terça-feira, 8 setembro 2026

Multidão vai às ruas de Buenos Aires em defesa de Cristina Kirchner após atentado

Após atentado frustrado de brasileiro contra a vicepresidente argentina, população faz protesto na capital  

Atos que por semanas ocuparam ruas da Argentina em defesa da vice-presidente Cristina Kirchner tornaram-se nesta sexta-feira (2) uma mobilização que reúne milhares em Buenos Aires, nos arredores da Praça de Maio, em repúdio ao ataque que a peronista sofreu na véspera.

A maioria dos presentes defende a vice e já vinha se manifestando por acreditar que Cristina é alvo de perseguição judicial. Os atos desta sexta, porém, também reuniram argentinos que foram às ruas tendo como principal bandeira a crítica à violência política, escancarada no atentado à ex-presidente.
O decreto de Alberto Fernández, que transformou esta sexta em um feriado nacional em solidariedade a sua vice, também catalisou as manifestações ao favorecer o comparecimento em peso às mobilizações.

Segundo o jornal La Nación, todos os ministros do governo devem participar dos protestos. Não está claro, porém se o presidente -que vive uma disputa interna de poder com Cristina- se juntará a eles.

A manifestação principal acontece na emblemática Praça de Maio, onde desembarcaram centenas de pessoas durante a manhã, vindas de diferentes partes da capital, e para onde devem fluir as demais mobilizações espalhadas por Buenos Aires. A praça abriga não só dezenas de coletivos políticos, como também cidadãos independentes, que não pertencem a partidos ou organizações.

Palco do atentado, os arredores da casa de Cristina, no bairro da Recoleta, também foram ocupadas por seus apoiadores. Por volta das quatro da tarde, duas horas depois de o presidente Alberto Fernandez visitá-la, a política saiu de casa pela primeira vez desde a véspera. Cristina e o chefe de sua equipe de segurança entraram em um carro preto -antes do ataque, o veículo em que ela andava era branco.

Acompanhadas dos pais, crianças formam parte notável da concentração na Praça de Maio. As arquitetas de La Plata Eugenia Rodriguez Daneri, 34, e Licia Ríos, 47, por exemplo, vieram com os filhos de 12 e 6 anos.

“Viemos defender Cristina e a democracia”, diz Ríos. Daneri atribui a dirigentes de direita a promoção da retórica de violência política que, na sua opinião, está por trás do atentado.

Trazer as crianças, dizem as mães, é uma forma de introduzi-las na cultura nacional e permitir que criem memórias de participação política. Sentadas no gramado em frente à Casa Rosada, a sede do governo argentino, elas descansavam ao som de batuque aguardando o início dos demais atos.

FALHOU | Momento em que Montiel atira contra Cristina (Foto: Reprodução)

ATIRADOR | Está preso (Foto: Reprodução)

O pesquisador de ciências sociais e professor universitário Sérgio, 48, -que prefere não dizer o sobrenome- foi outro que esteve acompanhado do filho, Timotio, 8. Em um país com tradição de marchas nas ruas, esta é a primeira vez que o menino participa de uma.

Sérgio afirma que era inimaginável um atentado contra Cristina. “A Argentina sempre pode te surpreender. Mas a verdade é que isso era impensável. Nos encheu de medo. Mas o medo se combate marchando.”

Para ele, o ato dá fôlego à mobilização nas ruas, em parte desacelerada durante a pandemia de Covid. A região também estava repleta de ambulantes, que vendem comidas e bebidas e também aproveitam para comercializar itens com símbolos do país.

Maximiliano Policicchio, 42, carpinteiro e músico, relata que sempre comparece aos atos para apoiar o kirchnerismo e também para vender fotografias de figuras como os Perón, Diego Maradona e os próprios Kirchner. Há três horas na Praça de Maio, já havia vendido cerca de 20 imagens, cada uma a 400 pesos (cerca de R$ 8 no câmbio paralelo).

Eduardo Luna, 69, comerciante que também se identifica com o kirchnerismo, diz que a importância de participar de manifestações do tipo é “mostrar que o povo vai apoiar o sistema democrático, mesmo com todos os defeitos que pode ter, e repudiar a violência política”.

Se nas principais avenidas o movimento era intenso, com a interdição de parte da Avenida 9 de Julho a carros, as demais ruas da capital estavam com trânsito tranquilo e incomum para uma sexta-feira, após o governo decretar feriado nacional -o ato foi criticado por líderes da oposição, interpretado como uma atitude de oportunismo político.

As principais cidades do interior do país também organizaram eventos em apoio a Cristina.

Bolsonaro lamenta, cita facada e faz ironia com tiro 
O presidente e candidato à reeleição Jair Bolsonaro (PL) lamentou o ataque sofrido pela vice-presidente da Argentina, Cristina Kirchner. Em seguida, o presidente relembrou a facada da campanha de 2018 e ironizou tentativas de vinculá-lo ao episódio. “Já mandei uma notinha. Eu lamento. Agora: quando eu tomei a facada, teve gente que vibrou por aí. Lamento. Já teve gente que tentou colocar na minha conta já esse problema. O agressor ali, ainda bem que não sabia mexer com arma. Se soubesse, teria sucesso no intento”, disse. A nota citada pelo presidente, no entanto, não foi divulgada pelos canais de comunicação do Planalto até a publicação desta reportagem. O silêncio público de Bolsonaro, inclusive, foi alvo de críticas de um senador argentino. Ao site da CNN, o vice-presidente da República, Hamilton Mourão (PRTB), repudiou o ataque sofrido por Cristina Kirchner.

 Lula diz que ataque é alerta para violência no Brasil
O candidato a presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) afirmou nesta sexta-feira em São Luís (MA) que o ataque à vice-presidente da Argentina, Cristina Kirchner, serve como alerta frente ao avanço da violência política no Brasil. “O bom senso indica que nós devemos ficar alertas com o que pode acontecer no Brasil porque, pelo que vemos na imprensa, todo dia tem uma insinuação. E quem faz insinuação pode cumprir o que está prometendo”, afirmou o petista, destacando que telefonou para Cristina Kirchner para prestar solidariedade. Lula criticou o presidente Jair Bolsonaro (PL) e afirmou que o seu adversário não está habituado a conviver democraticamente. “Ele não esta habituado a ouvir nenhum segmento da sociedade, ele vai terminar o mandato dele e nunca se reuniu com sindicalistas, com indígenas, quilombolas, mulheres. Ele não se reúne com ninguém.”

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