
Há alguns dias, voltei a uma casa no Vila Amorim, em Americana. A mesma Maria, mãe do Bruno, que já me ensinou tanta coisa nesses anos. Dessa vez, a conversa não foi sobre o filho. Foi sobre o dia dela.
Ela contou a rotina quase sem perceber o tanto de coisas que enumerava: terapia de manhã, escola à tarde, retorno médico marcado para a semana seguinte e ainda a casa, o trabalho, tudo o que qualquer mãe já carrega no corpo e na cabeça durante o dia. Reparei em uma coisa enquanto ela falava. Em nenhum momento tratou Bruno como um peso. Falou dele com os olhos brilhando, com aquele orgulho que só uma mãe tem. O que faltava ali não era desabafo sobre o filho. Era alguém para dividir aquela lista enorme com ela.
Fiquei pensando nisso durante o caminho de volta para casa. A vida de qualquer mãe já exige muito. Pede jogo de cintura, organização e presença o tempo todo, sem manual de instruções. Quando o filho é atípico, essa lista cresce ainda mais: mais terapias, consultas e atenção a detalhes que outras famílias sequer imaginam existir. O que sobrecarrega não é o amor por esse filho. É a solidão de segurar sozinha uma rotina que deveria ser dividida.
Mães não querem apenas ser chamadas de guerreiras
Aprendi também, ouvindo mães como Maria, que elas não querem ser chamadas de guerreiras. Esse elogio, mesmo bem-intencionado, pode soar como se estivessem sozinhas em uma batalha que precisam vencer caladas, sem reclamar. O que elas realmente querem é mais simples de entender e mais difícil de garantir: rede. Querem gente para dividir tarefas, escuta e cuidado.
Sou pai, sou avô e sei o peso que até uma família com duas pessoas dividindo a rotina já sente na correria do dia a dia. Imagino, então, o que significa segurar tudo isso sozinha, sem apoio psicológico, sem um grupo de outras mães que vivem situações semelhantes e sem sequer um horário reservado para respirar.
Talvez esse seja o dom que a vida me deu: sentar e escutar essas histórias sem pressa, sem microfone, sem hora marcada para ir embora. E, cada vez que escuto, entendo mais o tamanho do trabalho que ainda precisa ser feito.
Atendimento mais próximo das famílias
Foi ouvindo tantas mães que trouxe para Americana o Centro de Referência do Autismo, para que o atendimento clínico chegasse mais perto, sem que as famílias precisassem percorrer outras cidades em busca de especialistas. Defendo também a moradia assistida para adultos autistas, pensando no futuro e garantindo que o cuidado continue mesmo quando os pais já não puderem mais oferecer esse suporte.
Mas quero ir além disso. Quero levar esse mesmo cuidado para mais pessoas, mais mães e mais cidades. Quero que a mãe atípica tenha apoio psicológico de verdade, grupo de convivência e política pública pensada especialmente para ela, não apenas para o filho. Outros estados já começaram esse caminho. O Rio de Janeiro criou um documento de reconhecimento oficial para a mãe atípica, garantindo prioridade em saúde, educação e assistência social.
Uma cidade que cuida direito olha para o filho e para a mãe juntos, sempre.
Penso na Maria toda vez que passo pelo Vila Amorim. E penso que o que ela merece não é nenhuma medalha de guerreira. É rede. É apoio. É gente disposta a segurar junto com ela.
Uma aldeia para cuidar
Existe um ditado antigo que diz que criar um filho precisa de uma aldeia inteira. Eu acredito nisso de verdade. E fico pensando no tanto de vidas que podemos mudar quando essa aldeia cresce, quando vira bairro, cidade, estado. Imagino se um dia essa aldeia fosse o Brasil inteiro, cuidando junto de cada mãe e de cada filho, sem ninguém precisar caminhar por essa estrada sozinho.
Cuidar também é incluir. E incluir é garantir que nenhuma mãe precise carregar sozinha o que deveria ser dividido com a cidade inteira e, um dia, quem sabe, com o país inteiro.





