Um dos nomes mais importantes do hip-hop brasileiro, o rapper, escritor e ativista social MV Bill foi o destaque da edição de julho da Parada Poética, em Hortolândia. Conhecido por retratar a realidade das periferias em suas músicas e livros, o artista participou do sarau, apresentou trechos do seu livro mais recente e falou sobre literatura, carreira e os desafios de transformar experiências de vida em escrita.
Livro reúne histórias e reflexões
Durante o evento, MV Bill apresentou o livro A Vida Me Ensinou a Caminhar. A obra reúne crônicas inspiradas em sua trajetória e em acontecimentos ligados ao universo do hip-hop. São 27 textos acompanhados de QR Codes que direcionam o leitor a conteúdos relacionados às histórias. “O livro mais recente chama-se A Vida Me Ensinou a Caminhar. São histórias da minha vida que acabam se conectando com o hip hop. São 27 contos e, no fim de cada capítulo, há um QR Code que leva o leitor a um conteúdo relacionado à história.”

Vinte anos de Falcão
Em 2026, o livro Falcão – Meninos do Tráfico, escrito por MV Bill em parceria com Celso Athayde, completa 20 anos. A obra narra a história de 17 adolescentes envolvidos com o tráfico em capitais brasileiras. Durante a produção do documentário homônimo, exibido pelo Fantástico, da TV Globo, 16 dos 17 jovens retratados morreram.
O trabalho ganhou repercussão nacional e levou MV Bill e Celso Athayde a apresentarem a obra ao então presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva. O rapper relembrou o impacto emocional da produção. “Fazer esse livro foi muito doloroso, porque é um livro de muito sofrimento. A gente saiu para contar histórias de vida e acabou encontrando um material sobre a morte. Mas essa escrita ajudou a pautar um pouco do pensamento no Brasil naquele período.”
Evolução da escrita
Ainda na infância, aos 8 anos, o futuro escritor ganhou o apelido de Bill, em referência a um rato que aparecia nas figurinhas de chiclete da Copa do Mundo de 1982. A sigla MV surgiu anos depois, em 1991, quando senhoras evangélicas da Cidade de Deus passaram a chamá-lo de Mensageiro da Verdade, em reconhecimento à forma como retrata a realidade das favelas por meio da arte.
Durante a entrevista, MV Bill também falou sobre a evolução da própria escrita desde o lançamento de Falcão – Meninos do Tráfico. “Hoje eu continuo com essa caneta pesada, mas também tenho espaço para uma caneta mais leve. Esse novo livro fala de conflitos sociais, mas também tem bom humor e momentos de sorriso.”
Música, literatura e atuação
Além da música e da literatura, MV Bill também construiu carreira como ator. Ele participou de produções como o filme Sonhos Roubados e interpretou o professor Antônio na temporada de 2010 da novela Malhação, exibida pela TV Globo.
A presença de artistas que transitam por diferentes linguagens é uma das marcas da Parada Poética. Em edições anteriores, o rapper Criolo fez um pocket show no evento, enquanto Gabriel o Pensador apresentou poemas e letras de sua autoria.
Antes da apresentação, MV Bill contou que precisou adaptar sua participação ao formato do sarau. “Quando o Renan me explicou como seria a Parada Poética, comecei a pensar no hotel o que faria. Acho que vou misturar declamação, música, histórias e falar sobre o livro.”
Cultura e palavra
O secretário de Cultura de Hortolândia, Regis Bueno, destacou a importância de receber um dos principais nomes do rap brasileiro. “O MV Bill é um dos percursores do rap nacional e um professor dentro do movimento hip hop. É a primeira vez dele em Hortolândia e estamos muito felizes em recebê-lo.”
Já o idealizador da Parada Poética, o rapper Renan Inquérito, afirmou que a presença do artista reforça a proposta do evento. “O primeiro disco do Bill se chama ‘Traficando informação’. O sarau faz exatamente isso, trafica informação e poesia. O MV Bill tem uma relação muito forte com a literatura, com a palavra e com a composição. Então faz todo sentido recebê-lo aqui.”





