quinta-feira, 14 maio 2026
FISCALIZAÇÃO DO MPT

Fiscalização resgata dois trabalhadores em situação análoga à escravidão em obra de Sumaré; canteiro é parcialmente embargado

MPT apontou ainda risco de morte para os 84 trabalhadores presentes na obra no momento da inspeção
Por
Vagner Salustiano
Operação conjunta identificou alojamentos degradantes e graves riscos à segurança no canteiro de obras. Fotos: MPT 15

Uma operação de fiscalização em um canteiro de obras localizado na região de Nova Veneza, em Sumaré, resultou no resgate de dois trabalhadores em condições análogas às de escravo. O flagrante aconteceu nos dias 3 e 4 de maio, e foi divulgado nesta quinta-feira (14) pelo MPT (Ministério Público do Trabalho) em Campinas.

A diligência conjunta com o MTE (Ministério do Trabalho e Emprego) constatou graves violações aos direitos fundamentais e à segurança dos operários, além de alojamentos em condições degradantes. Foram inspecionados os alojamentos de quatro empreiteiras subcontratadas que operavam no local. Em um deles, a equipe identificou dois trabalhadores submetidos a condições degradantes de moradia.

Em imagens dos alojamentos divulgadas pelo MPT, é possível ver beliches em cômodos sem piso, colchões diretamente no chão, banheiro com tampa do vaso sanitário quebrada e condições gerais precárias. Diante da gravidade da situação, os auditores-fiscais efetuaram o resgate dos trabalhadores, com a emissão de guia de seguro-desemprego.

Já o MPT firmou um TAC (Termo de Ajustamento de Conduta) com a empresa responsável pela obra, para garantir a regularização imediata das condições de vivência e a reparação dos danos causados.

Fiscalização contou com representantes do MPT (foto) e do Ministério do Trabalho. Foto: MPT 15

Falta de segurança na obra
No canteiro de obras, a situação era de risco à vida dos operários, segundo o MPT. Os auditores-fiscais embargaram parcialmente as torres em construção do empreendimento devido à constatação de grave e iminente risco de morte para os 84 trabalhadores presentes na obra no momento da inspeção.

Entre as irregularidades, estavam a ausência de sistemas de proteção coletiva contra quedas em altura nos pavimentos e na última laje, além de problemas nos dispositivos de segurança dos elevadores de cremalheira, que operavam sem monitoramento adequado.

A fiscalização também detectou falta de sinalização de segurança, inexistência de restrição de circulação em áreas sujeitas a queda de objetos e o uso de plataformas de proteção primária sem a devida integridade ou projeto técnico assinado por profissional habilitado.

Termo de Ajustamento de Conduta
Em relação aos trabalhadores resgatados, o TAC firmado com a empreiteira responsável estabelece o pagamento imediato das verbas rescisórias e salariais devidas, além de uma indenização por dano moral individual fixada em R$ 3 mil para cada um. A empresa também deverá pagar R$ 8 mil a título de dano moral coletivo, valor que será revertido a entidades de relevante interesse social indicadas pelo MPT.

O acordo impõe ainda uma série de obrigações, como o fornecimento de camas individuais com enxoval completo, armários trancados, água potável, locais adequados para refeições e lavanderia, sob pena de multas que podem chegar a R$ 2 mil por infração e por trabalhador atingido.

Para o procurador do Trabalho Gustavo Rizzo Ricardo, a operação evidencia a necessidade de vigilância constante sobre a cadeia de subcontratação na construção civil. Segundo ele, a situação encontrada nessa operação em Sumaré é “um cenário de total desrespeito às normas básicas de saúde e segurança, expondo trabalhadores a riscos fatais e a moradias absolutamente incompatíveis com a condição humana”. Por isso, segundo o procurador, “o MPT agiu prontamente para cessar a exploração e garantir que a empresa assuma sua responsabilidade pedagógica e reparatória”.

Empresa pode ter descumprido TAC anterior
A investigação também revelou que a SPE (Sociedade de Propósito Específico) responsável pelo empreendimento é controlada por um grupo econômico que já havia firmado um TAC trabalhista em 2015.

Agora, o descumprimento de cláusulas relativas à segurança do trabalho pode gerar multa superior a R$ 800 mil, calculada com base no número de trabalhadores expostos ao risco e no número de infrações verificadas.

Por fim, o MPT notificou o grupo econômico para comprovar a regularização das condições de segurança em 15 dias e continuará monitorando o cumprimento integral dos acordos firmados.

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