domingo, 6 setembro 2026
DESENVOLVIMENTO

Campinas recebe data center de inteligência artificial com investimento de até R$ 20 bilhões

Empreendimento da Terranova será instalado em Barão Geraldo, terá capacidade inicial de 216 megawatts e poderá gerar cerca de 3,6 mil empregos
Por
Emilly Ferreira

Campinas receberá um data center de alta capacidade voltado ao processamento de aplicações de inteligência artificial, com investimento inicial de aproximadamente R$ 5 bilhões. O valor poderá chegar a R$ 20 bilhões nas diferentes fases de implantação, com previsão de geração de cerca de 3,6 mil empregos diretos e indiretos.

O empreendimento será implantado no PIDS (Polo de Inovação para o Desenvolvimento Sustentável), em Barão Geraldo. A escolha da cidade, segundo o CEO da Terranova, Mauricio Giusti, levou em consideração a disponibilidade de mão de obra qualificada, a presença de universidades e centros de pesquisa, além da oferta de energia e conectividade. “A cidade reúne uma série de qualidades, assim, do ponto de vista de disponibilidade de talento, de você ter várias universidades, de você ter centros de pesquisa. E isso para um projeto desse porte é bastante importante, né? Porque a gente precisa de mão de obra especializada, tanto para construir como para operar um data center dessa dimensão”, afirmou.

Projeto será implantado no novo PIDS (Polo de Inovação para o Desenvolvimento Sustentável), em Campinas. Foto: divulgação

Segundo o executivo, cerca de 13 provedores de fibra óptica passam ao lado da área onde o empreendimento será instalado.

Estrutura é voltada à inteligência artificial
O Campus Campinas ocupará uma área de aproximadamente 944 mil metros quadrados, sendo cerca de 115 mil metros quadrados destinados à área construída. A estrutura será voltada a operações de alta capacidade de processamento, atendendo principalmente à demanda por infraestrutura para inteligência artificial e outros serviços digitais.

Segundo Giusti, os servidores utilizados no empreendimento serão equipados com GPUs (unidades de processamento gráfico) de última geração, que possuem alta densidade energética e exigem um sistema de refrigeração mais sofisticado que os modelos tradicionais. “Significa que você tem servidores, que são os computadores que ficam instalados dentro do data center, que são de última geração, e eles têm um consumo. São os servidores que têm dentro deles os chips, que são chamados de GPU, que são a última geração de chips de processamento de servidores e computadores, e eles são chips de alta densidade energética. Você tem que trabalhar com um sistema de refrigeração do data center bastante mais sofisticado do que os sistemas de refrigeração tradicional, que normalmente são por acondicionado”, explicou.

O campus terá uma subestação com capacidade inicial de 300 megawatts, com possibilidade de expansão para até 1 gigawatt. Na primeira fase, estão previstos 216 megawatts de capacidade de tecnologia da informação. O projeto também reserva áreas para futuras expansões, que podem elevar essa capacidade para 386 megawatts.

A implantação será realizada em diferentes etapas, com previsão de expansão da estrutura até 2029.

Sistema busca reduzir consumo de água
A Terranova prevê a utilização de um sistema de resfriamento líquido em circuito fechado para os equipamentos. Segundo a empresa, a tecnologia substitui o sistema tradicional de ar-condicionado e elimina o consumo de água utilizado nesse processo. “Então um data center tradicional, convencional, de tecnologia mais antiga, ele acaba gerando um consumo de água e isso é um bem escasso, não é uma prática tão sustentável. O nosso data center é um data center que usa um circuito fechado de liquid cooling, ele não usa o sistema de ar-condicionado e por isso não tem consumo de água”, afirmou Giusti.

Segundo a empresa, o sistema de resfriamento líquido também contribui para a eficiência energética da operação. Do total da área do empreendimento, cerca de 300 mil metros quadrados deverão ser destinados a áreas verdes e equipamentos urbanos, como vias de acesso e sistemas de tratamento de água. “A gente vai estar usando aproximadamente 60% só da área para fazer o desenvolvimento do projeto e o resto vai ser doado tanto para equipamentos urbanos, para fazer ruas, fazer acesso, como também para o destino de uma área verde para a cidade de Campinas”, explicou.

