
“Cara, eu não estava contando que ia ter essa sorte, não. Eu estava já achando que não ia sobreviver.” Assim um motorista de aplicativo de 48 anos, de Campinas, resumiu os momentos de pânico que viveu ao ser sequestrado e o alívio com a chegada dos policiais militares que o resgataram de um cativeiro na Vila Soma, em Sumaré, na madrugada de quarta-feira (27).
Segundo o 48º BPM/I (Batalhão de Polícia Militar do Interior), o resgate só foi possível graças a um alerta da esposa da vítima para o 190. Ela disse que o marido havia deixado de fazer contato logo após aceitar uma viagem na região da Via Anhanguera, em Campinas.
Mensagem cifrada
Na última ligação atendida, quando o motorista já estava sob o poder dos criminosos, uma mensagem cifrada entre o casal ligou o alerta na esposa, que acionou a PM. Segundo a mulher, a última localização do celular da vítima apontava para uma área de mata na Rua da Missão, na Vila Soma, em Sumaré. As informações sobre o possível sequestro foram repassadas pela PM de Campinas ao Batalhão de Sumaré, incluindo as características do veículo usado pelo motorista.
Equipes do 48º Batalhão iniciaram as buscas na área da Vila Soma. Por volta das 3h45, policiais avistaram dois homens próximos a uma residência, que fugiram para o interior da mata ao perceber a aproximação da viatura. Diante da atitude suspeita, os policiais decidiram averiguar a residência. Durante o cerco, ouviram vozes dentro do imóvel e deram ordem para os ocupantes abrirem a porta. Um terceiro suspeito indicou onde a vítima estava.
O motorista sequestrado foi localizado sentado sobre um colchão, bastante confuso e abalado emocionalmente.
Viagem era para mulher, mas só homens apareceram
Mais calmo e em frente ao Plantão da Polícia Civil de Sumaré, o motorista contou à reportagem da TV TODODIA como começou o sequestro. Segundo ele, tudo teve início com um pedido normal de viagem por aplicativo, mas se transformou em pesadelo quando, ao invés de uma mulher, dois homens entraram em sua SUV.
“Eu faço mais Uber Black, eu estava ali na Quinta do Marquês, naquele posto ali na Anhanguera, em Campinas. E veio uma chamada de um passageiro de Black, ali próximo do Parque Santa Bárbara, do outro lado do Parque Santa Bárbara, ali no sentido Hortolândia, para pegar ali e ir para o Jardim Aeroporto. Era uma viagem de uns 60 e poucos reais, uma viagem relativamente boa. Eu aceitei. E era mulher ainda, estava lá o nome, era mulher. E isso te dá até uma segurança maior, que não vai ter problema”, contou a vítima.
Foi nesse momento que o motorista começou a desconfiar. “Então, cheguei lá, eu abri o vidro, mas cadê essa mulher? ‘Não, é a minha esposa. Vamos pegar ela daqui a pouco ali, ela tá aqui na igreja.’ Tinha a Igreja Quadrangular ali perto, ali na esquina. Só que ai cancelou a corrida. Ele mandou virar, ‘não, ela deve ter cancelado a corrida por engano, é do celular dela. Vira aqui, vira aqui, vira aqui, a gente passa na minha casa e já faz a corrida de novo’. Quando virou, eles anunciaram o sequestro, o garoto que estava atrás já me deu uma gravata, trocaram de posição ali, e me levaram sabe-se lá onde, lá no meio do mato. Depois descobri que era a Vila Soma, aqui em Sumaré”, acrescentou.
Criminosos fizeram Pix e compras
Durante o trajeto desviado para Sumaré, os sequestradores perceberam que o motorista tinha um relógio inteligente conectado ao celular, que foi tomado e jogado pela janela da SUV para evitar o compartilhamento da localização.
Segundo o relato da vítima à Polícia Civil, enquanto esteve na mata e depois no cativeiro, ele foi ameaçado e agredido. Os sequestradores tentaram acessar seus aplicativos bancários por reconhecimento facial e com senhas que ele teve de informar. Ele acredita que os criminosos tenham feito diversas transferências via Pix e compras online com suas contas e cartões cadastrados no celular. A vítima informou ainda que havia ao menos outros três indivíduos armados no interior do imóvel.

Medo e alívio
O motorista admitiu que não esperava sair vivo da situação. “Cara, eu não estava contando que ia ter essa sorte, não. Eu estava já achando que não ia sobreviver. Eu estava ali com um senhorzinho que estava de vigia comigo. Ele ficava conversando, falando que também era vítima dos bandidos ali, que estava devendo para eles, para eu ficar calmo, que não ia fazer nada comigo. E eu, no colchão ali, na cama dele, com um boné e um moletom com capuz, deitado. E aí do nada apareceu lá, ‘levanta, tira o rosto, deixa eu ver quem é, deixa eu ver quem é’. E quando eu vi, com a luz bem no meu rosto, estava um breu escuro, aí que eu vi que era policial, né. O policial já rendeu ali o senhor, aí que eu levantei chorando e tremendo, estava tremendo que nem uma vara verde, porque eu nunca ia acreditar que iam conseguir me achar. Nossa, ali eu abracei o policial, comecei a chorar. Nossa, foi incrível mesmo”, finalizou.
O homem que estava na casa no momento da chegada da PM, de 38 anos, foi preso em flagrante por sequestro e cárcere privado, crimes inafiançáveis. O veículo da vítima foi localizado no Jardim Paulistano, ao lado da Vila Soma, e está sob perícia da Polícia Científica, assim como uma arma de fogo falsa encontrada na residência.
A Polícia Civil investiga o caso para identificar e localizar os demais criminosos envolvidos no sequestro.
Como denunciar
Quem tiver informações que possam ajudar na solução do caso pode ligar para o 181, do Disque Denúncia, ou para o 197, da Polícia Civil. Os dois canais aceitam denúncias anônimas.





