Aos 16 anos, Emilly Góis Matias está prestes a viver uma experiência que, até pouco tempo atrás, parecia distante. Aluna do segundo ano do ensino médio da Escola Estadual Padre José Narciso Vieira Ehrenberg, no bairro João Aranha, em Paulínia, ela foi selecionada pelo programa Prontos pro Mundo e passará três meses estudando no Canadá.
A conquista é resultado da dedicação aos estudos e do incentivo da família. Emilly sempre estudou na rede pública e, desde pequena, também ajuda os pais em um trailer de lanches. Quarta filha de uma família com cinco filhos, começou a estudar inglês aos 11 anos, conhecimento que será fundamental nessa nova etapa.

Para chegar ao intercâmbio, a estudante precisou cumprir uma série de etapas. Segundo ela, é necessário estar matriculado na rede estadual desde a sexta série, ter bom desempenho escolar e participar das avaliações previstas pelo programa. No nono ano, os alunos fazem o Saresp, e os que obtêm os melhores resultados podem ser chamados, no ensino médio, para um teste de proficiência em inglês. “E é a partir desse teste que você é selecionado pro programa Prontos Pro Mundo. Aí eles avaliam sua ficha, seu boletim. Então, tem que ser um aluno bom e um aluno que entenda ali o básico do inglês”, explica Emilly.
O programa Prontos pro Mundo é uma iniciativa do Governo do Estado de São Paulo voltada a estudantes da rede pública. A ação oferece preparação em língua inglesa e oportunidades de intercâmbio, permitindo que os alunos conheçam outro sistema de ensino, cultura e rotina durante o período no exterior.

A aprovação
A notícia de que havia sido selecionada chegou de forma inesperada. Emilly participava de uma atividade da Secretaria da Educação quando integrantes da equipe começaram a apresentar os programas oferecidos aos alunos. O anúncio foi feito diante dos colegas e, para completar a surpresa, familiares entraram na sala com um cartaz que trazia uma foto dela. “Eu quase desmaiei. Porque eu senti uma esperança muito grande em relação a isso, mas eu pensava assim, nossa, mas são mil vagas pro estado de São Paulo inteiro”, lembra.
Emilly conta que só entendeu o que estava acontecendo quando ouviu o próprio nome ser anunciado. Inicialmente, ela havia sido selecionada para a Austrália, mas acabou remanejada e terá o Canadá como destino.
A preparação para a viagem também é marcada pelo incentivo recebido em casa. A mãe, Gisele Góis, conta que sempre procurou estimular os talentos da filha e ajudá-la a acreditar na própria capacidade. Um episódio marcante ocorreu durante a pandemia, quando Emilly precisou gravar um vídeo para uma atividade escolar e teve dificuldade para decorar o texto.
Na ocasião, Gisele insistiu para que a filha não desistisse e continuasse tentando. “Eu não acreditava, assim, eu, Gisele, que ela seria capaz, mas eu coloquei na cabeça dela, e eu gritei, eu falei assim, você consegue sim”, conta.
A mãe também lembra que precisou superar, ao longo da própria vida, situações que afetaram sua autoestima. Por isso, decidiu agir de forma diferente com os filhos e reforçar desde cedo que eles eram capazes de aprender, desenvolver talentos e conquistar seus objetivos. “Eu tive uma infância na qual eu fui chamada muito de burra, e eu acreditei durante anos que eu era burra. Então, fui descobrir quando eu passei num concurso, que realmente eu não era burra. Então, o poder da gente estimular a pessoa, mesmo que ela veja que ela não é capaz, isso faz toda diferença”, afirma.

Uma relação que vai além da escola
O incentivo de Gisele aparece em diferentes momentos da trajetória de Emilly. A adolescente começou a trabalhar com a mãe ainda criança e também fez cursos de confeitaria. Segundo ela, já são mais de 20 cursos na área, além da experiência em eventos e na produção e venda de doces e outros produtos.
Para Gisele, acompanhar o desenvolvimento da filha é motivo de orgulho. Ao falar sobre quem Emilly é dentro de casa, a mãe se emociona e resume a relação entre as duas. “Eu falo que a Emily é protagonista. Ela é a minha alegria. Ela é meu suporte, é meu braço forte. (…) Ela se destaca. Eu tenho muito orgulho. (…) Mas a Emily é protagonista na minha vida”, diz.
Gisele é mãe de cinco filhos e afirma que a educação sempre foi uma prioridade para a família. Para ela, os pais devem observar os interesses dos filhos, incentivar suas habilidades e oferecer oportunidades para que desenvolvam seus talentos. “Eu acredito na educação por estar dando certo na minha família. Invista em seus filhos”, aconselha.
Uma nova rotina
Emilly vai estudar durante três meses em Deer Lake, na província de Newfoundland and Labrador, no Canadá. Durante o período, ficará hospedada com uma família canadense e frequentará a Elwood Regional High School.
A estudante já trocou mensagens com a família que vai recebê-la e está ansiosa para conhecer a mãe anfitriã, Amanda, o pai anfitrião, John, e as duas irmãs, Noelle e Brooke.
Apesar da expectativa, Emilly diz estar tranquila com a distância da família. Ela sabe que sentirá saudade, mas encara o período como uma oportunidade de conhecer novas pessoas, aprender sobre outra cultura e viver uma experiência diferente. “Eu estou indo lá para realmente aprender, entendeu? Então essa parte de família está sendo muito tranquila. Não que eu não vá sentir saudade, eu vou chorar, né? Vou chorar, mas a gente está muito tranquilo, porque a gente sabe que vai ser algo muito bom”, afirma.
Além da experiência pessoal, a estudante espera que o intercâmbio ajude a definir os próximos passos. Emilly pretende cursar Relações Internacionais depois do ensino médio, mas afirma que continua aberta às possibilidades que podem surgir durante a viagem. “Meu projeto de vida é sempre estar estudando, basicamente”, resume.
Mais do que levar uma mala para o Canadá, Emilly espera voltar ao Brasil com novas memórias, amizades e uma visão diferente de mundo. Ela quer conhecer a rotina de uma escola canadense, praticar inglês e descobrir novas possibilidades para o futuro. “Eu acho que eu vou trazer muitas lembranças, um ar de coisa nova”, afirma.
Antes de embarcar para essa nova experiência, a estudante deixa uma mensagem para outros jovens que também sonham em continuar estudando e conhecer outros países: “Não se distraia por paixões, apaixone-se por si mesmo. Você é competente, você é capaz e você tem personalidade. Mude a si mesmo e mude o seu mundo.”





