Uma mulher de 37 anos, grávida, recebeu um diagnóstico de possível aborto espontâneo e passou por uma curetagem com o bebê ainda vivo, em 12 de julho, no HES (Hospital Estadual de Sumaré Dr. Leandro Franceschini). Um mês após o procedimento, ela descobriu que continuava grávida.
A paciente perdeu o líquido amniótico durante a curetagem, provavelmente em razão de uma perfuração da bolsa amniótica, segundo a equipe médica. Com isso, a gestação passou a ser considerada de alto risco. Mesmo diante da situação, a mulher decidiu levar a gravidez adiante, na expectativa de que o bebê se desenvolva e nasça com saúde.

O caso veio à tona nesta quarta-feira (19), quando a direção do Hospital Estadual de Sumaré reconheceu o possível erro médico, abriu um procedimento interno para investigar o atendimento e informou que continua prestando assistência pré-natal à paciente. “Você imaginar, você pensar que perdeu um bebê, e saber que o bebê ainda está dentro de você. Eu vivi um luto, foram 14 dias depressiva, dentro de casa. E eu saber que o bebê ainda está dentro de mim, não tem explicação”, afirmou a mulher ao G1.
Sangramento levou paciente ao hospital
A mulher, moradora de Sumaré, descobriu no início de junho que estava grávida de quase sete semanas e que a gestação evoluía dentro do esperado. No dia 12 de julho, ela teve um sangramento e procurou atendimento no Hospital Estadual, localizado na Avenida da Amizade, em Nova Veneza.
Segundo a paciente, a médica que realizou o atendimento constatou um aborto espontâneo apenas por meio de exame de toque e indicou a realização de uma curetagem. O procedimento foi feito no mesmo dia, no próprio hospital.
Ainda de acordo com a mulher, não foi realizado um ultrassom para confirmar a perda gestacional. “Eu acordei com sangramento, (mas) estava sem dor nenhuma. Fui atendida por uma médica, a médica me examinou, fez um exame de toque, e foi constatado o (suposto) aborto espontâneo. Eles não fizeram um ultrassom para confirmar se eu tive mesmo um aborto. Foi confirmado por ela, por exame físico, que eu tive esse aborto. Eles me deram a opção de fazer a curetagem, que foi realizada no mesmo dia. (A esta altura) eu já estava vivendo um processo de luto”, relatou.
O nome da médica que atendeu a paciente e determinou a realização da curetagem não foi informado.
Sintomas continuaram após curetagem
Mesmo depois do procedimento, a mulher afirma que continuou apresentando sintomas de gravidez. Ela relatou enjoo, dores na lombar e a sensação de que a barriga e os seios continuavam crescendo. “Eu senti muito enjoo, sentia muita dor na lombar, e minha barriga não diminuía. E uma sensação de que meu seio estava enchendo de leite”, contou.
Em 14 de agosto, pouco mais de um mês após a curetagem, a paciente procurou uma farmácia para voltar a utilizar anticoncepcional injetável. Antes da aplicação, porém, precisou realizar um teste de gravidez. O exame de sangue apresentou resultado positivo. “Fui tomar o anticoncepcional injetável, mas antes de tomar é obrigatório fazer o exame de gravidez. Foi feito o exame de sangue, que confirmou que eu ainda estou gestante”, afirmou.
A paciente retornou ao Hospital Estadual e foi atendida por outro profissional, que solicitou um ultrassom de urgência. O exame mostrou que o bebê continuava vivo. “Voltei no dia 14 no Hospital Estadual. Eles pediram um ultrassom com urgência. Foi realizado o ultrassom, mas para minha surpresa, no ultrassom, quando o aparelho foi colocado na minha barriga, do nada um coração batendo. Eu ainda questionei a médica, perguntei ‘como assim tem um coração batendo aí, se eu fiz uma curetagem no dia 12 do sete?’”, relatou.
Ultrassom confirmou gestação de 16 semanas
O exame realizado em 14 de agosto confirmou uma gestação de 16 semanas. O feto continuava vivo e em desenvolvimento, com peso estimado em 170 gramas. O exame, porém, também apontou ausência de líquido amniótico. Segundo a paciente, a equipe do HES pediu desculpas e informou que a perda do líquido provavelmente ocorreu durante a curetagem.
“Eu conversei com eles (os médicos), que me pediram perdão, mas eu acho que perdão e desculpa não vão mudar o cenário que estou vivendo hoje. E falaram que pode ser que através do procedimento (de julho), da curetagem que fizeram comigo, que perfuraram a minha bolsa”, afirmou.
Os profissionais explicaram que, devido ao risco elevado da gestação provocado pela ausência de líquido amniótico, a paciente teria a opção de interromper a gravidez. “Foi sugerido para mim que eu poderia interromper a gestação por causa da falta desse líquido, porque através desse líquido que acontece o amadurecimento do pulmão (do bebê). E que se não tiver esse líquido, o pulmão não amadurece. E eu tenho (gravidez de) risco e, infelizmente, meu bebê também tem (risco)”, relatou.
A mulher decidiu não interromper a gestação. “Estou vivendo uma situação muito difícil. Eu não quero tirar a vida do meu bebê. Enquanto há vida eu vou viver essa gestação até quando Deus permitir”, completou.
Hospital abriu investigação interna
Em nota, a direção do Hospital Estadual de Sumaré lamentou o ocorrido e informou que abriu uma sindicância interna para apurar a conduta da equipe responsável pelo atendimento prestado à paciente em julho. Caso sejam constatadas irregularidades, o hospital informou que serão adotadas as medidas cabíveis.
O HES também afirmou que acolheu a paciente e os familiares, que continua oferecendo apoio e esclarecimentos e que mantém o acompanhamento pré-natal da gestante. Um exame morfológico 4D deverá ser realizado quando a mulher completar 20 semanas de gestação para acompanhar o desenvolvimento do feto.
Uma reunião entre a família, a equipe médica e a direção do HES estava prevista para a tarde desta quarta-feira (19). A direção do hospital reafirmou o compromisso com a oferta de assistência qualificada, humanizada e segura à população de Sumaré e região.
Outros posicionamentos
A TV TODODIA também solicitou posicionamentos à Secretaria Estadual de Saúde e ao Cremesp (Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo). A Secretaria informou que não se manifestaria sobre o caso. O Cremesp ainda não havia respondido até a publicação.





