Mesmo após a Justiça condenar agressores, muitas mulheres que escapam do feminicídio convivem diariamente com sequelas físicas, emocionais e com o medo de um futuro reencontro. A condenação de um homem a 16 anos de prisão em regime fechado por tentar matar a ex-companheira em Santa Bárbara d’Oeste reacendeu o debate sobre o que acontece com as sobreviventes depois do julgamento.
O crime ocorreu em 2016, no Parque Zabani. A vítima foi atingida por duas facadas, uma nas costas e outra na cabeça. A lâmina parou a cerca de três centímetros do cérebro, e os filhos do casal presenciaram o ataque. Após o crime, o agressor fugiu e permaneceu foragido por oito anos, até ser levado a júri popular e condenado. Para a vítima, porém, a sentença judicial não encerra a história.
As marcas que a condenação não apaga
Com identidade preservada, a mulher relatou que enfrenta limitações físicas, traumas psicológicos e lembranças fragmentadas do ataque. A rotina inclui tratamentos constantes, uso contínuo de medicamentos e dificuldade para retomar a vida como era antes da violência. Além das sequelas permanentes, permanece o temor em relação ao futuro, já que a pena do agressor tem prazo para acabar.
Para a psicóloga Érika Penha, especializada no atendimento a mulheres vítimas de violência, os danos podem se estender por muitos anos e, em alguns casos, nunca desaparecer completamente. Segundo ela, o ciclo da violência é gradual e, antes das agressões físicas, costuma envolver controle excessivo, manipulação emocional, isolamento social e comportamentos possessivos que muitas vezes são naturalizados dentro da relação.
Limites da Justiça e necessidade de prevenção
Durante o julgamento, a defesa do réu tentou anular a condenação alegando legítima defesa, sustentando que ele teria reagido após uma discussão envolvendo um cabo de vassoura. A tese foi rejeitada pelos jurados diante das provas apresentadas e da violência do ataque. Para o promotor de Justiça Rodrigo Aparecido Tiago, a condenação representa uma resposta adequada ao crime, mas não é suficiente para reparar a dimensão dos danos causados à vítima.
A advogada especialista em violência doméstica Iracema Leal Veloso aponta que muitos relacionamentos abusivos começam a dar sinais já na adolescência. Atitudes frequentemente confundidas com cuidado ou prova de amor – como ciúme excessivo, monitoramento de amizades, controle de roupas, redes sociais e convivência familiar – podem esconder mecanismos de controle. Na maioria dos casos, a violência não começa com agressões físicas: primeiro surgem ofensas, humilhações e chantagens; depois, restrições de liberdade, ameaças e agressões, que em muitos casos escalam para o feminicídio. Por isso, ela defende que o debate sobre relacionamentos saudáveis seja incorporado desde cedo, inclusive nas escolas.

Uma sentença que não termina para as vítimas
Enquanto recursos judiciais seguem tramitando, a sobrevivente tenta reconstruir a vida longe dos holofotes do Tribunal do Júri. No dia a dia, encara as cicatrizes físicas, emocionais e psicológicas deixadas pela tentativa de feminicídio. Sua história espelha a realidade de muitas mulheres que escapam da morte, mas permanecem sob o peso de um trauma que se renova a cada dia.
Para os agressores, a prisão tem data para terminar. Para muitas vítimas, porém, as marcas da violência se transformam em uma espécie de sentença sem prazo para acabar.





