sábado, 22 agosto 2026
NEURODIVERSIDADE

Inclusão escolar: o direito que existe no papel e ainda tropeça na prática

Por Leco Soares, vereador de Americana e candidato a deputado federal
Por
Leco Soares
Brasil tem a Lei de Inclusão reconhecida como uma das legislações mais avançadas do mundo, aponta parlamentar. Foto: Divulgação

Semana passada eu visitei uma família aqui de Americana, e a conversa foi sobre a escola do filho dela, um menino autista de nove anos. Ela me contou que, na maioria dos dias, ele passa o recreio sozinho, encostado numa parede, porque o barulho do pátio lotado é demais pra ele processar de uma vez. Contou também que já teve colega chamando ele de esquisito, imitando o jeito dele de se mexer quando fica ansioso, rindo quando ele repete uma palavra várias vezes. E contou que já perdeu a conta de quantas vezes foi chamada pra buscar ele mais cedo, não porque ele tinha feito nada de errado, mas porque a escola não sabia mais o que fazer quando ele entrava em crise.

Ela falou isso olhando pro chão, com uma calma que doía mais do que se ela tivesse chorado. Porque por trás daquela calma tinha anos de aceitar, sem questionar muito, que aquele era o limite do que a escola conseguia oferecer.
Isso não é história de uma família só. É rotina de milhares de casas Brasil afora.

Matrícula não é a mesma coisa que inclusão. Uma criança pode estar com o nome na chamada, presente todos os dias, e mesmo assim passar o ano inteiro isolada dentro do próprio ambiente escolar. Sem colega que entenda seu jeito de brincar, sem professor preparado pra adaptar uma atividade, sem espaço pra se acalmar quando o mundo fica alto demais. Em muitos casos, sem proteção nenhuma contra o bullying que aparece justamente porque ninguém explicou pra turma inteira por que aquele coleguinha se comporta diferente. E o que isso causa na criança não é pequeno. É ansiedade que vai se acumulando desde cedo. É a sensação de que existe algo errado com ela, quando na verdade o que está errado é o ambiente que não soube se adaptar, nem proteger. É autoestima que despenca antes mesmo da infância acabar.

E na mãe, o que isso causa é uma culpa que ela não devia carregar sozinha. Toda vez que o telefone toca no meio do expediente, o coração dela já sabe: é a escola, de novo, pedindo pra buscar. Ela larga o que está fazendo, corre, e no caminho já vai pensando no que fez de errado, mesmo sabendo, no fundo, que não fez nada. Esse tipo de culpa corrói devagar, sem fazer barulho, e ninguém pergunta pra ela como ela está aguentando isso.

O Brasil tem a Lei Brasileira de Inclusão, reconhecida como uma das legislações mais avançadas do mundo nesse tema. No papel, toda criança autista tem direito a um Plano Educacional Individualizado, o PEI, tem direito a mediador escolar, a Atendimento Educacional Especializado no contraturno, a tempo adicional em prova. Eu conheço esses instrumentos de perto, porque foi estudando cada um deles, e comparando com o que eu via na prática, que entendi onde a engrenagem emperra. Muita escola exige laudo formal que a família não tem condição de tirar rápido. Outras recebem o laudo e não sabem, de fato, como transformar aquele documento em rotina de sala de aula. E o professor, na ponta de tudo isso, muitas vezes quer ajudar e não tem ferramenta nenhuma na mão pra isso, porque a própria formação dele deixou essa lacuna aberta.

Diante de um problema desse tamanho, eu não acredito em solução de efeito. Acredito em três frentes que, juntas, tiram essa lei do papel.

A primeira é formação obrigatória e continuada pra professor da rede pública sobre TEA e neurodesenvolvimento, não como palestra isolada uma vez por ano, mas como parte real da carreira docente.

A segunda é garantir, de verdade, mediador escolar pra toda criança que o laudo indicar, sem que isso dependa de sobra de verba no orçamento do mês, porque hoje é exatamente isso que acontece: a criança tem direito no papel, e fica na fila esperando o dinheiro aparecer.

A terceira é abrir um canal direto entre escola, família e equipe de saúde, pra que o Plano Educacional Individualizado deixe de ser papel arquivado numa gaveta da secretaria e vire, de fato, o roteiro que orienta o professor todos os dias.
E a quarta é trabalhar a turma inteira, não só a criança autista. Programa de conscientização em sala de aula, desde cedo, explicando pros colegas o que é neurodiversidade, evita boa parte do bullying antes dele nem começar. Criança que entende a diferença tende a acolher, não a rir.

Trouxe o Centro de Referência do Autismo pra Americana pensando exatamente nisso, em dar suporte clínico de verdade. Mas aprendi, ouvindo famílias como essa, que atendimento clínico sozinho não resolve se a escola continuar despreparada pra receber essa criança justamente nas horas em que ela passa a maior parte do dia.

Nenhuma criança devia aprender menos, ou se sentir sozinha no meio de uma sala cheia, só porque o sistema não soube se adaptar a ela. Esse direito já existe, escrito e sancionado. Falta ele parar de tropeçar todo santo dia na porta da sala de aula, e isso não se resolve com boa vontade. Se resolve com formação de verdade, com estrutura garantida por lei, e com gente disposta a cobrar isso até funcionar.

Cuidar também é incluir. E incluir de verdade começa exatamente aqui, garantindo que toda criança tenha, além do nome na chamada, um lugar de aprender e de pertencer de verdade.

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