quarta-feira, 19 agosto 2026
POSSÍVEL ERRO

Mulher passa por curetagem no HES após diagnóstico de aborto e descobre um mês depois que ainda está grávida; gestação é de alto risco

Mulher de 37 anos procurou unidade após sofrer sangramento em julho, mas continuou desenvolvendo sintomas de gravidez
Por
Vagner Salustiano

Uma mulher de 37 anos, grávida, recebeu um diagnóstico de possível aborto espontâneo e passou por uma curetagem com o bebê ainda vivo, em 12 de julho, no HES (Hospital Estadual de Sumaré Dr. Leandro Franceschini). Um mês após o procedimento, ela descobriu que continuava grávida.

A paciente perdeu o líquido amniótico durante a curetagem, provavelmente em razão de uma perfuração da bolsa amniótica, segundo a equipe médica. Com isso, a gestação passou a ser considerada de alto risco. Mesmo diante da situação, a mulher decidiu levar a gravidez adiante, na expectativa de que o bebê se desenvolva e nasça com saúde.

Paciente voltou ao Hospital Estadual em 14 de agosto, ao descobrir que continuava grávida um mês após curetagem. Foto: Vagner Salustiano/TV TODODIA

O caso veio à tona nesta quarta-feira (19), quando a direção do Hospital Estadual de Sumaré reconheceu o possível erro médico, abriu um procedimento interno para investigar o atendimento e informou que continua prestando assistência pré-natal à paciente. “Você imaginar, você pensar que perdeu um bebê, e saber que o bebê ainda está dentro de você. Eu vivi um luto, foram 14 dias depressiva, dentro de casa. E eu saber que o bebê ainda está dentro de mim, não tem explicação”, afirmou a mulher ao G1.

Sangramento levou paciente ao hospital
A mulher, moradora de Sumaré, descobriu no início de junho que estava grávida de quase sete semanas e que a gestação evoluía dentro do esperado. No dia 12 de julho, ela teve um sangramento e procurou atendimento no Hospital Estadual, localizado na Avenida da Amizade, em Nova Veneza.

Segundo a paciente, a médica que realizou o atendimento constatou um aborto espontâneo apenas por meio de exame de toque e indicou a realização de uma curetagem. O procedimento foi feito no mesmo dia, no próprio hospital.

Ainda de acordo com a mulher, não foi realizado um ultrassom para confirmar a perda gestacional. “Eu acordei com sangramento, (mas) estava sem dor nenhuma. Fui atendida por uma médica, a médica me examinou, fez um exame de toque, e foi constatado o (suposto) aborto espontâneo. Eles não fizeram um ultrassom para confirmar se eu tive mesmo um aborto. Foi confirmado por ela, por exame físico, que eu tive esse aborto. Eles me deram a opção de fazer a curetagem, que foi realizada no mesmo dia. (A esta altura) eu já estava vivendo um processo de luto”, relatou.

O nome da médica que atendeu a paciente e determinou a realização da curetagem não foi informado.

Sintomas continuaram após curetagem
Mesmo depois do procedimento, a mulher afirma que continuou apresentando sintomas de gravidez. Ela relatou enjoo, dores na lombar e a sensação de que a barriga e os seios continuavam crescendo. “Eu senti muito enjoo, sentia muita dor na lombar, e minha barriga não diminuía. E uma sensação de que meu seio estava enchendo de leite”, contou.

Em 14 de agosto, pouco mais de um mês após a curetagem, a paciente procurou uma farmácia para voltar a utilizar anticoncepcional injetável. Antes da aplicação, porém, precisou realizar um teste de gravidez. O exame de sangue apresentou resultado positivo. “Fui tomar o anticoncepcional injetável, mas antes de tomar é obrigatório fazer o exame de gravidez. Foi feito o exame de sangue, que confirmou que eu ainda estou gestante”, afirmou.

A paciente retornou ao Hospital Estadual e foi atendida por outro profissional, que solicitou um ultrassom de urgência. O exame mostrou que o bebê continuava vivo. “Voltei no dia 14 no Hospital Estadual. Eles pediram um ultrassom com urgência. Foi realizado o ultrassom, mas para minha surpresa, no ultrassom, quando o aparelho foi colocado na minha barriga, do nada um coração batendo. Eu ainda questionei a médica, perguntei ‘como assim tem um coração batendo aí, se eu fiz uma curetagem no dia 12 do sete?’”, relatou.

Ultrassom confirmou gestação de 16 semanas
O exame realizado em 14 de agosto confirmou uma gestação de 16 semanas. O feto continuava vivo e em desenvolvimento, com peso estimado em 170 gramas. O exame, porém, também apontou ausência de líquido amniótico. Segundo a paciente, a equipe do HES pediu desculpas e informou que a perda do líquido provavelmente ocorreu durante a curetagem.

“Eu conversei com eles (os médicos), que me pediram perdão, mas eu acho que perdão e desculpa não vão mudar o cenário que estou vivendo hoje. E falaram que pode ser que através do procedimento (de julho), da curetagem que fizeram comigo, que perfuraram a minha bolsa”, afirmou.

Os profissionais explicaram que, devido ao risco elevado da gestação provocado pela ausência de líquido amniótico, a paciente teria a opção de interromper a gravidez. “Foi sugerido para mim que eu poderia interromper a gestação por causa da falta desse líquido, porque através desse líquido que acontece o amadurecimento do pulmão (do bebê). E que se não tiver esse líquido, o pulmão não amadurece. E eu tenho (gravidez de) risco e, infelizmente, meu bebê também tem (risco)”, relatou.

A mulher decidiu não interromper a gestação. “Estou vivendo uma situação muito difícil. Eu não quero tirar a vida do meu bebê. Enquanto há vida eu vou viver essa gestação até quando Deus permitir”, completou.

Hospital abriu investigação interna
Em nota, a direção do Hospital Estadual de Sumaré lamentou o ocorrido e informou que abriu uma sindicância interna para apurar a conduta da equipe responsável pelo atendimento prestado à paciente em julho. Caso sejam constatadas irregularidades, o hospital informou que serão adotadas as medidas cabíveis.

O HES também afirmou que acolheu a paciente e os familiares, que continua oferecendo apoio e esclarecimentos e que mantém o acompanhamento pré-natal da gestante. Um exame morfológico 4D deverá ser realizado quando a mulher completar 20 semanas de gestação para acompanhar o desenvolvimento do feto.

Uma reunião entre a família, a equipe médica e a direção do HES estava prevista para a tarde desta quarta-feira (19). A direção do hospital reafirmou o compromisso com a oferta de assistência qualificada, humanizada e segura à população de Sumaré e região.

Outros posicionamentos
A TV TODODIA também solicitou posicionamentos à Secretaria Estadual de Saúde e ao Cremesp (Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo). A Secretaria informou que não se manifestaria sobre o caso. O Cremesp ainda não havia respondido até a publicação.

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