domingo, 10 maio 2026
RECONHECIMENTO

Médico criado no Zanaga é homenageado em Americana por trajetória na saúde pública

Henrique Alencar, de 28 anos, recebeu a Medalha de Mérito “Profissionais da Saúde” 2026 e hoje atua na UPA da região onde cresceu
Por
Diego Rodrigues

A rotina de infância agitada, marcada por brincadeiras e até alguns ossos quebrados, ajudou a despertar em Henrique Alencar o desejo pela medicina. O médico, que cresceu no bairro Zanaga, em Americana, foi homenageado recentemente com a Medalha de Mérito “Profissionais da Saúde” 2026, concedida pela Câmara Municipal. Ex-aluno de escola pública e vindo de uma família humilde, ele se formou em medicina pela UFPB (Universidade Federal da Paraíba), em João Pessoa, e hoje atua justamente na UPA da região onde cresceu.

Hoje, aos 28 anos, Henrique conta que as experiências vividas ainda na infância dentro das unidades de saúde ajudaram a moldar o olhar humanizado que carrega na profissão. Segundo ele, as frequentes passagens pelo posto de saúde do bairro e pelo Hospital Municipal fizeram nascer o interesse pela área médica. “Eu via profissionais que faziam diferença para mim naquele momento e fui criando gosto pela questão de cuidar e ajudar”, relembrou.

Foco nos estudos
O caminho até a aprovação em medicina foi marcado por dificuldades financeiras e desafios educacionais. Henrique afirma que até o início do ensino médio não tinha foco nos estudos e via o sonho da faculdade como algo distante da realidade da família. As notas eram medianas e a estrutura da escola pública não oferecia a mesma preparação que muitos concorrentes tinham.

A mudança começou quando decidiu que realmente queria cursar medicina. Ele conseguiu uma bolsa em um cursinho particular após realizar uma prova e passou a ter uma rotina intensa de estudos. “Até então eu era um pouco bagunceiro na escola. Quando decidi fazer medicina, comecei a estudar de verdade”, contou.

Mesmo com a bolsa, os custos ainda eram altos para a família. Para ajudar a pagar a mensalidade, Henrique passou a trabalhar na cantina do cursinho durante os intervalos das aulas. O apoio da família também foi decisivo durante a preparação. “Meu pai, meus avós e meus tios ajudaram muito. Aquela conquista não foi só minha”, afirmou.

Após anos de preparação e tentativas no Enem (Exame Nacional do Ensino Médio), veio a aprovação na Universidade Federal da Paraíba. Henrique lembra que o momento em que viu o nome na lista de aprovados foi um dos mais emocionantes da vida. “Parecia um filme passando na cabeça. Liguei para minha família inteira porque eles faziam parte daquela vitória também”, disse.

Faculdade é desafio
Durante a graduação, as dificuldades não desapareceram. Henrique conta que sentiu diferença no nível de formação em comparação com colegas vindos de escolas particulares e precisou se dedicar ainda mais para acompanhar o ritmo da universidade. Segundo ele, muitos conteúdos vistos no cursinho eram mais avançados do que aquilo que havia aprendido na escola pública.

A rotina se dividia entre aulas, estudos e deslocamentos longos durante os estágios e internatos. Nos períodos de férias, Henrique voltava para Americana para trabalhar ao lado do pai, que atuava como servente de pedreiro. Também realizava serviços na área elétrica para complementar a renda e conseguir se manter na faculdade.

Segundo o médico, a realidade financeira dentro da universidade deixava evidente a desigualdade social entre os estudantes. “A maioria tinha estrutura, carro e ajuda dos pais. A gente era minoria em relação às dificuldades financeiras”, relembrou.

Apesar dos desafios, Henrique afirma que toda a trajetória ajudou a fortalecer o olhar humano que hoje considera essencial no atendimento aos pacientes. Para ele, pequenos gestos fazem diferença no dia a dia da profissão. “Às vezes, um minuto a mais olhando no olho e conversando com o paciente já muda tudo”, destacou.

Depois de formado, Henrique decidiu voltar para atuar justamente no bairro onde cresceu. Foto: Raul Rodrigues/TV TODODIA

Retorno ao bairro onde cresceu
Depois de formado, Henrique decidiu voltar para atuar justamente no bairro onde cresceu. Segundo ele, o objetivo sempre foi retribuir à população o acolhimento que recebeu durante a infância e adolescência. Hoje, atende vizinhos, amigos de infância e moradores da mesma região onde viveu grande parte da vida.

“Desde quando comecei a faculdade, meu intuito era voltar para o lugar onde cresci e fazer diferença para a população daqui”, afirmou. Para o médico, a medicina vai muito além da questão financeira e exige empatia, escuta e proximidade com os pacientes.

Henrique diz que prefere permanecer na unidade onde consegue criar vínculos com a comunidade e oferecer um atendimento mais humano. “Tem pacientes que precisam de um olhar a mais, de um minuto de conversa. Isso faz diferença na vida deles”, disse.

Homenagem emocionou família
Ao receber a Medalha de Mérito na Câmara Municipal, Henrique se emocionou ao lembrar de toda a trajetória até a formação em medicina. Segundo ele, a homenagem simboliza não apenas uma conquista pessoal, mas também o esforço coletivo da família e do próprio bairro onde cresceu.

“Quando subi para receber a homenagem, passou um filme na minha cabeça. Lembrei das dificuldades, da faculdade e da minha família me ajudando em tudo”, contou.

O médico relembrou os desafios financeiros enfrentados durante a graduação e destacou que a união da família foi fundamental para que ele conseguisse permanecer na universidade. Henrique contou que, em vários momentos, tios, avó, pais e outros familiares se mobilizaram para ajudá-lo com despesas do dia a dia, como aluguel e custos da faculdade. “Todo mês era um perrengue, mas ninguém deixou de me apoiar”, afirmou.

Para Henrique, a homenagem também representa uma forma de reconhecer a participação da família e do bairro em toda a trajetória. Segundo ele, a conquista ajuda a mostrar para outros jovens da periferia que é possível alcançar objetivos maiores por meio dos estudos. “É importante mostrar que é possível. Independentemente das dificuldades financeiras ou sociais, dá certo se a pessoa correr atrás”, concluiu.

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