Piracicaba vê verticalização crescer 187% e apartamentos já somam 24% das moradias
Estudo aponta que avanço dos edifícios residenciais responde à demanda por moradia e à adaptação dos condomínios a novos hábitos
Piracicaba está mudando a forma como seus moradores ocupam a cidade. O processo de verticalização, que durante décadas avançou de maneira mais lenta do que em outros municípios paulistas, ganhou força e já representa parcela significativa da moradia local. Dados apresentados pelo Eleva (Estudo Local de Edificações Verticais e Apartamentos), com base em dados do IBGE, apontam crescimento de 187% na verticalização entre 2010 e 2022.
Segundo os dados apresentados no estudo, 24% dos imóveis de Piracicaba eram apartamentos em 2022. Como o levantamento mais recente do com esse nível de detalhamento ainda é o Censo daquele ano, o número atual pode ser maior. A comparação mostra Piracicaba abaixo de cidades como Campinas, onde a verticalização chega a 31%, e Santos, com 67%.
Marcelo Prata, CEO da imobiliária Só Apê, responsável pelo levantamento, afirma que o crescimento não representa apenas uma mudança na paisagem urbana. “Também revela uma transformação no comportamento dos moradores; a moradia em apartamento é natural, principalmente quando você vai tendo a cidade crescendo e o adensamento sendo necessário acontecer nas cidades ou nos bairros mais próximos do centro, para depender menos do transporte urbano. Então é natural sim que a gente tenha mais piracicabanos indo morar em apartamentos.”
Um trauma na história
A explicação para o ritmo historicamente mais lento da verticalização em Piracicaba ainda não é definitiva. Marcelo aponta dois episódios que podem ter contribuído para esse comportamento: a tragédia do Comurba, em 1964, e o impacto da crise da Encol no mercado imobiliário nos anos 1990. Ele ressalta, porém, que não existem dados que comprovem relação direta entre esses acontecimentos e o ritmo da verticalização.
O Comurba, oficialmente Edifício Luiz de Queiroz, era um empreendimento de grande porte para a Piracicaba dos anos 1960. Localizado na Praça José Bonifácio, o prédio tinha uso misto, com apartamentos, comércio, serviços e cinema. Em 6 de novembro de 1964, parte da estrutura desabou durante a fase final da construção, provocando uma das maiores tragédias da história do município. Registros históricos apontam mais de 50 mortos.
O episódio deixou uma marca profunda na memória da cidade. O próprio material histórico produzido pelo município registra que o desabamento do Comurba retardou a verticalização do Centro de Piracicaba. Décadas depois, o assunto ainda é associado ao receio da população em relação aos edifícios e à construção vertical.
Já a crise da Encol, que atingiu o mercado imobiliário brasileiro nos anos 1990, produziu outro tipo de insegurança: a do comprador que adquiria um imóvel na planta e corria o risco de não receber a unidade. A falência da construtora provocou uma onda de empreendimentos inacabados e fez os consumidores se tornarem mais cautelosos na escolha de incorporadoras e construtoras.
Novo jeito de morar
Apesar desse passado, Piracicaba vive atualmente um processo consistente de verticalização. “O crescimento da população e a necessidade de adensamento urbano, especialmente em regiões mais próximas do Centro e de áreas com maior oferta de serviços, favorecem a ocupação vertical e podem reduzir a dependência de deslocamentos mais longos”, diz o especialista.
Mas o morador de 2026 não é necessariamente o mesmo para quem os condomínios foram projetados décadas atrás. A pandemia acelerou mudanças na rotina doméstica, especialmente com a expansão do trabalho remoto. Ao mesmo tempo, os animais de estimação passaram a ocupar um espaço cada vez mais importante na vida das famílias, e os veículos elétricos começam a exigir novas estruturas de carregamento.
A adaptação tende a ser ainda mais complexa nos edifícios antigos. Condomínios construídos em períodos em que as famílias tinham outros hábitos e necessidades precisam encontrar soluções para demandas que não estavam previstas no projeto original.
Um exemplo é a garagem. O Eleva aponta que 97,8% dos edifícios possuem vaga, mas prédios antigos podem ter limitações de espaço e, em muitos casos, apenas uma vaga por apartamento. A instalação de pontos de recarga para veículos elétricos, portanto, não depende apenas da vontade dos moradores: pode envolver infraestrutura elétrica, espaço físico, decisões condominiais e investimentos.
O mesmo raciocínio vale para áreas de convivência e trabalho. Criar espaços para home office ou para animais em edifícios existentes pode exigir adaptações estruturais e decisões coletivas. O desafio, segundo a lógica apresentada pelo estudo, é fazer com que a estrutura acompanhe a transformação do morador sem necessariamente exigir a substituição do edifício.
Adensamento e adaptação
O movimento mostra que a verticalização de Piracicaba não pode mais ser analisada apenas pela quantidade de prédios que surgem na paisagem. A cidade agora entra em uma nova etapa: entender como esses edifícios serão ocupados e de que maneira condomínios novos e antigos poderão responder às mudanças de comportamento.
O futuro da moradia piracicabana, portanto, passa por uma combinação entre crescimento urbano, adensamento e adaptação. A cidade que durante décadas carregou as marcas de um trauma associado à construção vertical agora vê os apartamentos ocuparem espaço crescente na preferência dos moradores. O desafio é fazer com que essa expansão venha acompanhada de edifícios capazes de atender ao jeito de viver de uma população que também está mudando.
Esta matéria foi útil para você?
Newsletter TODODIA
As mais lidas do dia, direto no seu e-mail. Grátis.
Veja também
Motorista fica preso às ferragens após bater em carros estacionados em Piracicaba
Ford Ka atingiu um Palio estacionado, que foi projetado contra uma EcoSport; vítima foi socorrida pelo Samu
Motociclista de 28 anos fica em estado gravíssimo após bater em carro em Piracicaba; veja o vídeo
Honda Pop 100 bateu contra a lateral de um Fiat Uno no cruzamento das ruas Doutor Jane Conceição e da Glória; vítima precisou ser intubada
Sebrae-SP oferece cursos gratuitos em Americana e Piracicaba
Programação de novembro e dezembro inclui capacitações em marketing digital, gestão financeira e divulgação de negócios; inscrições são feitas pela internet
