segunda-feira, 13 abril 2026
OPERAÇÃO PERSECUTIO

Polícia Civil de SP prende suspeitos de ameaçar familia da adolescente Nicolly Pogere, assassinada em Hortolândia no ano passado

Mandados da Operação Persecutio foram cumpridos em São Paulo, Minas Gerais e Pará contra investigados por perseguição online à família de Nicolly Pogere
Por
Vagner Salustiano

Ao menos duas pessoas foram presas em São Paulo e Minas Gerais na segunda-feira (13) durante o cumprimento de mandados judiciais da Operação Persecutio, do Noad (Núcleo de Observação e Análise Digital) da SSP (Secretaria da Segurança Pública de São Paulo).

Os alvos da operação são integrantes de um grupo que promoveria ameaças e perseguição online, inclusive via publicações no TikTok, à família de Nicolly Pogere, adolescente de 15 anos morta a facadas e esquartejada por outros adolescentes em julho de 2025, em Hortolândia.

Pit Magrin (à esquerda) e sua filha Nicolly Pogere (à direita), morta a facadas ano passado. Foto: Reprodução/Acervo Pessoal

Segundo a investigação, os ataques ocorreram por meio de plataformas digitais, incluindo publicações no TikTok, e teriam se intensificado após a apreensão, no Paraná, de dois adolescentes suspeitos de participação no caso.

O então namorado de Nicolly, de 17 anos, e uma adolescente de 15 anos foram identificados e apreendidos pela DDM (Delegacia de Defesa da Mulher) de Hortolândia, em Cornélio Procópio (PR). Ambos teriam admitido à Polícia Civil envolvimento na morte da adolescente e respondem por ato infracional equivalente ao crime de feminicídio.

Operação interestadual
A operação desta segunda-feira foi deflagrada para investigar suspeitos de promover ataques virtuais contra familiares da vítima. Entre as pessoas ameaçadas está Priscila Magrin, mãe de Nicolly, que desde o crime passou a defender o endurecimento das penas para crimes cruéis, inclusive os cometidos por adolescentes entre 14 e 17 anos.

Batizada de “Lei Nicolly Pogere”, a proposta defendida por ela prevê maior controle sobre conteúdos de ódio na internet e a internação psiquiátrica em unidades de segurança máxima para criminosos com psicopatias comprovadas.

À TV TODODIA, Pit Magrin, como é conhecida, relatou que as ameaças começaram logo após a repercussão do feminicídio. “Hoje me sinto um pouco melhor com a notícia que eu recebi. Duas pessoas foram pegas, as quais me ameaçaram, ameaçaram minha família. Eu sofro essas ameaças desde o acontecido com a minha filha, porque os dois menores que tiraram a vida dela faziam parte desses grupos extremistas da internet, de panelas do Discord. Então, esse pessoal desse grupo, que fazia parte desses grupos aí, depois do ocorrido, começaram a fazer essas ameaças. Principalmente depois que eles (os adolescentes apreendidos) foram pegos; aí que tudo começou a piorar”, contou Pit.

Para a mãe de Nicolly, as prisões podem ter impacto na atuação desses grupos. “Exatamente, eles se planejam ali entre eles para justamente atacar as pessoas, fazer mal – enfim, é um horror ali o que acontece. Acredito muito no trabalho da equipe Noad, da delegada Liz, que sempre foram incríveis comigo. Acima de profissionais, foram superumanos, super me acolheram, me ajudaram em cada detalhe, em cada passo a passo. Então é um trabalho incrível, eu confio muito no trabalho deles. Acredito sim que vá diminuir, porque outros menores que fazem parte desses grupos podem ver isso como exemplo, que realmente a internet não é terra de ninguém, não é terra sem lei, que eu busquei fazer a minha parte, vou continuar fazendo a minha part. E que eles vejam isso como exemplo, que eles podem sim ser punidos e ser pegos”, completou.

Mandados em vários estados
Os mandados de busca e apreensão foram cumpridos nas cidades de Presidente Prudente, Bicas, Belo Horizonte, Ibirité, Juiz de Fora e Ananindeua (PA). Ao todo, oito investigados foram alvo da operação, entre eles cinco mulheres e três homens. Três dos alvos seriam adolescentes, com idades entre 13 e 17 anos.

As ordens judiciais foram solicitadas pela Delegacia Seccional de Casa Branca, vinculada ao Deinter-9 (Departamento de Polícia Judiciária do Interior 9), após o Noad identificar indícios da prática do crime de ameaça em plataformas digitais.

Operação prende suspeitos de ameaçar família de adolescente morta em Hortolândia. Foto: Polícia Civil

Familiares eram alvo de ataques
De acordo com o Noad, as ameaças foram direcionadas a dois familiares de Nicolly. Após a apreensão dos adolescentes suspeitos no Paraná, “os familiares da jovem passaram a ser alvo de reiteradas ameaças, além de manifestações de escárnio e deboche disseminadas em plataformas digitais, e-mails e redes sociais”, informou o núcleo.

Segundo a investigação, houve aumento tanto na frequência quanto na gravidade das condutas ao longo do tempo. Durante a Operação Persecutio, foram apreendidos computadores, celulares e mídias de armazenamento que devem auxiliar na identificação dos autores e no esclarecimento completo dos fatos.

Atuação do Noad
O Noad atua no combate a crimes virtuais contra crianças e adolescentes em plataformas digitais, incluindo casos de violência sexual, automutilação e instigação ao suicídio.

Em mais de um ano e quatro meses de atuação, a unidade informou ter contribuído para salvar 370 vítimas dos chamados predadores digitais. No mesmo período, foram registradas 348 apreensões de menores e 71 prisões.

Considerado uma iniciativa pioneira no país, o núcleo reúne policiais civis, militares e peritos especializados no monitoramento de redes. A estrutura usa observadores digitais, policiais infiltrados em comunidades online, para identificar crimes, mapear redes criminosas e localizar vítimas.

As informações levantadas são reunidas em relatórios de inteligência, que subsidiam inquéritos policiais e pedidos judiciais, como mandados de busca, prisões e internações. Além da investigação, o núcleo também atua na prevenção, acionando outros setores policiais em situações de risco iminente para priorizar o resgate das vítimas e a responsabilização dos envolvidos.

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