terça-feira, 8 setembro 2026
TRANSPLANTE CARDÍACO

Após 11 meses na fila, morador de Cosmópolis recebe novo coração

José Gasparotto, o Bigode, passou por transplante na Unicamp e voltou para casa em uma carreata organizada por familiares e amigos
Por
Thayla Nogueira
José Gasparotto, o Bigode, voltou para casa após passar por um transplante cardíaco na Unicamp. Foto: Divulgação

Depois de quase um ano internado e 11 meses à espera de um coração, José Gasparotto, conhecido como Bigode, voltou para casa em Cosmópolis. Aos 67 anos, ele vive há 39 anos na cidade e passou por um transplante cardíaco na Unicamp, em Campinas, em julho.

A volta foi marcada por uma surpresa organizada pela família. Um Fusca, veículo que faz parte da história de Bigode, puxou uma carreata com familiares e amigos que acompanharam de perto o período de espera pelo transplante. “Eu não esperava jamais acontecer isso”, contou.

A espera pelo coração
A história começou após duas cirurgias para a troca de válvulas. Quando o quadro se agravou, os médicos explicaram à família que o próximo passo seria o transplante. A esposa, Bernadete Gasparotto, acompanhou o marido durante todo o período de internação. “Essa história foi após duas cirurgias que ele teve de troca de válvula e o ano passado a gente voltou para o hospital e os médicos falaram que o próximo passo seria o transplante. Então a gente falou assim, vamos para a fila do transplante.”

O que inicialmente parecia ser uma espera de poucos meses se transformou em quase um ano. Segundo Bernadete, foram 311 dias no Centro Médico, período em que Bigode precisou permanecer ligado a aparelhos e receber medicamentos.

A família também sentiu a ausência dentro de casa. Para a filha, Giovanna Gasparotto, a rotina mudou completamente durante a internação. “A gente fica longe de pai e de mãe, que a gente via todo dia. Esse rompimento, essa ausência, essa dificuldade de estar junto toda hora, a incerteza do dia de amanhã”, contou.

A notícia que mudou tudo
Depois de meses de espera, surgiu um possível doador: um jovem de 28 anos. “Mas aí graças a Deus apareceu esse doador, um jovem de 28 anos, que a gente não sabe quem é e nem de onde veio, mas que graças a Deus ele era doador”, relatou Bernadete.

A cirurgia foi realizada na Unicamp. Após o transplante, Bigode permaneceu 20 dias na UTI e depois retornou ao Centro Médico, onde continuou o processo de recuperação.

A lembrança mais marcante da família é o momento em que recebeu a notícia de que o coração havia chegado. Bernadete estava com o marido no jardim do hospital quando a médica apareceu e disse: “Então, seu coração chegou.”

A notícia provocou choro, correria e uma mobilização imediata da família. “Foi assim, papum, foi aquela choradeira”, lembra Bernadete.

Familiares e amigos organizaram uma carreata para marcar a volta de Bigode para casa. Foto: Divulgação

Um novo começo
De volta a Cosmópolis, Bigode ainda passa pelo processo de recuperação. Ele compara a nova fase a um novo nascimento. “Eu sou um recém-nascido. Eu tenho que tomar todas as vacinas, como se fosse uma criança, para começar uma vida nova”, afirmou.

A família também planeja aproveitar novamente a convivência. Guilherme Gasparotto, filho de Bigode, conta que os dois sempre foram muito próximos e que atividades simples, como mexer em carros, na casa e na chácara, faziam parte da rotina. “Eu e o meu pai sempre foi muito grudado. Tudo que a gente fazia, tudo que ele fazia, ele sempre levava eu pra fazer junto”, contou.

A importância da doação
A experiência também transformou a maneira como a família enxerga a doação de órgãos. Em 2025, o Brasil realizou 211 transplantes de coração. No mesmo período, 48.159 pessoas aguardavam por algum tipo de órgão.

No país, a retirada de órgãos após a morte depende da autorização da família. Por isso, o Ministério da Saúde orienta que as pessoas conversem com seus familiares e deixem clara a vontade de serem doadoras. Para Giovanna, quem nunca viveu uma situação como essa pode não compreender a dimensão da espera. “A doação de órgãos, a gente não trabalha com previsão, a gente trabalha com espera, com disponibilidade, com as pessoas serem tocadas que um outro ser humano precisa viver, precisa continuar a vida, precisa ter um recomeço que nem o pai teve.”

A mesma experiência mudou a visão de Guilherme. “Até a gente ver que o meu pai, pra sobreviver, dependia de um transplante. Então hoje isso muda muito a minha cabeça”, afirmou.

Para a família, o gesto de quem autorizou a doação transformou uma história marcada pela incerteza em uma oportunidade de recomeço. Bernadete resume o sentimento ao falar sobre a família do doador: “Sejam doadores. […] O que você vai fazer pra uma outra família, pra várias famílias, não tem o que pague.”

Agora, depois de meses de espera, Bigode está de volta a Cosmópolis. O novo coração marca o início de uma vida que, para ele, acaba de começar.

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