quarta-feira, 9 setembro 2026
OPERAÇÃO “ARCHIMAGUS”

Presidente da Câmara de Sumaré é apontado como ‘Mister M’ em investigação contra o tráfico de drogas

Coronel do CPI-9 afirma que Helio Silva seria o principal financiador do esquema e detalha prisões e apreensões da Operação Archimagus
Por
Vagner Salustiano
Presidente da Câmara foi preso de manhã, em casa, e não reagiu; dois suspeitos foram levados à Superintendência da PF. Foto: Câmara Municipal de Sumaré

Preso na manhã de quarta-feira (9) durante a Operação Conjunta “Archimagus”, que investiga tráfico de drogas e associação para o tráfico na região, o presidente da Câmara Municipal de Sumaré e candidato a deputado federal Helio Pereira da Silva, de 55 anos, foi apontado como o criminoso conhecido pelo apelido “Mister M”.

A informação foi confirmada pelo comandante do CPI-9 (Comando de Policiamento do Interior de Piracicaba), coronel Cleothéos Sabino de Souza Filho.

Segundo o comandante da Polícia Militar na região, Helio Silva tem “várias passagens na polícia” por crimes como porte de armas, homicídio, furto e receptação, além de “um histórico já criminal registrado na sua ficha”.

Presos foram levados para a Superintendência da PF
Helio Silva, comerciante do ramo de materiais de construção, foi localizado em seu endereço residencial, em um condomínio de Paulínia. Ele é suspeito de financiar o esquema de tráfico investigado na operação e de coordenar seu funcionamento.

De acordo com as investigações, o parlamentar utilizaria o veículo oficial da Câmara Municipal para passar pelos pontos de venda de drogas do grupo e suas empresas para “lavar” os recursos obtidos.

No endereço, foram apreendidas duas armas — uma pistola calibre 380 e uma carabina —, 105 munições, R$ 18.215,00 em dinheiro e dezenas de joias e outros itens de valor. A regularidade das armas ainda seria verificada pela PF (Polícia Federal).

À Justiça Eleitoral, Helio Silva declarou neste ano possuir patrimônio total de R$ 1.130.902,71.

Segundo suspeito seria “gerente” do esquema
Também foi preso pela força-tarefa da PF e da Polícia Militar de São Paulo Maikon Baptista da Costa, de 43 anos, suspeito de integrar o mesmo esquema criminoso.

Costa foi flagrado com 892g de maconha, localizada por Dexter, cão de faro do Baep, dentro de um guarda-roupas em sua residência. Ele seria responsável pelo abastecimento e pelo gerenciamento dos pontos de venda de entorpecentes.

Os dois foram levados para a Delegacia da PF em Campinas e depois transferidos para a Superintendência do órgão, em São Paulo. Eles devem permanecer presos temporariamente por pelo menos 30 dias.

Operação cumpriu mais dez mandados de busca
Além dos dois mandados de prisão temporária expedidos pela Justiça de Campinas, a Operação “Archimagus” cumpriu outros dez mandados de busca e apreensão em endereços de Campinas, Sumaré e Vinhedo, no Estado de São Paulo, e Jacutinga, em Minas Gerais.

Entre os locais vistoriados está um sítio de Helio Silva em Jacutinga (MG) que, segundo os elementos reunidos durante a investigação, pode ter sido utilizado para armazenar drogas.

Também são investigados Sivanir Alves, apontado como responsável pelo controle de acesso ao sítio e pelo “entreposto” na logística de distribuição dos entorpecentes movimentados pela quadrilha; Jurailton Rosa dos Santos, considerado um “possível elo financeiro” do esquema; e Cláudio Miguel da Costa, apontado como suposto operador e intermediário.

Quem participou da força-tarefa?
Foram mobilizadas equipes da PF (Polícia Federal), por meio da Ficco (Força Integrada de Combate ao Crime Organizado) Campinas, com apoio da Polícia Militar de São Paulo, por meio do 10º Baep (Batalhão de Ações Especiais de Polícia).

A operação também contou com a participação do Núcleo Campinas do Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado) do MP-SP (Ministério Público de São Paulo), do COT (Comando de Operações Táticas), do GPI (Grupo de Pronta Intervenção) e do 1º Baep.

Entenda como funcionava o esquema de tráfico
Segundo as investigações da Polícia Civil e do Gaeco, existem “indícios de uma estrutura voltada ao financiamento da compra de entorpecentes, ao armazenamento e à distribuição das drogas e à comercialização em pontos de tráfico na região de Sumaré”.

Também são apuradas a possível utilização de imóveis e de pessoas jurídicas na dinâmica criminosa investigada. Entre os alvos das medidas judiciais está o sítio em Jacutinga (MG), apontado como possível local de guarda de entorpecentes.

