sábado, 16 maio 2026
ALEITAMENTO MATERNO - EP 1

Com estoques críticos, bancos de leite da região fazem apelo; Santa Casa Limeira atende apenas 30% da demanda

Primeiro episódio da reportagem especial destaca a importância da doação de leite materno
Por
Nathalia Tetzner

O aleitamento materno é muito mais do que um ato individual; é um compromisso coletivo com a saúde e o desenvolvimento das futuras gerações. Mas, na prática, manter esse ciclo funcionando exige um esforço constante das unidades de saúde, como acontece no banco de leite da Santa Casa de Limeira, em que logística é pensada para facilitar a rotina das mulheres.

“O processo de doação pode ser presencial: a mãe interessada comparece à Santa Casa, com entrada pela portaria de visitas, de onde é direcionada ao Banco de Leite. A doação também pode ser feita em domicílio. Nesse caso, fornecemos todos os materiais necessários para a coleta e o armazenamento, e passamos semanalmente para fazer a retirada do leite doado”, afirma a enfermeira Josiane Figueiredo de Lima.

Estoques críticos
Mesmo com essa facilidade no processo, a adesão ainda está longe do ideal para suprir a demanda da UTI neonatal. “Infelizmente, contamos com apenas 15 doadoras no momento, um número que não supre a necessidade da UTI Neonatal. Hoje, de cada dez bebês internados na Santa Casa, apenas três recebem leite humano devido ao baixo volume de doações”, destaca Lima.

19 de maio: Dia Mundial e Nacional de Doação de Leite Humano
No Brasil, o mês de maio ganha uma importância estratégica com o dia 19, dedicado a fortalecer essa rede de proteção. O objetivo é garantir que toda criança tenha acesso ao alimento mais completo que existe, unindo o apoio às mães com a solidariedade das doações. 

“A doação de leite humano traz benefícios vitais para bebês prematuros e de baixo peso internados em unidades neonatais. Com o leite materno, esses bebês têm maiores chances de sobrevivência, recuperam-se mais rápido e crescem de forma mais saudável, o que possibilita uma alta antecipada. Esse trabalho é respaldado pelo programa nacional do Ministério da Saúde de promoção e apoio à amamentação”, explica a assessora técnica da Coordenação-Geral de Atenção à Saúde das Crianças, Adolescentes e Jovens do Ministério da Saúde, Renara Guedes Araujo.

leite
O aleitamento materno é um compromisso com a saúde pública. Foto: Ana Machado/TV TODODIA

Ela reitera que a baixa procura não é uma dificuldade exclusiva de Limeira, já que a rede nacional enfrenta baixas que coincidem com o calendário escolar e as baixas temperaturas.

“Historicamente, em períodos de férias e feriados, os estoques baixam porque a rotina em casa dificulta a ida ao banco ou o tempo para a coleta. Mas os bebês nascem todos os dias e a taxa de prematuridade no Brasil é de 12%; são mais de 320 mil prematuros por ano. Situações extremas, como a crise climática no Rio Grande do Sul, mostram a importância dessa rede: foi preciso uma força-tarefa com a FAB e o Ministério da Saúde para garantir que o leite chegasse aos bebês quando as mães e os bancos estavam isolados”, recorda Araujo.

Campanha do Ministério da Saúde
“Doação de leite humano: Solidariedade que nutre, vida que cresce” é o slogan de 2026 para a campanha do Ministério da Saúde. Para além das palavras, essa mensagem se traduz em um recurso terapêutico essencial para reduzir as complicações dos bebês prematuros.

“O bebê que recebe leite humano pasteurizado progride muito mais rápido na dieta. Isso significa menos tempo de ventilação mecânica, menos uso de cateter e de nutrição parenteral, permitindo que ele saia da UTI precocemente. Quando oferecemos esse leite, estamos oferecendo saúde e combatendo diretamente a mortalidade neonatal, que hoje é uma das principais causas de mortalidade infantil no Brasil, muito associada à prematuridade”, detalha a coordenadora do banco de leite da Maternidade Leonor Mendes de Barros, Andrea Penha Spinola Fernandes.

Case de sucesso
O banco de leite fica localizado na zona leste da capital e é considerado a principal referência do estado. “O modelo brasileiro de Bancos de Leite Humano é um caso de sucesso mundial. Exportamos nossa tecnologia para países da América Latina, África e Europa. Um dos pilares desse sucesso foi a quebra de paradigmas: deixamos de ser apenas centros de distribuição de leite para nos tornarmos centros de apoio, proteção e incentivo ao aleitamento materno. Temos muito orgulho de ser essa referência”, enfatiza Fernandes.

Requisitos para doação
A enfermeira da Santa Casa de Limeira lista os requisitos para ser uma doadora. “Para ser doadora, a mãe precisa estar amamentando o próprio filho e observar se, após a mamada, sobra leite excedente. Ela deve ser saudável e não possuir doenças infectocontagiosas, como Sífilis, HIV ou HPV. Além disso, caso utilize algum medicamento, este deve ser compatível com a amamentação e a doação”, diz Josiane Figueiredo de Lima.

200ml de leite materno doado podem salvar vidas de recém-nascidos. Foto: Ana Machado/TV TODODIA

O acesso à informação é o primeiro passo para quem deseja contribuir com essa rede. O Ministério da Saúde disponibiliza canais oficiais e ferramentas digitais para localizar o banco de leite mais próximo, facilitando a ponte entre o desejo de doar e o bebê que aguarda o alimento.

“Para ser doadora, basta entrar em contato com o Banco de Leite Humano ou posto de coleta mais próximo. No site da Rede BLH (rblh.fiocruz.br), é possível encontrar todas as localizações. Após um cadastro inicial e avaliação da equipe de saúde, a doadora recebe orientações sobre coleta, armazenamento e transporte. Todo esse cuidado garante que o leite passe por um rigoroso controle de qualidade antes de chegar ao recém-nascido prematuro na unidade neonatal”, detalha Renara Guedes Araujo.

Esperança
Mais do que um compromisso com a saúde pública ou uma meta de estoques, a doação de leite humano é uma entrega de esperança. Às vezes, o que sobra em uma casa é exatamente o que falta para escrever um novo capítulo na vida de uma família.

“Nosso primeiro sentimento é de gratidão a cada doadora. Sabemos da rotina intensa de ter um bebê em casa e, ainda assim, essas mulheres atuam como ‘anjos da guarda’ ao reservarem um tempo para doar. Também agradecemos às mães de prematuros, que são verdadeiras guerreiras e, muitas vezes, tornam-se doadoras para outros bebês. Se você está com seu bebê em casa, amamente e saiba que você é uma doadora em potencial. Se puder tirar apenas 20ml por dia, em dez dias teremos 200ml. Esse pouco já muda a vida de muitos bebês”, conclui emocionada Andrea Penha Spinola Fernandes. 

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