A jornalista e escritora Daniela Arbex participou de um encontro com leitores em Santa Bárbara d’Oeste, dentro da programação do Viagem Literária, projeto que aproxima escritores e público. Depois da conversa, ela falou com a TV TODODIA sobre os desafios de transformar grandes reportagens em livros e a importância de preservar essas histórias.
Autora de obras baseadas em histórias reais que alcançaram leitores em todo o país, Daniela Arbex recebeu duas vezes o Prêmio Jabuti, considerado o mais importante da literatura brasileira. Cova 312 foi premiado em 2016, e Longe do Ninho recebeu o Jabuti em 2025.
Conhecida por transformar tragédias que marcaram o país em narrativas aprofundadas, a jornalista utiliza a investigação para dar voz aos personagens e revelar diferentes dimensões de cada história.
Holocausto Brasileiro
Em Holocausto Brasileiro, Daniela Arbex revelou as condições desumanas enfrentadas por pacientes do Hospital Colônia de Barbacena. O livro expôs uma das páginas mais dolorosas da história da saúde mental no Brasil e foi posteriormente adaptado para um documentário pela Netflix.
Anos depois da publicação, a jornalista afirma que a história continua necessária para compreender problemas ainda presentes na sociedade brasileira. “Eu acho que essa é uma história que precisa continuar sendo contada.”
Daniela aponta que a discussão sobre saúde mental permanece atual e relaciona o tema ao racismo e à lógica manicomial. “A saúde mental continua em disputa no Brasil, e que o racismo continua sendo a base da lógica manicomial brasileira.”
Para a escritora, a exclusão e a chamada higienização social também precisam ser enfrentadas. “A gente é uma sociedade que exclui, que afasta os diferentes, higienista, muito voltada para a limpeza social.”
Na avaliação de Daniela, manter essa história viva é uma forma de conscientizar a sociedade sobre as consequências da intolerância e da omissão. “Todo tipo de preconceito, todo tipo de violência e todo tipo de omissão gera barbárie.”

Longe do Ninho
Em Longe do Ninho, Daniela Arbex investigou a morte de dez adolescentes no centro de treinamento do Flamengo. A reportagem reconstruiu os últimos momentos dos jovens e acompanhou a luta das famílias por respostas.
O trabalho também discutiu as responsabilidades e as falhas que antecederam o incêndio. Para Daniela, a investigação revelou a falta de estrutura dos clubes para cuidar da saúde mental de crianças e adolescentes que sonham em se tornar jogadores profissionais. “O que o Longe do Ninho me mostrou foi a falta de capacidade de todos os clubes brasileiros de cuidar da saúde mental de crianças e adolescentes.”
A jornalista também chama atenção para a formação desses jovens durante a busca pelo sonho de chegar ao futebol profissional. “E a escola, durante todo esse processo, é negligenciada. O acompanhamento psicológico também é negligenciado.”
Segundo Daniela, menos de 1% dos jovens que percorrem esse caminho consegue se tornar jogador profissional, o que pode deixar consequências para aqueles que não alcançam o objetivo. “Ao chegarem no final dessa jornada, não se sentem capazes de ser nada.”
Todo Dia a Mesma Noite
Em Todo Dia a Mesma Noite, Daniela reconstruiu o incêndio na Boate Kiss, que matou 242 pessoas em Santa Maria, no Rio Grande do Sul. Para escrever o livro, ouviu sobreviventes, familiares e pessoas que acompanharam de perto aquela noite.
Entre as obras que produziu, Daniela considera esse o trabalho que mais a sensibilizou. “Foi o livro que mais me sensibilizou. Talvez porque é algo muito próximo de todos nós.”
A jornalista afirma que qualquer pessoa poderia ter vivido uma situação semelhante àquela tragédia. “Qualquer um de nós podia ter morrido naquela boate, ou podia ter perdido alguém que amasse naquela boate.”
O trabalho também exigiu lidar com a memória afetiva de sobreviventes e familiares. Para Daniela, essa confiança traz uma grande responsabilidade para quem conta a história. “Quando você consegue chegar ao coração do outro, você precisa honrar isso.”
A escritora ressalta que, apesar de toda a dor envolvida na apuração, o protagonismo pertence às pessoas que viveram os acontecimentos. “Eu sou a pessoa que foi escolhida para contar a história do outro. E eu preciso honrar isso.”
Arrastados
Em Arrastados, Daniela Arbex mergulhou na história de Brumadinho e das pessoas atingidas pelo rompimento da barragem. A investigação foi além dos números para mostrar o impacto do desastre na vida de famílias inteiras.
A tragédia deixou 272 mortos e apresentou à jornalista o desafio de transformar a dimensão da catástrofe em histórias individuais. “Foi a maior tragédia humanitária do Brasil.”
Daniela resume o principal desafio da apuração em uma frase que também define sua maneira de fazer jornalismo. “O desafio foi esse mesmo, transformar números em histórias.”
Durante a produção do livro, os próprios entrevistados ajudaram a jornalista a chegar a outras pessoas atingidas pela tragédia. “Uma pessoa acabou me levando a outra, indicando outra e todas elas couberam no livro.”
Para Daniela, ouvir cada personagem exige respeitar o tempo e a vontade de quem passou por uma situação traumática. “Tem gente que não está pronta para falar, tem gente que não quer falar e tem gente que precisa falar.”
Cova 312
Em Cova 312, Daniela Arbex investigou a morte de um preso político durante a ditadura militar. A jornalista percorreu documentos, relatos e pistas para reconstruir uma história cercada de silêncio.
A investigação permitiu localizar a sepultura de um militante político que permaneceu por cerca de 40 anos considerado desaparecido e devolver sua memória à família. Para Daniela, olhar para o passado é fundamental para compreender o presente e transformar o futuro. “Conhecer o passado, conhecer o Brasil, apresentar o Brasil para os brasileiros é a única forma de a gente se instrumentalizar para melhorar o presente.”
O trabalho também reforçou, para a jornalista, a importância do jornalismo na preservação da memória de pessoas e acontecimentos que não podem ser esquecidos. “Poder contribuir com essa história, localizar a sepultura de um militante político que ficou durante 40 anos considerado desaparecido e devolver a memória desse militante para a família dele, eu acho que é um dos papéis do jornalismo.”
Daniela resume esse papel em uma frase que define a reflexão sobre sua trajetória. “É construir a memória coletiva do Brasil.”





