Uma das escritoras contemporâneas de maior destaque no país, a cearense Socorro Acioli concedeu entrevista à TV TODODIA antes de participar de um bate-papo literário na unidade do Senac de Americana. Vencedora do Prêmio Jabuti em 2013, a autora vive um novo momento de projeção com a repercussão no programa MEC Livros, desenvolvido pelo Ministério da Educação do Governo Federal.
A plataforma digital, que disponibiliza cerca de 8 mil títulos para empréstimo gratuito, ultrapassou meio milhão de acessos em apenas duas semanas. Entre os destaques está o romance “A Cabeça do Santo”, que chegou a ocupar o topo entre os livros mais lidos, ficando atrás apenas de “Crime e Castigo”, de Fiódor Dostoiévski.

A entrevista foi gravada em uma área arborizada pelo paisagismo da unidade do Senac de Americana, ao lado da biblioteca da escola. Socorro Acioli vinha de uma sequência de palestras em diversas unidades da instituição, agenda que classificou de forma bem-humorada como “uma micareta de palestras sobre literatura”.
Antes de se posicionar para a entrevista, a escritora ainda filmou pessoalmente as plantas do espaço e perguntou se uma delas “é uma carnaúba? chama o pessoal do paisagismo”, em um momento descontraído antes da gravação.
Sucesso inesperado
Socorro afirmou que o desempenho no MEC Livros foi recebido com surpresa. “Foi uma surpresa. O MEC Livros apareceu de repente. Eu recebi uma consulta se autorizava, autorizei. Mas acho que ninguém esperava que fosse ter um impacto tão grande”, disse.
Segundo a autora, o acesso facilitado pelo celular ajudou a aproximar principalmente os jovens da leitura. “Chegar de repente na vida das pessoas, principalmente dos jovens, dentro do celular, que é onde os jovens estão, com uma biblioteca, foi muito forte.”
Ela também destacou a emoção ao perceber o surgimento de novos leitores a partir da iniciativa. “Eu nem esperava que fosse ficar em primeiro lugar e nem que eu fosse ficar tão orgulhosa de ver tanta gente falando que estava começando a ler por causa do MEC Livros.”
Leitura e protagonismo feminino
Outro tema abordado na conversa foi o protagonismo feminino no mercado editorial. Segundo a escritora, as mulheres são maioria entre leitores e compradores de livros no Brasil, o que tem impacto direto sobre a produção literária. “Eu passo o ano viajando pelo Brasil e, nas filas de autógrafos e nas plateias, é sempre a maioria de mulheres. Há muito tempo é assim. Mas entre os autores não era”, afirmou.
Para Socorro, esse cenário vem mudando nos últimos anos, com maior diversidade entre os escritores. “Hoje a gente tem muito mais mulheres e autores de diferentes regiões. É um movimento importante para fortalecer a literatura brasileira.”
A autora avalia que esse engajamento tem impulsionado não apenas a leitura, mas também o surgimento e a consolidação de novos nomes na literatura. “Acho que a gente nunca teve um momento em que se lessem tantos brasileiros e com tantos escritores ativos. E o movimento das mulheres pela leitura é fundamental para que isso aconteça.”
Redes sociais e novos leitores
A influência das redes sociais também foi destacada por Socorro Acioli como um fator positivo na formação de leitores, especialmente entre os mais jovens. “Eu sou muito otimista em relação a isso. Esse movimento de pessoas produzindo conteúdo sobre livros tem causado um impacto muito grande. Na minha experiência, eu vejo um crescimento de leitores por causa da internet”, afirmou.
Ela também ressaltou o papel de iniciativas coletivas nesse processo. “É uma força coletiva. Tem bibliotecários, clubes do livro, criadores de conteúdo. Isso tem permitido que escritores consigam viver de literatura hoje.”
Influência de García Márquez
A trajetória da escritora também foi marcada por experiências decisivas, como a participação na última oficina de escrita ministrada por Gabriel García Márquez. Segundo ela, o contato com o autor colombiano influenciou diretamente o processo criativo. “Eu aprendi a estruturar a história antes de escrever, a pensar os capítulos como cenas. Isso teve um impacto muito positivo na forma como o leitor recebe meus livros”, contou.
Entre os principais aprendizados, Socorro destacou a construção de narrativas que mantenham o interesse do leitor. “O mais importante é construir uma história que o leitor queira ficar até o fim, queira saber o que vai acontecer”, disse.
Reconhecimento e infância
Com mais de quatro décadas de carreira, a escritora afirma que o maior reconhecimento está no alcance das histórias que escreve. “Eu gosto quando escuto que foi o primeiro livro que a pessoa leu. Já ouvi relatos de famílias inteiras. Teve um caso de uma leitora de 103 anos que leu A Cabeça do Santo pela primeira vez e releu porque ficou apaixonada.”
Vencedora do Prêmio Jabuti com o livro infantil “Ela tem olhos de céu”, Socorro considera a conquista um divisor de águas na carreira. “É uma legitimação que coloca o autor em outro lugar. Foi uma virada importante para mim.”
Apesar do reconhecimento na literatura infantil, ela afirma que não descarta voltar ao gênero. “Tenho muita vontade de voltar”, disse.
Ao falar sobre a importância da leitura na infância, a autora defendeu que o contato com os livros vá além da obrigação. “A leitura não precisa ser só para ensinar algo. Também é para sonhar, para se divertir. A criança precisa encontrar nos livros o mesmo prazer que encontra em outras atividades.”
Para ela, a literatura ocupa um papel essencial na formação humana. “A literatura abre janelas para outras formas de ver o mundo. É algo muito maior do que a gente pode imaginar.”





