sexta-feira, 11 setembro 2026
ALTA PRECIPITAÇÃO

Cheia do Ribeirão Quilombo afeta 100 famílias em Sumaré; 17 são removidas

Dezessete famílias tiveram que sair de casa na Região do Matão; monitoramento continua até sábado em pontos críticos da cidade
Por
Vagner Salustiano
Casas e carros ficaram submersos na Rua Claudemir Eugênio, na Vila Diva. Foto: Vagner Salustiano/TV TODODIA

Sumaré registrou os maiores índices de chuva entre a noite de quinta-feira (10) e a manhã de sexta-feira (11), com cerca de 100 milímetros de precipitação, o equivalente a 100 litros de água por metro quadrado. O volume, somado às águas de Campinas e Paulínia que chegam ao município pelo Ribeirão Quilombo, provocou enchentes e afetou cerca de 100 famílias até o final da manhã de sexta-feira.

Residências foram alagadas nos jardins Primavera, São Domingos, Picerno, Manchester e Jatobá, além da Vila Diva. Todos são locais já mapeados e que convivem com cheias há décadas. Apenas na Vila Diva, na Região do Matão, 17 famílias precisaram deixar as casas com apoio do Corpo de Bombeiros. Outras pessoas se recusaram a sair, apesar dos alertas dos bombeiros e da Defesa Civil Municipal.

Por volta do meio-dia de sexta-feira, a principal preocupação das autoridades, das equipes de resgate e dos moradores de áreas de risco era a previsão de mais chuva a partir do final da tarde, com possibilidade de continuidade até sábado (12).

Situação mais grave foi na Vila Diva, no Matão
Na Vila Diva, a reportagem da TV TODODIA conversou com o agente da Defesa Civil João Batista Machado. Ele falou sobre o resgate das famílias, a preocupação com quem se recusou a sair e o monitoramento previsto para o período de chuvas.

“Quando a gente chegou no local, os Bombeiros já estavam retirando várias pessoas. Pela informação do sargento que estava comandando a guarnição dos Bombeiros, são aproximadamente 17 famílias que foram retiradas daqui. Algumas ainda continuam, não querem sair. Já foi registrado pelos bombeiros que elas não querem sair da residência”, afirmou.

Segundo Batista, as famílias retiradas foram levadas para abrigos ou para a casa de parentes. A Defesa Civil também reforçou o alerta para que as pessoas que decidiram permanecer em áreas sujeitas a alagamentos deixem os imóveis.

“Segundo a informação do sargento que conversou com a gente, já foi informado que eles têm que sair, né? Porque a previsão de chuva de agora para a tarde é praticamente o mesmo volume que teve essa madrugada. Mesmo assim, eles se recusam a sair, eles não querem sair”, acrescentou o agente.

Corpo de Bombeiros resgatou 17 famílias que moram na Rua Claudemir Eugênio, em Sumaré. Fotos: Acervo Pessoal/Audry Cabral

Estado de alerta continua até pelo menos sábado
O alerta para as áreas de risco continua em Sumaré, assim como o trabalho de monitoramento, enquanto persistir a previsão de chuva.

“A gente vai trabalhar com o sistema de monitoramento do rio, todos os rios de Sumaré. São várias equipes espalhadas para cada ponto de alagamento. Essas informações vão ser cruzadas na nossa área central, para a gente poder estar orientando o pessoal. Se o rio está baixando, ou se ele está subindo o nível. E a informação sobre a próxima chuva que está vindo aí. Que é a previsão do pessoal de São Paulo, que está informando a gente. O alerta continua, o alerta continua. Pelo volume de chuva que teve essa madrugada, a informação é o mesmo agora, a partir do período das cinco da tarde, seis da tarde. A informação que a gente dá ao pessoal é sair. Como eles não querem sair, ligar para os Bombeiros 193, ou ligar para a Defesa Civil 199, caso perceba que o rio está subindo. E a tendência é ele subir devido a essa chuva que está vindo aí”, completou Batista.

Moradora convive com riscos desde que nasceu
A moradora da Vila Diva Audry Cabral precisou deixar novamente a casa na sexta-feira por causa da cheia do Ribeirão Quilombo. Ela relatou como é viver às margens do curso d’água e disse ter perdido quase tudo, como mostram vídeos disponibilizados pela própria moradora.

“(Moro aqui) há 34 anos. Desde que eu nasci. A minha mãe mora aqui há 45 anos. Toda vez que chove é assim. Toda vez. Agora tá ficando pior. Devido às construções em volta, na região, tá ficando cada vez pior. Mas, desde pequena, eu falei pro outro rapaz também, que a gente… Eu lembro da minha mãe sair comigo pra ela ir trabalhar. Ela trabalhava em Souzas, ela saía comigo, a mochila num lado, a bolsa dela, eu aqui do lado, ela me punha do lado, ela colocava sacolas. E ela vinha até o começo da rua, ela chegava e trocava os sapatos para poder trabalhar e me levar para a escola. Então, a vida toda foi esse sofrimento. Agora anda piorando por conta das construções em volta”, afirmou Audry Cabral, que observava de longe a casa alagada na Rua Claudemir Eugênio.

