Clientes de uma clínica odontológica localizada na região central de Piracicaba afirmam ter sido surpreendidos com o encerramento das atividades da unidade antes da conclusão de tratamentos já contratados e, em muitos casos, integralmente pagos. Diante das denúncias, a Polícia Civil instaurou inquérito para apurar se houve apenas descumprimento contratual ou eventual prática de estelionato contra os consumidores.
Segundo relatos dos pacientes, o fechamento ocorreu sem comunicação considerada suficiente. Muitos contam que encontraram o imóvel fechado ao comparecer para consultas previamente agendadas ou para remarcar procedimentos. Em um dos casos, uma paciente afirma ter pago mais de R$ 13 mil e aguarda a conclusão do tratamento há mais de um ano. Ela relata ainda que funcionários foram até sua residência para formalizar o financiamento do serviço por meio de reconhecimento facial.

Prejuízos e tratamentos interrompidos
A reportagem da TV TODODIA esteve na clínica na segunda-feira (13) e presenciou clientes chegando ao local em busca de informações e reagendamentos. Eles afirmaram que, nos últimos meses, já enfrentavam sucessivos adiamentos de consultas e dificuldades para conseguir atendimento.
Avisos afixados nas paredes informavam que a clínica passaria a ter nova direção e que, em alguns dias, o atendimento seria transferido para um novo endereço, a ser divulgado com a data oficial de inauguração. Porém, o Conselho Regional de Odontologia (CRO) informou que o estabelecimento já havia encerrado oficialmente suas atividades. Sem registro ativo no Conselho, uma clínica odontológica não pode realizar atendimentos. A empresa declarou possuir o registro, mas não apresentou documentação que comprovasse essa condição.
Os problemas também aparecem nos órgãos de defesa do consumidor. O Procon informou ter 216 reclamações registradas contra a clínica desde 2014, além de ações judiciais movidas por clientes. Consulta ao Tribunal de Justiça de São Paulo aponta que a razão social da empresa consta em mais de 70 processos, muitos relacionados a alegações de práticas abusivas, pedidos de indenização por danos materiais, rescisão contratual e restituição de valores pagos.
Padrão de atendimento é questionado
Um dos clientes, o construtor Luís Alberto, afirma ter buscado tratamento dentário desde março. “Foi efetuado o pagamento em dinheiro à vista e não fui atendido até agora. Venho aqui, o cara tira molde, volta, tira molde, não conseguiram resolver nada do meu problema. Eu não consigo comer direito, porque meus dentes não ficam no lugar, que eu vim pra fazer umas coroas nos implantes existentes. Tirou o provisório pra fazer moldagem e a cola que ele coloca no provisório, a hora que eu chego antes de chegar na minha casa, já está soltando meus dentes. Eu não consigo comer um pão, não consigo comer um bife.”
De acordo com pacientes, havia um padrão recorrente no funcionamento da clínica. Após a assinatura do contrato e o pagamento, os consumidores realizavam algumas consultas iniciais, mas passavam a enfrentar sucessivos adiamentos, dificuldade para agendar novas etapas ou até mesmo ausência completa da continuidade dos procedimentos.
Os relatos também apontam estratégias de captação de clientes por meio de anúncios nas redes sociais, convites para avaliações gratuitas e ofertas consideradas atrativas. Segundo os consumidores, durante as negociações eram apresentados orçamentos inicialmente elevados, que posteriormente sofriam reduções expressivas, acompanhadas de facilidades para financiamento e parcelamento dos tratamentos.
Empresa promete concluir procedimentos; Polícia investiga
A Polícia Civil de Piracicaba informou que já registrou sete boletins de ocorrência relacionados ao caso. O delegado responsável explicou que o inquérito buscará esclarecer se houve intenção deliberada de lesar os consumidores — hipótese que configuraria estelionato — ou se os fatos se limitam ao descumprimento de contratos, situação geralmente tratada na esfera cível.
Em nota, a empresa negou ter abandonado os pacientes e afirmou que todos os tratamentos contratados serão concluídos por clínicas parceiras a partir de 20 de julho de 2026. Disse também que o processo de encerramento da unidade vinha sendo conduzido havia cerca de 90 dias e que teria sofrido retaliações nesse período. A empresa acrescentou que o número de reclamações no Procon deve ser analisado dentro de um universo superior a 1,2 milhão de atendimentos realizados, mas não informou quais serão as clínicas responsáveis por concluir os procedimentos pendentes.
“Eu vim aqui hoje na clínica, não tem ninguém, só encontrei um rapaz ali que passou um número de telefone e falou que não é nem pra ligar nesse número, é pra mandar mensagem, porque eles não vão atender se não for mensagem, nem áudios vão responder. Assim, não dá pra ficar”, relatou um paciente. “Saindo daqui vou procurar uma delegacia, um advogado para buscar meus direitos, ver como vai ser resolvido. A gente é trabalhador, eu não consigo participar de uma reunião, para participar de uma reunião eu tenho que colar meus dentes com supercola?”





