
Uma operação contra um esquema de fraudes bancárias que pode ultrapassar R$ 500 milhões mobilizou forças de segurança na manhã desta quarta-feira (25). O principal alvo é um morador de Americana, apontado como responsável por coordenar toda a estrutura criminosa.
Batizada de “Fallax”, a ação cumpre 43 mandados de busca e apreensão e 21 de prisão preventiva em três estados, além do bloqueio de bens e valores que podem chegar a R$ 47 milhões.
Na região, a PF (Polícia Federal), em conjunto com o 10º BAEP (Batalhão de Ações Especiais da Polícia) atuou em Americana, Limeira, Rio Claro e Sumaré.
Mandados em Americana
Em Americana, foram realizadas três diligências. Uma delas ocorreu em um condomínio de alto padrão, o Terras do Imperador, onde havia mandados de prisão e de busca e apreensão. O alvo não foi localizado, mas foram apreendidos celulares, um notebook e um aparelho DVR.
Em outro endereço, em um condomínio na Avenida Doutor Armando Sales de Oliveira, no Jardim Ipiranga, houve cumprimento de mandado de prisão e um de busca. O investigado foi detido e, no local, foram apreendidos um notebook e um celular.
Já em um terceiro endereço, não divulgado, houve cumprimento de mandado de busca e apreensão. Foi necessário o acesso forçado ao imóvel, e o suspeito não foi encontrado. Durante as buscas, a PF apreendeu cadernos de anotações, um tablet, um notebook e diversas correspondências.
Como funcionava o esquema
Segundo as investigações, iniciadas em 2024 a partir de um inquérito do MP-SP (Ministério Público do Estado de São Paulo, por meio do Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado), o esquema consistia na criação de empresas de fachada para uso em fraudes e lavagem de dinheiro.
De acordo com a PF, o principal investigado teria aberto mais de 170 empresas em nome de “laranjas”. Essas empresas conseguiam empréstimos em instituições financeiras como Caixa Econômica Federal, Banco do Brasil, Bradesco e Santander. Após um período de funcionamento, as empresas eram encerradas e os valores obtidos não eram quitados, gerando prejuízo às instituições.
O delegado da Polícia Federal, Henrique Souza Guimarães, afirmou que o grupo contava com a cooperação de gerentes de bancos. “Gerentes de algumas instituições foram alvos de prisão e de busca e apreensão. Com esse apoio, o grupo conseguia evitar que os mecanismos de compliance identificassem as fraudes”, disse.

A investigação também apontou que o esquema era estruturado em diferentes frentes, incluindo a seleção de “laranjas”, verificação de antecedentes e análise da situação financeira dos envolvidos para evitar suspeitas. “Havia um grupo responsável por selecionar essas pessoas, verificar se tinham o nome limpo e organizar toda a documentação. Em seguida, os dados eram repassados a gerentes cooptados, inclusive com uso de documentos falsificados”, explicou o delegado.
Segundo a PF, em alguns casos, mais de dez empresas foram abertas em um único dia em nome da mesma pessoa. Há registros de um “laranja” que teria participado da abertura de mais de 50 empresas.
Após a abertura das empresas, eram solicitados empréstimos de valores que não levantassem suspeitas. Para isso, eram utilizados relatórios fiscais fraudulentos, que simulavam capacidade financeira.
As empresas permaneciam ativas por cerca de um ano ou um ano e meio, período em que movimentavam contas bancárias e simulavam atividades comerciais. “Os investigados utilizavam maquininhas de cartão para simular transações entre empresas do próprio grupo, criando a aparência de atividade econômica real. Depois desse período, as empresas eram encerradas e as dívidas ficavam em nome dos laranjas”, afirmou Guimarães.
Falhas no controle bancário
A investigação identificou ainda que parte dos empréstimos não gerava alerta de fraude. Isso porque, dependendo do valor, as operações seguiam para o contencioso cível como inadimplência comum.
Com isso, os casos eram tratados como cobranças regulares, sem que fosse considerada a possibilidade de fraude na origem da empresa. A avaliação da PF é que, em muitos casos, as instituições financeiras sequer tinham conhecimento de que se tratava de empresas abertas de forma fraudulenta.
Ligação com facção criminosa
Durante uma operação anterior do Gaeco, em investigação contra o Comando Vermelho, foi identificado que algumas empresas utilizadas pelos grupos eram de fachada e estavam em nome de laranjas.
Segundo a PF, essas empresas teriam sido fornecidas pelo principal alvo da operação desta quarta-feira. A ligação com a facção ocorreria por meio da criação e disponibilização dessas estruturas, mediante pagamento, com o objetivo de evitar alertas de fraude.
As apurações indicam que as empresas foram utilizadas por organizações criminosas, mas também apontam que o investigado não se limitava a esse tipo de atividade, ampliando o uso do esquema para outras finalidades.
Relação com empresários
A investigação também apura a ligação de empresários com o esquema. Um dos nomes citados alvo da Operação Fallax, o CEO da Fictor, Rafael Góis, chegou a negociar a aquisição do Banco Master na véspera da prisão de Daniel Vorcaro. A informação foi confirmada pela PF à TV TODODIA.
De acordo com a PF, três investigados mantinham contato com o alvo de Americana. Um deles teria aberto empresas de fachada para obtenção de empréstimos. “Há indícios de conexões entre os investigados, inclusive com pagamentos cruzados entre empresas de fachada. Ainda não é possível afirmar até que ponto essas estruturas foram utilizadas para lavagem de dinheiro em empresas formais”, afirmou o delegado.
Segundo a polícia, o principal alvo seria o responsável por orientar a criação do esquema e a obtenção de recursos ilícitos, além de atuar na ocultação dos valores por meio da circulação entre diferentes empresas.
Situação do principal alvo
O principal investigado de Americana ainda não foi preso e é considerado foragido. Segundo a PF, há sete pessoas nessa condição.
A investigação aponta que a materialidade dos crimes já está comprovada. Foram realizados bloqueios de contas bancárias, veículos e valores mantidos em corretoras de criptomoedas. Também houve apreensão de carteiras digitais.





