Canetas emagrecedoras: a rota do mercado clandestino
Investigações identificaram esquema de venda irregular em três cidades da região; especialistas alertam para perigos do uso sem acompanhamento médico
A promessa de emagrecimento rápido tem impulsionado um mercado clandestino de medicamentos que preocupa autoridades e profissionais da saúde. Um levantamento da DIG (Delegacia de Investigações Gerais) de Americana apontou quatro ocorrências registradas entre março e junho deste ano envolvendo a apreensão de produtos terapêuticos irregulares destinados ao emagrecimento.
Ao todo, foram apreendidas 238 unidades entre canetas aplicadoras, frascos, ampolas e seringas contendo substâncias como tirzepatida e retatrutide. A Polícia Civil também recolheu mais de 600 seringas e agulhas, além de 200 unidades de álcool, indicando a existência de uma estrutura voltada à aplicação desses medicamentos.
Segundo o delegado da DIG de Americana, Lúcio Antônio Petrocelli, o principal risco está no uso de medicamentos sem origem conhecida ou armazenados de forma inadequada, situação que pode colocar a saúde dos consumidores em risco.
Esquema de distribuição
As investigações apontam que a comercialização dos medicamentos clandestinos ocorria em diferentes tipos de estabelecimentos, além de redes sociais e residências.
As ocorrências foram registradas em Americana, Santa Bárbara d’Oeste e Cosmópolis. Entre os locais investigados estão clínicas de estética, salões de beleza, lojas de suplementos, residências e até um sex shop.
Todos os casos resultaram em prisões em flagrante com enquadramento no artigo 273 do Código Penal, que trata da falsificação, adulteração ou comercialização de produtos terapêuticos sem registro ou de procedência ignorada.
O levantamento também mostra que apenas seis dos itens apreendidos eram canetas aplicadoras. As outras 232 unidades correspondiam a frascos, ampolas e seringas contendo substâncias utilizadas para emagrecimento.
A maior apreensão ocorreu em Santa Bárbara d’Oeste, onde foram localizados cerca de 95% de todo o material apreendido pela DIG. Na ocasião, dois homens, de 41 e 51 anos, foram autuados em flagrante por crime contra a saúde pública.
Segundo a Polícia Civil, o estabelecimento não possuía autorização de funcionamento nem as licenças exigidas pelos órgãos competentes.
Riscos à saúde
O doutor em Endocrinologia e Metabologia da USP (Universidade de São Paulo), Luciano Ricardo Giacáglia, alerta que medicamentos como a tirzepatida possuem indicações específicas e só devem ser utilizados com avaliação, prescrição e acompanhamento médico.
Segundo o especialista, produtos falsificados, adulterados ou armazenados de forma inadequada podem provocar infecções, reações alérgicas, alterações metabólicas e outras complicações graves. Em alguns casos, os efeitos podem surgir anos após a aplicação.
O endocrinologista também destaca que o uso indiscriminado dessas substâncias pode mascarar doenças, provocar efeitos colaterais importantes e colocar a vida dos pacientes em risco.
Investigações continuam
A DIG informou que as investigações prosseguem para identificar toda a cadeia de fornecimento dos medicamentos irregulares e responsabilizar os envolvidos.
Segundo o delegado Lúcio Antônio Petrocelli, a Polícia Civil atua em conjunto com órgãos fiscalizadores para combater a venda clandestina e retirar do mercado produtos sem procedência, protegendo os consumidores.
As autoridades reforçam que medicamentos devem ser adquiridos apenas em estabelecimentos regularizados e utilizados sob orientação médica.
Como denunciar
A comercialização irregular de medicamentos pode ser denunciada pelos seguintes canais:
- Disque 181, da Polícia Civil;
- Ouvidoria do SUS (Sistema Único de Saúde), pelo telefone 136;
- Plataforma Fala.BR.
As denúncias podem ser feitas de forma sigilosa.
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