Números do Inpe mostram que país se consolida no domínio de ranking de desmate, sobretudo na Amazônia
A Amazônia completou mais um período de elevada destruição. De agosto de 2021 até julho de 2022, foram derrubados 8.590,33 km² do bioma. A taxa é a terceira maior do histórico recente do Deter, ferramenta do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) que mede desmatamento praticamente em tempo real. O novo dado só fica atrás de 2019-2020 e de 2020-2021, respectivamente o primeiro e o segundo ano com maiores desmates, segundo o Deter. A nova taxa de desmate foi divulgada na manhã desta sexta-feira (12) pelo Inpe.
Levando em conta dados do Deter, já foram derrubados mais de 31 mil km² de Amazônia desde o início do governo Bolsonaro, em 2019. Isso equivale a, aproximadamente, mais de 720 km² de floresta indo ao chão mensalmente, o que representa mais de 450 parques Ibirapuera destruídos todo mês.
O valor é consideravelmente superior ao que se via em mandatos presidenciais anteriores. De agosto de 2015 (início do novo Deter) até o afastamento da presidente Dilma Rousseff (PT) pela abertura do processo de impeachment, em maio de 2016 (nove meses), foram derrubados cerca de 364 km² de Amazônia por mês. Nos 32 meses do governo de Michel Temer (MDB), já levando em conta os meses de afastamento de Dilma, foram desmatados cerca de 420 km² de Amazônia por mês.
Os novos números deixam ainda mais consolidados os patamares altíssimos de desmatamento alcançados durante o governo Jair Bolsonaro (PL). O Deter não tem a função de mensuração precisa de desmatamento. Para isso, o Inpe possui o Prodes, sistema com maior precisão que divulga os dados de desmate -computados sempre de agosto de um ano a julho do ano seguinte- nos últimos meses do ano. Mesmo assim, a partir do Deter, cujo objetivo primário é o auxílio a operações de combate ao desmate, é possível ver se há tendências de queda, manutenção ou subida de destruição, conforme passam os meses. E os meses amazônicos, desde o início do governo Bolsonaro, foram marcados por recordes de derrubada de floresta.
Com exceção do mês de dezembro, os recordes de desmatamento do Deter de todos os outros meses ocorreram sob Bolsonaro. Ou seja, sua administração tem quase um ano inteiro de recordes de desmate.
Só no ciclo mais recente (agosto/21 até julho/22) foram cinco meses com os números mais elevados de destruição já vistos para aqueles meses: outubro (876,56 km²), janeiro (430,44 km²), fevereiro (198,67 km²), abril (1.026,35 km²) e junho (1.120,2 km²). Vale mencionar, porém, que o histórico recente do Deter tem início em agosto 2015. O sistema anterior possuía resolução inferior e acabou substituído.
NÚMEROS
O desmatamento na Amazônia já vinha crescendo antes de 2019, mas explodiu após a entrada de Bolsonaro no Palácio do Planalto. Antes mesmo de assumir a Presidência, ainda no período eleitoral, Bolsonaro já iniciou um discurso que condenava a fiscalização ambiental e citava uma suposta “indústria da multa”, nunca comprovada pelo presidente. Quando ainda era deputado federal, em 2012, Bolsonaro foi multado por pesca ilegal em Angra dos Reis, no Rio de Janeiro.
‘Não queremos ser cúmplices’
“Estou pedindo uma moratória [suspensão] na importação de madeira, soja e ouro até que as regras da lei estejam estabelecidas e os direitos humanos e do ambiente sejam respeitados.” Essa foi a primeira reação do eurodeputado Claude Gruffat, 64, ao saber dos números do último ano de desmatamento da Amazônia, divulgados nesta sexta (12) pelo Deter, do Inpe.
“Chegaremos a um ponto sem retorno se nós, europeus, não colocarmos um fim na importação de bens provenientes do desmatamento. É o único jeito”, afirmou o euro deputado francês à reportagem.
Membro do comitê para assuntos econômicos e da delegação para relações com o Mercosul do Parlamento Europeu, Gruffat esteve por dez dias na floresta no mês passado, em viagem com as também eurodeputadas Michèle Rivasi (francesa) e Anna Cavazzini (alemã).
Foi a primeira visita de Gruffat ao Brasil, que recebeu os novos números “com tanta desolação” como a que viu na Amazônia. “Vi todo o sistema de Bolsonaro: sem fiscalização, só entregando mais e mais poder para o crime”, afirmou.





