sexta-feira, 26 junho 2026
GOLPES

‘Banco Master do interior’: entenda como fraude de R$ 225 mi atingiu empresa de Americana; principal alvo é de Sumaré e está foragido

Cidades como Santa Bárbara d'Oeste, Nova Odessa, Hortolândia e Limeira também abrigavam alvos da operação policial
Por
Airan Prada e Gabriela Lima
De acordo com a investigação, o grupo criou uma estrutura empresarial para emitir notas fiscais sem lastro comercial, duplicatas simuladas e títulos de crédito fraudulentos. Foto: Polícia Civil

A Polícia Civil comparou ao caso do Banco Master à estratégia utilizada por uma organização criminosa investigada por movimentar mais de R$ 225 milhões em um esquema de fraudes financeiras. A investigação começou após uma securitizadora de Americana denunciar que havia sido vítima de duplicatas simuladas. O principal investigado é um empresário de Sumaré, que também possui ligação com Campinas e não foi localizado durante a diligência realizada nesta sexta-feira (26).

A Operação Duplicata Fantasma foi deflagrada pelo Seccold (Setor Especializado de Combate aos Crimes de Corrupção, Crime Organizado e Lavagem de Dinheiro), vinculado à Deic (Divisão Especializada de Investigações Criminais) de Piracicaba. Cerca de 13 equipes policiais cumpriram 28 mandados de busca e apreensão.

As diligências ocorreram simultaneamente em Sumaré, Americana, Santa Bárbara d’Oeste, Nova Odessa, Hortolândia, Limeira, Santa Rita de Caldas (MG) e Andradas (MG), com apoio de unidades da Polícia Civil paulista e da Polícia Civil de Minas Gerais.

Segundo o delegado Ivan Luiz Constâncio, a investigação está em andamento há cerca de seis meses, embora os fatos investigados tenham começado há aproximadamente dois anos.

Como funcionava o golpe
De acordo com a investigação, o grupo criou uma estrutura empresarial para emitir notas fiscais sem lastro comercial, duplicatas simuladas e títulos de crédito fraudulentos. Esses documentos eram apresentados a securitizadoras e fundos de investimento para obtenção de antecipações de crédito.

Nos primeiros meses, os boletos eram pagos normalmente, transmitindo confiança ao mercado e levando as instituições financeiras a liberarem valores cada vez maiores. Foi justamente esse mecanismo que levou o delegado a comparar o esquema ao caso do Banco Master. “Com a força das aspas, como o caso hipoteticamente do Banco Master, foi gerando uma confiança do mercado. Foram realizando aportes financeiros e depois essa empresa literalmente desapareceu”, afirmou.

Segundo a Polícia Civil, após captar grandes volumes de recursos, a empresa encerrava suas atividades, abandonava os endereços e deixava prejuízos milionários às vítimas.

Durante diligências em Minas Gerais, os investigadores encontraram imóveis completamente vazios, sem funcionários, veículos ou qualquer estrutura de funcionamento.

Empresário de Sumaré seria o líder
Segundo a investigação, o principal articulador do esquema, um empresário de Sumaré, também possui endereço em Campinas. Ele foi alvo de buscas em seis imóveis, mas não foi localizado e segue sendo procurado.

A Polícia Civil afirma que o investigado montou uma espécie de “guarda-chuva empresarial”, controlando diversas empresas utilizadas para negociar os títulos fraudulentos. Para dificultar o rastreamento, as empresas tinham seus proprietários alterados constantemente, mantendo o mesmo CNPJ, mas mudando a razão social e os sócios registrados.

Empresas eram colocadas em nome de “laranjas”
As investigações apontam que a organização utilizava pessoas contratadas para emprestar os próprios nomes às empresas. Quatro delas admitiram, durante a operação, que recebiam pagamentos mensais para figurarem como sócias.

Segundo o delegado, em um dos casos o último proprietário formal de uma empresa era um usuário de crack. “O último dono no papel é um usuário de crack. É um ‘nóia’, com força das aspas. Não tem nem noção do que está acontecendo.” A Polícia Civil também apura a participação de empresários que podem ter servido como intermediários ou cedido empresas para o grupo.

Notas fiscais podem ter sido adulteradas
Outra frente da investigação busca confirmar se notas fiscais verdadeiras tiveram seus valores alterados para inflar artificialmente o faturamento das empresas. Segundo o delegado, operações legítimas poderiam ter sido utilizadas para criar documentos muito superiores ao valor originalmente negociado. “Às vezes ele fez uma venda de R$ 10 mil e colocava R$ 100 mil”, exemplificou.

Essa hipótese ainda será confrontada com clientes e empresas que aparecem como sacados nos títulos negociados.

Lavagem de dinheiro
Além das fraudes financeiras, a investigação identificou indícios de um sofisticado esquema de lavagem de dinheiro. De acordo com a Polícia Civil, os recursos obtidos com os golpes eram rapidamente pulverizados entre diversas contas bancárias para dificultar o rastreamento da origem do dinheiro.

Posteriormente, os valores retornavam à economia formal por meio da compra de imóveis com sobrepreço superior a 200%, aportes em planos de previdência privada e aquisição de veículos de luxo pagos à vista.

Relatórios do Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras) e análises de inteligência financeira auxiliaram na identificação da movimentação considerada atípica, que já ultrapassa R$ 225 milhões.

O que foi apreendido
Durante o cumprimento dos mandados, os policiais recolheram contratos, documentos, anotações contábeis, computadores, telefones celulares e outros dispositivos eletrônicos. Por determinação judicial, as equipes também iniciaram imediatamente a extração de dados dos equipamentos apreendidos, que passarão por perícia.

Além disso, três veículos de alto valor foram apreendidos com o objetivo de descapitalizar a organização criminosa e garantir eventual ressarcimento às vítimas.

Investigação continua
Segundo a Polícia Civil, a Operação Duplicata Fantasma representa apenas uma das fases da investigação.

Os materiais apreendidos serão submetidos à análise pericial e poderão identificar novos integrantes da organização, outras empresas utilizadas no esquema e novas vítimas.

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