
O primeiro encontro de Kleber Guimarães, de 30 anos, e da fisioterapeuta Roniélia Lima, de 37, aconteceu após uma conversa em um aplicativo de relacionamento. Ele morava em Cosmópolis. Ela, mineira, havia se mudado para Paulínia em busca de uma nova fase na vida. O que parecia o início de uma história comum ganhou um rumo inesperado poucos meses depois.
Quando o relacionamento ainda estava começando, Roniélia recebeu a suspeita de um câncer de mama. Além do medo provocado pela doença, surgiu uma insegurança que muitas mulheres enfrentam diante do diagnóstico: a dúvida sobre como a própria imagem seria afetada e se o parceiro permaneceria ao seu lado. “Eu pensei: será que agora eu vou enfrentar isso tudo sozinha? Eu tinha medo dele falar que não dava mais. Foi uma coisa que me tirou o chão”, relembra.
Mas a resposta veio em forma de presença. Kleber decidiu que enfrentaria cada etapa ao lado dela. “Ela perguntava se eu ia amar ela mesmo se não tivesse uma mama. Eu dizia que sim. Se tivesse que ser, a gente ia passar por isso junto”, conta.
Quando o namorado virou enfermeiro
Com a confirmação da doença, vieram a cirurgia, a quimioterapia e uma rotina completamente diferente daquela que o casal imaginava viver. Kleber passou a acompanhar consultas, ajudar na recuperação e participar ativamente dos cuidados diários.
Ele esvaziava o dreno após a cirurgia, organizava os medicamentos, ajudava nos curativos, dava banho na companheira e até aplicava as injeções necessárias depois das sessões de quimioterapia. “Ele me ajudava em tudo. Levava remédio na cama, cuidava dos curativos e fazia até as injeções. A gente até brincava que ele tinha virado meu enfermeiro”, lembra Roniélia.
Para ela, esse apoio foi fundamental para enfrentar o tratamento. “Nem todo mundo tem uma rede de apoio assim. Isso foi o que me sustentou.”
Gesto que ela nunca esqueceu
A quimioterapia trouxe um dos momentos mais delicados do tratamento: a queda dos cabelos. Antes mesmo de isso acontecer, Kleber já havia prometido que não deixaria a companheira passar por aquilo sozinha. Quando chegou a hora, ele raspou a cabeça junto com ela. O irmão e o sobrinho de Roniélia também participaram do gesto. “Eu já tinha falado para ela que, se tivesse que raspar, eu ia raspar também”, afirma.
A atitude ficou marcada na memória da fisioterapeuta. “Raspar o cabelo não é simplesmente passar a máquina. Tem todo um significado. Eu me senti acolhida e percebi até onde uma pessoa que ama é capaz de ir.”
Sonhos que precisaram esperar
Além das mudanças provocadas pela doença, o casal precisou adiar um dos maiores sonhos: formar uma família. Por causa do tratamento, terão que esperar alguns anos para tentar ter um filho, e ainda existe a possibilidade de menopausa precoce. A notícia abalou Roniélia, mas a resposta do companheiro trouxe tranquilidade. “Eu tinha medo de não conseguir ser mãe. E ele simplesmente falou que não tinha problema, que a gente adotaria.”
Kleber encara a situação com naturalidade. “Para tudo existe um jeito. O importante é a gente estar junto.”

Primeiro Dia dos Namorados no hospital
Se muitos casais guardam na memória um jantar especial ou uma viagem romântica, Kleber e Roniélia lembram o primeiro Dia dos Namorados de forma completamente diferente. Ela havia passado por cirurgia no dia anterior e a data foi vivida entre o quarto do hospital e os cuidados em casa. “O nosso primeiro Dia dos Namorados foi ele cuidando do meu dreno, me dando remédio, me ajudando no banho e nos curativos. Foi ali que eu percebi o quanto ele era especial”, recorda.
Hoje, os dois moram juntos em Paulínia e seguem enfrentando o tratamento lado a lado. O sonho da casa própria, do casamento e dos filhos continua vivo, mas aprenderam que alguns planos podem esperar quando existe parceria. Para Kleber, amar é permanecer. “Acho que a gente tem que estar do lado da pessoa que ama, principalmente nos momentos difíceis. Quem está junto também sofre, mas precisa manter a força para que o outro não desanime.”
Roniélia resume a história dos dois em poucas palavras. “Ele é a melhor escolha que eu faço todos os dias.”
Neste Dia dos Namorados, a trajetória do casal mostra que o amor nem sempre é retratado por flores, presentes ou declarações. Às vezes, está em um banho dado com cuidado, em uma noite passada no hospital, em uma cabeça raspada por solidariedade ou em uma promessa simples: a de nunca soltar a mão de quem se ama.





