quinta-feira, 28 maio 2026
ARBORIZAÇÃO URBANA

Moradores de Piracicaba cobram transparência sobre podas e cortes de árvores

Audiência pública na Câmara reuniu mais de 20 pessoas e expôs insatisfação com manejo arbóreo em diferentes regiões da cidade
Por
Paulo Carlim

A discussão sobre arborização urbana ganhou tons de cobrança pública e mobilização ambiental em Piracicaba durante audiência no plenário da Câmara Municipal, convocada pela vereadora Silvia Morales (PV). O encontro reuniu representantes da Prefeitura, especialistas, ambientalistas, moradores e integrantes de conselhos municipais em um debate que expôs insatisfação crescente com recentes podas e supressões de árvores em diferentes regiões da cidade.

A audiência foi motivada principalmente por reclamações envolvendo o atual manejo arbóreo executado no município. Segundo o requerimento da parlamentar, o gabinete vinha recebendo denúncias frequentes de moradores preocupados com cortes considerados excessivos e podas agressivas. Entre os pontos mais citados estavam intervenções na região do Engenho Central, avenida Beira Rio, avenida Cruzeiro do Sul e rua Luiz de Queiroz, locais tradicionalmente marcados por árvores de grande porte e forte valor paisagístico.

A audiência foi motivada principalmente por reclamações envolvendo o atual manejo arbóreo executado no município, CCS/Prefeitura Municipal

Participação da sociedade civil
O plenário registrou participação intensa da sociedade civil. Mais de 20 pessoas utilizaram o microfone ao longo da noite, incluindo professores da Esalq-USP, representantes do Comdema, integrantes de entidades ambientais, técnicos da administração municipal e moradores de diferentes bairros. Em vários momentos, o debate assumiu tom emocional, sobretudo quando cidadãos relataram perdas de árvores antigas e questionaram a falta de transparência nos critérios utilizados para supressão vegetal.

Cobranças sobre podas
Participantes afirmaram que podas associadas à rede elétrica estariam descaracterizando árvores urbanas e comprometendo a paisagem de avenidas tradicionais. Houve manifestações de moradores que classificaram algumas intervenções como drásticas e desproporcionais. Representantes da concessionária participaram da audiência e ouviram cobranças sobre maior diálogo técnico antes das intervenções e adoção de métodos menos agressivos de manejo.

Outro ponto amplamente debatido foi o contrato emergencial firmado pela Prefeitura para serviços de manejo arbóreo. A empresa Sellimp Serviços de Limpeza Ltda., responsável pelas ações emergenciais desde o início do ano, havia sido convidada para a audiência, mas não enviou representantes, fato criticado por participantes. A ausência foi interpretada por alguns presentes como falta de disposição para prestar esclarecimentos públicos sobre os critérios adotados nos cortes e podas recentes.

Prefeitura admite necessidade de diálogo
Durante a audiência, integrantes do Executivo defenderam que parte das intervenções ocorreu por questões de segurança, especialmente em árvores com risco estrutural ou conflito com a rede elétrica. Participaram do debate o secretário municipal de Agricultura, Abastecimento e Meio Ambiente, Maurício Perissinotto, além de representantes das áreas de Obras e Meio Ambiente da Prefeitura. Os gestores reconheceram a necessidade de aperfeiçoar a comunicação com a população e destacaram que muitas árvores apresentam envelhecimento avançado, exigindo monitoramento constante.

Especialistas ligados à área ambiental reforçaram que Piracicaba possui tradição histórica de arborização urbana, mas alertaram para a necessidade urgente de atualização do Plano Municipal de Arborização Urbana. O documento, elaborado anos atrás, voltou ao centro da discussão como instrumento fundamental para orientar políticas públicas permanentes, definindo espécies adequadas, critérios técnicos de poda, metas de recomposição vegetal e integração entre urbanismo e meio ambiente.

Contraste entre plantio e remoção
A audiência também evidenciou um contraste importante vivido pela cidade. Enquanto crescem as críticas às remoções de árvores, a Prefeitura divulga números robustos relacionados à produção e distribuição de mudas. Dados recentes do Viveiro Municipal apontam produção superior a 46 mil mudas em 2025, além de milhares de unidades destinadas a plantios em áreas públicas e projetos ambientais. Ambientalistas presentes defenderam, porém, que o debate não pode se restringir ao número de árvores plantadas, mas também à preservação das árvores adultas já consolidadas no espaço urbano.

Tema sensível na gestão
Politicamente, o encontro mostrou que a arborização urbana se transformou em um dos temas ambientais mais sensíveis da atual gestão municipal. Vereadores de diferentes partidos participaram da audiência, demonstrando que o assunto ultrapassa divisões ideológicas e passou a mobilizar moradores preocupados tanto com questões ambientais quanto com conforto térmico, qualidade de vida e identidade paisagística da cidade. Em diversos momentos, participantes associaram a redução da cobertura arbórea ao aumento do calor urbano e à perda de áreas de sombra em regiões centrais.

Ao final da audiência, não houve deliberação formal, mas o encontro consolidou uma série de cobranças públicas direcionadas ao Executivo e à concessionária de energia. Ficou evidente a pressão para revisão das práticas de manejo arbóreo, atualização do plano municipal e ampliação do diálogo com especialistas e moradores antes de novas intervenções. A discussão também reforçou que a arborização deixou de ser apenas um tema técnico em Piracicaba e passou a ocupar espaço central no debate sobre desenvolvimento urbano, sustentabilidade e qualidade de vida da população.

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