‘Lô’ retrata a relação entre um cinquentão e uma garota

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Longe da guitarra que empunha nos Titãs, a sólida carreira de escritor iniciada há 23 anos deu a Tony Bellotto um rótulo de “autor de romances policiais”, mesmo que tenha publicado outros gêneros. E “Lô”, sua obra mais recente, quase foge da narrativa de crime. Quase.

 

Durante boa parte da leitura, a trama se equilibra entre sátira de costumes e drama existencial. O título já traz embutida a inspiração declarada no clássico “Lolita”, de Vladimir Nabokov (1899-1977). Como no romance lançado pelo russo em 1955, a trama gira em torno da relação de um homem cinquentão, Lourenço, com uma adolescente, Juliana.

 

“Tecnicamente foi um livro que me deu muito trabalho, por mais de três anos”, diz Bellotto à reportagem. “Eu comecei escrevendo dois diários, um do Lô e outro da Ju. Depois vi que isso não se desenvolvia como eu esperava, então fui mudando para o narrador em terceira pessoa.”

 

Mais do que a relação de Lô com a menina, o autor buscou uma crônica sarcástica sobre o homem maduro, embalada numa descrição ácida de uma certa classe média alta carioca. “Tem algumas camadas. Tem a questão existencial do personagem, da decepção no momento em que ele toma pé de que o mundo que ele idealizou deixa de fazer sentido”, afirma Bellotto.

 

Lô é um cinquentão bem-sucedido, com mulher fascinante e filho exemplar, adepto de esportes, meditação, vegetarianismo. Segundo o autor, alguém regido por uma idealização da pureza. “É, de certa maneira, a questão do homem do nosso tempo, que tenta ser esse homem idealizado, mas, quando se confronta com seus instintos animais, perde o rumo. O sujeito que não come carne, o sujeito que medita, confiante em uma proposta de vida, percebe como essas coisas só vão evidenciando um medo danado de morrer”, conta o escritor de 58 anos.

 

A revelação de um crime muda o rumo do livro. “Eu não tinha a menor intenção de fazer desse romance um livro policial, queria que fosse uma crítica de costumes, que abordaria a questão da crise existencial do cara de meia-idade. Mas entrou um crime, e não poderia terminar sem desvendar o que aconteceu. Aquele Bellini que vive dentro de mim acordou!”

 

Bellotto brinca ao se referir a seu personagem mais famoso, o detetive Bellini, que está nas páginas de quatro de seus dez livros desde a estreia, “Bellini e a Esfinge”. “As pessoas têm uma visão meio estereotipada do que seja a literatura policial. Achei que ‘Lô’ era uma boa oportunidade de mostrar uma história policial bem diferente daquilo que todos esperam.”

 

Bellotto concorda que o tom noir que dá ao personagem Bellini cria uma aura nostálgica, que nem de longe chega perto da escalada de violência dos crimes reais praticados hoje no Brasil. “Inventei o Bellini antes até de transformá-lo em policial. Meu interesse está no personagem, não nos crimes. Sei que é totalmente nostálgico. O crime de verdade está de um jeito difícil de expressar na literatura.”

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