vacinação e o isolamento social para conter o avanço da pandemia e que está faltando conscientização por parte da população.
“As pessoas que estão internando não é quem está indo pra chácara e festa clandestina, são os pais e os avós, e depois essas pessoas ficam desesperadas, mas na hora de se aglomerar, não pensaram nisso. É muito triste. Do ponto de vista humano, é trágico, porque a pessoa vai evoluir na doença, não vai poder ser visitada e vai ser enterrada em caixão lacrado”, disse.




