domingo, 30 agosto 2026
DEPENDÊNCIA EM APOSTAS

Ludopatia: Campinas e região tratam pacientes afetados pelo vício em apostas

Dependência em jogos de azar pode provocar prejuízos financeiros, emocionais e familiares e exige acompanhamento especializado
Por
Nathalia Tetzner

Casos de perdas milionárias envolvendo casas de apostas estão cada vez mais frequentes na região. Nos quadros mais graves, o diagnóstico é de ludopatia, vício incontrolável em jogos de azar reconhecido pela OMS (Organização Mundial da Saúde) como um transtorno mental de dependência comportamental.

O vício altera o sistema de recompensa do cérebro e faz com que a pessoa perca o controle sobre o impulso de apostar, mesmo diante de prejuízos financeiros, emocionais e familiares. A psicóloga da Unimed Santa Bárbara d’Oeste e Americana, Tânia Bolognesi Carlos, explica o poder viciante das apostas, principalmente das digitais, conhecidas como bets. “Quando a pessoa está jogando, ela estimula o cérebro. Mesmo que não ganhe, apenas a expectativa de ganhar ou de estar jogando faz com que o cérebro libere dopamina através do sistema nervoso central. Essa substância atua no sistema de recompensa, trazendo satisfação, prazer e expectativa. O interessante é que, quando as pessoas se tornam dependentes, elas precisam cada vez mais desse pico de dopamina para se sentirem bem.”, afirma a psicóloga.

Perda do controle
Isaac Pinto de Andrade, de 43 anos, percebeu que a situação fugia do controle quando deixou de cumprir compromissos de trabalho. Alguns amigos também tentaram alertá-lo. “Comecei a ficar noites sem dormir jogando o dia inteiro. Mesmo durante o trabalho, se eu tinha alguma atividade, não queria parar para jogar. Para as pessoas próximas, eu sempre falei, nunca neguei. Então, também comecei a receber alertas delas, que começaram a perceber que a minha conduta estava mudando e que eu não era mais o Isaac que elas conheciam.”

Tânia Bolognesi Carlos explica que pessoas impulsivas, com baixa tolerância à frustração e que gostam de vivenciar coisas novas ou criar expectativas sem considerar as consequências de suas ações têm maior propensão a desenvolver a dependência. O mesmo pode ocorrer com pacientes ansiosos ou deprimidos.

Uma rede de apoio é fundamental para ajudar pessoas que sofrem com a ludopatia. Foto: Agência Brasil

A psicóloga relata que o vício provoca sintomas de abstinência, como suor frio nas mãos e nos pés, taquicardia e tremores. Ela destaca que a consequência mais grave é a ideação suicida, que pode surgir quando o apostador não enxerga saída para as dívidas. Nesses casos, o acolhimento é indispensável. “Não há como um dependente vivenciar sozinho o que está acontecendo com ele. A família acaba se tornando codependente nesse processo. Por isso, uma atitude muito importante por parte dos familiares é oferecer um acolhimento sem julgamentos. É fundamental entender que o dependente é um paciente, uma pessoa doente que precisa de cuidados.”, afirma Tânia.

Pacientes na região
Cidades como Campinas, Hortolândia e Santa Bárbara d’Oeste informam que ainda não têm um levantamento sobre quantos pacientes sofrem com esse tipo de dependência. O motivo é que as pessoas que procuram os CAPS (Centros de Atenção Psicossocial) dificilmente se identificam de imediato como apostadoras. Elas chegam em busca de ajuda para lidar com consequências do vício, como depressão, ansiedade e problemas provocados pelas dívidas.

Apesar da falta de dados específicos, as três cidades afirmam que o tratamento e o acolhimento estão disponíveis em toda a rede de saúde mental. Americana, por outro lado, já consegue dimensionar o problema: atualmente, seis pacientes fazem tratamento na rede municipal, o dobro do registrado no ano passado. Eles recebem acompanhamento psiquiátrico e psicológico e participam de grupos de esportes e relaxamento.

Isaac Pinto de Andrade reconheceu a importância de buscar ajuda. “Eu posso garantir que, se você não buscar esse tipo de ajuda, é praticamente impossível sair do vício. Ainda aciono muito a minha rede de apoio, ainda peço muita ajuda, porque a vontade vem. O assédio no celular é o dia inteiro. Recebo mensagens das casas em que joguei, mesmo fazendo o meu bloqueio no GOV, que o governo disponibilizou.”

CAPS da região oferecem atendimento a pacientes com ludopatia. Foto: Prefeitura de Santa Bárbara d’Oeste

O ex-apostador, que gastou cerca de R$ 400 mil em apostas ao longo de dois anos, considera prejudicial a forma como a mídia aborda o tema. “Eu acho engraçado ver veículos de comunicação responsáveis, que têm uma história e uma trajetória de ajudar a população e o país, fazendo propaganda disso como se fosse normal. Dizem, por exemplo: ‘jogue com consciência’. Quem joga não tem consciência, gente, não existe isso.”

O SUS (Sistema Único de Saúde) oferece acolhimento gratuito por meio do Meu SUS Digital, que disponibiliza um autoteste e opções de teleatendimento especializado em saúde mental. Também há atendimento presencial em UBS (Unidade Básica de Saúde) e CAPS.

Na região, o Hospital de Clínicas da Unicamp mantém um ambulatório gratuito voltado ao atendimento de pessoas com ludopatia. O serviço funciona sem agendamento às quartas-feiras, das 8h às 11h30, no segundo andar do Ambulatório de Psiquiatria do HC da Unicamp, em Campinas.

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