Fazenda histórica deve ser preservada
O anúncio do empreendimento foi realizado na Fazenda Pau D’Alho, um local com quase dois séculos de história e que já esteve ligado aos ciclos da cana-de-açúcar e do café em Campinas.

A fazenda surgiu a partir do desmembramento de uma sesmaria concedida em 1788. No fim do século XVIII, funcionava como engenho de cana-de-açúcar e, décadas depois, tornou-se uma importante produtora de café. A propriedade também passou pelas mãos da família Aranha, uma das famílias tradicionais da região.

Além da história ligada à produção agrícola, a Fazenda Pau D’Alho reúne construções históricas, jardins, uma capela e antigas senzalas. Em 2004, a propriedade passou por uma reforma e recebeu uma edição da Casa Cor Campinas. A partir de 2010, também começou a receber visitas de escolas, com atividades voltadas à história da fazenda, às construções e à ecologia, antes de passar a ser utilizada para eventos.

Segundo a Terranova, o casarão histórico será preservado e restaurado como parte do projeto. “Um projeto que foi feito pelo Ramos de Azevedo, uma fazenda centenária, um casarão centenário, que a gente vai preservar, restaurar e utilizar isso como uma forma de manter a memória. A Fazenda Pau D’Águia tem uma lógica de estar, por um lado, desenvolvendo um projeto bastante inovador, com tecnologia bastante sofisticada. Vai ser o data center mais avançado da América Latina no aspecto de inteligência artificial. E, por outro lado, a ideia de preservar o passado e reconhecer toda a importância desse passado na figura do casarão histórico, que é uma peça arquitetônica muito bonita e que vai ser mantido, preservado, tombado como parte do patrimônio histórico para a cidade de Campinas”, disse Giusti.

Trabalhadores da região
A empresa também afirma que pretende priorizar a contratação de trabalhadores de Campinas e da região, tanto durante a construção quanto na futura operação do data center.

Entre os profissionais mais demandados estão técnicos das áreas de hidráulica, elétrica, mecânica e construção civil, além de engenheiros de diferentes especialidades. A Terranova também pretende desenvolver ações de formação de mão de obra em parceria com universidades, faculdades e a Prefeitura de Campinas. “A gente está trabalhando na formação de mão de obra na região, que é um trabalho que a gente quer começar a fazer em conjunto com as universidades, as faculdades, a Prefeitura da cidade de Campinas e como a gente pode apoiar o desenvolvimento de mão de obra. Como eu falei, é uma mão de obra especializada por uma indústria que tem unidade relativamente jovem, uma indústria nova dentro da nossa realidade econômica de Brasil e de América Latina”, afirmou.

Incentivo fiscal
A Terranova foi a primeira empresa a receber incentivo fiscal no PIDS. Segundo o CEO, o apoio foi importante para viabilizar o investimento em um setor que disputa projetos em escala global. “Quando a gente está discutindo um projeto de construção de um data center em Campinas, a gente está, de certa forma, concorrendo com outros países, outras regiões do mundo, como o Sudeste Asiático, regiões como Malásia, como Tailândia, algumas partes da Europa que são polos de desenvolvimento de data center. Então, a gente ter o apoio de governos para a gente conseguir atrair investimento, a gente conseguir viabilizar isso e trazer a geração de emprego e desenvolvimento na região, faz uma diferença bastante significativa”, explicou.

A expectativa é que o empreendimento gere impactos além dos empregos diretamente ligados ao data center, com aumento da demanda por fornecedores, serviços e profissionais especializados.

O projeto também prevê parcerias com universidades, centros de pesquisa e instituições de capacitação da região para formar profissionais voltados às áreas de tecnologia. Com a implantação do novo campus, a expectativa da Prefeitura de Campinas é reforçar a posição da cidade como polo de ciência, tecnologia e inovação.

*Atualizado às 16h30 de 25/08

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