quarta-feira, 29 abril 2026
OPERAÇÃO CARRO FANTASMA

De investimentos com promessas de rendimentos elevados até financiamentos de carros fantasmas; entenda o esquema de fraudes que envolve três cidades

Ação apura fraudes financeiras, estelionato e lavagem de dinheiro em cidades como Piracicaba, São Pedro e Limeira
Por
Nicoly Maia

A Polícia Civil cumpriu 12 mandados de busca e apreensão na quarta-feira (29), durante a Operação Carro Fantasma, sendo seis em São Pedro, um em Brotas e cinco em Limeira. A ação investiga um possível esquema de fraudes financeiras, estelionato, lavagem de dinheiro e associação criminosa com atuação nas cidades de São Pedro, Piracicaba e Limeira.

O caso é conduzido pela Polícia Civil do Estado de São Paulo, por meio do DEINTER-9 e da DEIC (Divisão Especializada de Investigações Criminais), com medidas como quebra de sigilo bancário e fiscal, bloqueio de ativos e apreensão de dispositivos eletrônicos.

Delegado da Deic de Piracicaba Ivan Constancio. Foto: Ana Machado/TV TODODIA

Investigação começou após denúncia
As investigações apontam, em tese, a participação de pessoas físicas e jurídicas em operações financeiras incompatíveis com a capacidade econômica declarada, com uso de empresas, contas bancárias e financiamentos de veículos para movimentação e ocultação de valores.

Segundo o delegado Ivan Constancio, a apuração teve início após denúncia registrada em São Pedro. “O que observamos é que havia pessoas que faziam a captação dos interessados. A palavra vítima, pode soar forte, porque a gente não sabe até que ponto são participantes dessa pirâmide ou de fato as vítimas. Os participantes procuravam ou eram cooptados por outros participantes, assim funciona a pirâmide, um vai chamando o outro, prometendo um lucro maior que o de mercado, dinheiro fácil, por assim dizer.”

Esquema envolvia “carros fantasmas”
De acordo com o delegado, o esquema operava com financiamentos realizados por lojas de veículos, com valores direcionados a uma central em São Pedro, enquanto participantes cediam dados e assumiam parcelas.

O caso teve origem em diligências iniciadas em São Pedro e encaminhadas a Piracicaba, com base em relatos de vítimas e relatórios de inteligência financeira do COAF, que identificaram movimentações superiores a R$ 102 milhões.

Prejuízos
“Só que começou uma grande bola de neve, com o início dos não pagamentos, e algumas dessas pessoas que realizavam a intermediação do financiamento passaram a ser descredenciadas pelos bancos, em razão dessas divergências nos pagamentos”, afirmou o delegado.

Segundo as investigações, as revendas recebiam comissões pelas operações, enquanto participantes eram atraídos por promessas de lucro acima do mercado.

Vítimas eram atraídas por promessa de lucro
Ainda de acordo com a apuração, os envolvidos eram incentivados a realizar aportes via Pix e contratar financiamentos de veículos que não eram entregues. “Então esses valores eram fracionados em várias frentes e depois voltavam para as pessoas físicas também de forma fracionada, para tentar, de alguma forma, não chamar a atenção do Banco Central e de outros sistemas, como o COAF.”

Relato real
Segundo o advogado Lucas Felipe Menghetti Jambas, um cliente teve prejuízo de R$ 600 mil ao investir no esquema no início de 2025.

O cliente teve ganhos iniciais, mas foi posteriormente induzido a financiar veículos que não foram entregues, acumulando dívida superior a R$ 400 mil. “A investigada prometeu a liberação do financiamento e dos valores. Então, ela que fez toda a intermediação com o banco e ele somente enviou documentação, documentação de praxe, documentação pessoal. Então, o que nos surpreende é que ela conseguiu obter esse financiamento junto ao banco e, depois disso, o meu cliente passou a arcar com as parcelas. Inclusive, ele está com uma dívida acima de R$ 400 mil em parcelas que estão em aberto, que ele não conseguiu mais pagar. Só que o veículo ele nunca recebeu, nunca foi entregue. Ele ficou só com prejuízo, na verdade.”

Segundo o advogado, os veículos vinculados ao cliente estão registrados no Rio de Janeiro em nome de terceiros, mas circulam em São Paulo.

O cliente relatou que não teve acesso a documentos ou comprovantes das aplicações realizadas. “Era tudo de maneira bem informal, mediante Pix a uma pessoa jurídica vinculada à investigada, o que é comum hoje em dia em muitos golpes. Mas, nesse caso, como ele teve um retorno inicial, fazia um Pix num valor X, recebia um retorno em 30 dias num valor Y, ele acabou sendo seduzido, acabou confiando na pessoa e, daí para frente, passou a aportar cada vez mais, ao ponto de financiar os veículos.”

Segundo a investigação, os pagamentos deixaram de ser realizados e passaram a ser justificados por falta de recursos. “Ela sempre justificava que estava faltando dinheiro em caixa, que dependeria de mais capital de giro para poder fazer os pagamentos, sempre aquela conversa para tentar ganhar tempo efetivamente, mas pagamento mesmo, a partir de um certo momento, parou de efetuar os pagamentos dos supostos juros.”

Medidas judiciais e continuidade das investigações
A investigação segue sob sigilo, e novas informações devem ser divulgadas conforme o avanço das diligências.

Até o momento, não há um valor final consolidado de prejuízo. Segundo a Polícia Civil, a movimentação financeira pode chegar a R$ 170 milhões.

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