sábado, 15 agosto 2026
LETALIDADE CHEGA A 87% EM 2026

Febre maculosa coloca região em alerta durante período de maior risco

Americana, Campinas e Piracicaba já registraram mortes pela doença em 2026; especialista reforça importância do diagnóstico e dos cuidados para evitar contato com carrapatos
Por
Emilly Ferreira

Americana, Campinas e Piracicaba já registraram mortes por febre maculosa em 2026. Até a última atualização do Ministério da Saúde, São Paulo tinha 1.869 casos suspeitos da doença. Desses, 16 foram confirmados e 14 pacientes morreram, o que representa uma taxa de letalidade de cerca de 87%.

Segundo o infectologista Dr. Arnaldo Gouveia, a região entra todos os anos em período de alerta entre o inverno e o início da primavera. Em 2025, 68 mortes por febre maculosa foram registradas no estado. “Nós estamos tendo anualmente casos de febre maculosa. Tem toda essa região aqui da Bacia do Rio Piracicaba, Jaguari, Rio Jundiaí, Rio Capivari. E às vezes numa cidade mais, noutra menos, mas todas as cidades têm tido casos anualmente nessa época do ano.”

Carrapato estrela transmite doença infecciosa. Foto: Divulgação

Sintomas podem ser confundidos
A febre maculosa é uma doença infecciosa transmitida pela picada de carrapatos infectados, principalmente o chamado carrapato-estrela. A doença pode evoluir rapidamente e, nos primeiros dias, os sintomas podem ser confundidos com os de outras infecções, como a dengue.

Febre alta, dor de cabeça, náuseas, vômitos e diarreia estão entre os sinais. As manchas vermelhas na pele, características da doença, podem aparecer somente alguns dias depois do início dos sintomas. “O que ajuda o médico a pensar na febre maculosa é o relato de ter se picado carrapato ou ter estado em área infestada por carrapato e a época do ano. É importante essa distinção porque os tratamentos são completamente diferentes e se você abordar uma dengue como maculosa ou maculosa como dengue, o resultado vai ser ruim”, explica o infectologista.

Na região, áreas com vegetação, margens de rios, pastos e locais próximos a matas podem oferecer maior risco de exposição aos carrapatos. O contato também pode ocorrer em situações cotidianas. “Tem alguns lugares que a gente sabe que tem, aqueles açudes, o Areião, todo ano tem caso e o pessoal continua indo lá. E também andar a cavalo. Você pode não ter ido ao pasto, mas se você tem cachorro, o cachorro vai no pasto, vai em beira de rio, nas matas ciliares e volta, ele pode levar o carrapato para dentro de casa.”

Como retirar o carrapato
Ao encontrar um carrapato preso ao corpo, a orientação é retirá-lo com cuidado e procurar atendimento médico caso surjam sintomas. Segundo Arnaldo Gouveia, os carrapatos em diferentes fases de desenvolvimento exigem atenção. “Quando é micuin, que é a fase larvar, às vezes não dá para tirar, porque eles são muito pequenos.

O carrapato adulto, ou vermelhinho, que é um pouco menor, mas é uma fase chamada de ninfa, você pode retirar, mas com cuidado, porque a transmissão da febre maculosa não é na hora que o carrapato te agarra em você e começa a picar, ele tem que regurgitar, se fartar de sangue, aí ele dá uma golfadinha de volta, aí ocorre a infecção. Isso demora uma hora, duas horas. Quando você tira o carrapato, se você esmagar, você está fazendo a golfadinha, você está se contaminando. Então, se recomenda usar, por exemplo, pinça de sobrancelha e vai com delicadeza, entra por baixo e vai dando um movimentinho lateral até você tirar o carrapato com a pinça.”

Cidades adotam medidas
Depois das mortes registradas na cidade, Americana anunciou medidas de controle nas áreas consideradas de risco. Entre as ações está a aplicação de Metarhizium, um fungo utilizado no controle biológico dos carrapatos. Também foram instaladas armadilhas para monitorar a presença e as diferentes fases de desenvolvimento desses animais.

Piracicaba também anunciou que o manejo populacional das capivaras que vivem no Parque da Rua do Porto deve ser iniciado em breve. A ação busca reduzir o número de animais que vivem no local.

Para o infectologista, a orientação da população e a sinalização das áreas de risco também são medidas importantes. “O papel da administração pública é, primeiro, a orientação, segundo, a sinalização. Aqui em Americana, se você olhar, por exemplo, aqui na Avenida Bandeirantes, tem vários lugares com aquela placa do cuidado, que tem carrapato.

E a população respeitar, porque eu sei que as pessoas que olham a placa, dão risada e seguem. Tem pior, tem gente que remove a placa. E depois a doença vai parar do hospital. A mortalidade, se você não faz o diagnóstico precoce, é alta, em torno de 30%. Você começar a tratar nos primeiros dias de sintoma, tranquilo. Mas depois que a doença se instalou, é bastante grave.”

Capivaras não são único fator
Apesar de serem frequentemente associadas à transmissão da febre maculosa, as capivaras não são, sozinhas, um sinal de que um local está contaminado. “A capivara não é o único reservatório, o gambá também pode ser, mas a capivara certamente tem um papel muito grande, que a vinda da capivara para a região urbana trouxe a febre maculosa junto com ela.

Então, você vê outras regiões, nessas regiões você tem capivara, mas não tem carrapato. Só onde tem o vermelhinho tem os dois, tem que ter a combinação. Se tiver o carrapato e não tiver a capivara, você não tem. Se tiver a capivara, você tem que ter os dois juntos.”

Para reduzir o risco de contato com carrapatos, a recomendação é evitar áreas de risco e, quando a presença nesses locais for necessária, usar roupas claras, que facilitam a visualização dos animais. Também é indicado colocar a calça por dentro da botina ou do calçado e fazer uma inspeção no corpo e nas roupas após sair dessas áreas.

O uso de repelentes pode ajudar, mas não substitui os outros cuidados. Em caso de febre ou outros sintomas depois de frequentar uma área de risco ou ter contato com carrapatos, é importante procurar atendimento médico e informar que houve essa exposição.

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