A família se acostumou a enfrentar as enchentes, mas Audry disse que não consegue dormir quando chove. “Hoje a gente já tá mais acostumado, a gente tá mais preparado em relação à chuva. A gente não dorme. Chega a noite, a gente não dorme. Porque a qualquer momento a água vai subir e a água vai entrar dentro de casa. Então, assim… É triste, porque a gente perde tudo dentro de casa, né? Em fevereiro desse ano a gente teve uma enchente, 26 de fevereiro. A água entrou dentro de casa, ficou dois dias dentro de casa na altura da canela. Hoje nós saímos de casa com o Corpo de Bombeiros e a água estava dando na cintura dentro de casa. Então, assim, foi um volume muito alto, muito alto de água. E a gente perdeu tudo. Tá rodando tudo lá dentro de casa. Máquina, geladeira, fogão, tá rodando tudo lá dentro de casa. Cama…”, lamentou.

Audry também demonstrou preocupação com os vizinhos, já que muitos não têm parentes na cidade. “É preocupante, né? As famílias que ainda têm condições de sair para casas de familiares, assim como a minha mãe, minha pequena, nós tiramos. Minha mãe tem 74 anos, minha pequena tem 6 anos. Ela foi pra casa da minha irmã, que ela mora mais na região do centro de Sumaré. Mas é preocupante, porque tem famílias que não tem para onde ir, né? Não tem pra onde se refugiar nesse caso. Então, assim, é preocupante”, completou a moradora.

Audry Cabral convive a vida toda com as cheias frequentes do Ribeirão Quilombo na Vila Diva. Foto: Vagner Salustiano/TV TODODIA

No Primavera, águas ainda subiam no final da manhã
No Jardim Primavera, na Região Central, a situação também era crítica. Quando a reportagem esteve no bairro, no final da manhã de sexta-feira, o nível das águas do Ribeirão Quilombo ainda subia visivelmente e atingia cada vez mais imóveis.

Moradores do Primavera relataram o medo provocado pelas chuvas e cobraram uma ação definitiva do Poder Público para resolver os problemas da bacia do Ribeirão Quilombo.

É o caso de Elismar José dos Santos, que mora há dez anos no trecho mais baixo da Avenida Eugênia Biancalana Duarte. “(Quando chove) é sempre assim, sempre assim. Afeta em tudo, né. A água entra nas residências do pessoal aí. Aí acaba destruindo tudo, é sempre assim”, apontou. Ele também cobrou soluções definitivas do Poder Público. “Que tomam providência o mais rápido possível, né. A população não aguenta mais, né. A população não aguenta mais isso não”, disse.

Ponto crítico do Jardim Primavera é o trecho mais baixo da Avenida Eugênia Biancalana Duarte. Foto: Vagner Salustiano/TV TODODIA

Moradoras já tiveram que “começar do zero” várias vezes
Jéssica Neres, também moradora do Jardim Primavera, perdeu a conta de quantas vezes precisou começar do zero depois de perder tudo nas enchentes do Ribeirão Quilombo.

“Isso nunca muda, né? Faz muito tempo que a gente está aqui, convivendo com essa situação. A gente vê a água entrando, mas não pode fazer nada, né? A única coisa é poder levantar o que pode, mas mesmo assim, acaba acontecendo a mesma coisa. Perda de móveis, materiais, as coisas, não tem como mais correr atrás, né? Toda vez tem que comprar, tem que correr atrás das coisas, aí fica difícil, né? Fora o lixo que fica, o barro depois que acontece essa chuvarada, essa enchente, aí fica só prejuízo”, lamentou.

Ela também disse ter medo da água suja que o ribeirão leva para dentro das casas durante as enchentes. “A gente não sabe o que tem. Agora há pouco, meu irmão encontrou um sapo aí, pulando aí. A gente não sabe o que mais pode ter, né?”

Risco de doenças, insetos e animais aflige moradores do Primavera, como Maria José. Foto: Vagner Salustiano/TV TODODIA

Quem também já perdeu tudo mais de uma vez no Primavera é Maria José de Souza. Ela contou que perde o sono sempre que escuta a chuva cair forte.

“(A gente) não dorme de noite, tem que levantar a noite inteira para ver o rio, o bueiro, como tá. Essa noite mesmo, passamos a noite levantando a noite inteirinha, porque a gente não consegue dormir, né? Porque pensa que não, mas já chega do nada (a água) subindo do nada, né. É complicado isso aí. Já, já perdi muitas coisas. Na verdade, não tem muito móvel em casa porque não dá para comprar móvel novo, estraga tudo”, contou.

Maria José também espera uma ação mais incisiva do Poder Público para combater as enchentes recorrentes do Ribeirão Quilombo no bairro.

“Ah, (queria que) os prefeitos, os vereadores, visse o que podem fazer, né Porque pra eles é fácil. Eles dormem, tem cama para dormir, tem comida, tem tudo de bom. Agora a gente, quando chove, a gente não tem paz. Não consegue dormir, passa a noite, claro. É complicada a situação. Estou acostumada já, né? Toda vez que qualquer chuvinha que dá, já vem para a porta de casa a água. Já até acostumei, já. Mas é difícil, né? Essa água cheia de bicho, de cobras, de escorpião, tudo quanto qualquer coisa, vem inseto, né? É complicado isso daí. E ninguém faz nada, entra ano e sai ano e é a mesma coisa. Eles falam que vai mudar, vai mudar, vai mudar e não muda. É complicado isso daí”, finalizou a moradora.

Famílias removidas foram abrigadas em outros locais
As famílias retiradas pelo Corpo de Bombeiros e pela Defesa Civil foram levadas pela Prefeitura de Sumaré para abrigos provisórios ou para a casa de parentes.

A Defesa Civil Municipal continua prestando apoio às famílias que permaneceram em suas casas ou próximas delas para vigiar o que restou do patrimônio. O órgão também fornece refeições às pessoas afetadas.

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