Coronel Cleothéos Sabino confirmou a alcunha atribuída a Helio Silva. Foto: TV TODODIA

Coronel detalha investigação
Em entrevista concedida no fim da manhã, na sede do CPI-9, em Piracicaba, o coronel Cleothéos Sabino detalhou o funcionamento do esquema e o suposto papel de Helio Silva no tráfico. “Essa operação visava atingir uma organização criminosa que atuava na região de Sumaré, principalmente, no tráfico de drogas. (…) Essa investigação tem alguns meses já e identificou toda a logística e a cadeia de tráfico de drogas que acontecia em Sumaré, com o entreposto na cidade de Jacutinga, em Minas Gerais.”

Segundo o coronel, “as prisões aconteceram naturalmente”, sem resistência. “Nós cumprimos dois mandados de prisão temporários, de 30 dias em princípio, e mais 10 mandatos de busca e apreensão para a coleta de provas e documentos eletrônicos vinculados a essa atividade”.

Apelido surgiu em conversas interceptadas
Cleothéos Sabino confirmou que Helio Silva é o “Mister M” e detalhou a ficha criminal atribuída ao vereador.

“O combate ao crime organizado não pode se restringir à atividade fim do crime, que é a venda de entorpecentes. Então nós temos que atuar tanto na cadeia logística, financeira, e nas cabeças das principais lideranças. Então, no caso dessa organização criminosa, ela era liderada pelo vulgo ‘Mister M’, assim que ele é conhecido na região. Aliás, um indivíduo com várias passagens na polícia por porte de armas, homicídio, receptação, (que) atuava lá como presidente da Câmara recentemente, e também candidato a deputado. E ele era tido, nas investigações, como o principal articulador e financiador do tráfico, ou seja, aquela pessoa que patrocinava, comprava entorpecente e trazia para São Paulo para ser vendido.”

O coronel também explicou o papel atribuído a cada investigado no suposto esquema. “Bom, este núcleo que nós identificamos, ele (Helio Silva) funcionava como o principal financiador. Identificamos um outro indivíduo, de nome Maikon, que seria o gerente de todos os pontos de tráfego de Sumaré. Ele fazia todo o contato com o ‘Mister M’ e também a distribuição dessa droga. E também uma terceira pessoa, que seria o indivíduo que ficava no sítio, na guarda dessa droga, até que ela pudesse ser transportada aqui para o Estado de São Paulo.”

O coronel não soube informar a origem do apelido atribuído ao vereador de Sumaré, que apareceu várias vezes durante a investigação. “Em Paulínia foi o cumprimento de prisão do ‘Mister M’. (…) Bom, esses apelidos do crime organizado, eles acabam aparecendo em conversas de interceptação, ou entre eles mesmos, a real origem do apelido nós não sabemos. Mas o fato é que há muitos anos ele é conhecido na região com esse apelido.”

Recursos do tráfico podem ter financiado campanhas
Segundo o coronel da Polícia Militar, não está descartado que Helio Silva tenha utilizado recursos oriundos do tráfico em campanhas eleitorais. Ele já foi eleito vereador três vezes em Sumaré, obteve 1.916 votos em 2024 e concorre neste ano a deputado federal pelo Cidadania.

“Bom, se for comprovado pelas investigações agora que realmente ele atuava no tráfego entorpecentes e gerava receita com isso, há que se analisar agora as contas bancárias, financeiras das suas empresas e pessoais, para ver se se comprova essa lavagem de dinheiro do tráfego nas suas empresas e, consequentemente, o financiamento de campanha.”

Segundo o comandante, todo o material apreendido será periciado pela Polícia Federal para esclarecer os crimes e identificar outros integrantes do esquema.

“Bom, foram apreendidas duas armas de fogo, estamos avaliando ainda se há procedência, se são realmente regularizadas ou não. Uma boa quantidade de dinheiro em espécie que estava no cofre, uns 18 mil reais mais ou menos em espécie, além de joias, correntes de ouro, pulseiras, documentos de vários setores, comprovantes bancários, ações judiciais que estavam impressas ali, inclusive de homicídio. Tudo isso vai ser avaliado pela Polícia Federal, além de celulares, pen drives, computadores.”

Armas, dinheiro e joias foram apreendidos em endereços ligados a Helio Silva e aos demais investigados. Fotos: Polícia Federal

Empresas podem ter sido usadas para “lavar” dinheiro
Também não está descartada, segundo o coronel, a possibilidade de as empresas em nome de Helio Silva terem sido utilizadas para “lavar” recursos do tráfico.

“Como eu disse, as investigações estão com a Polícia Federal, agora eles vão avaliar toda a movimentação financeira das duas empresas que estão no nome dele, para ver se são compatíveis com o comércio ou se é simplesmente lavagem de dinheiro. (…) Em princípio, nós identificamos cinco alvos que estão sendo agora, nesse momento, investigados, e não impede que durante as apurações venham a ter novas pessoas envolvidas nessa cadeia logística de distribuição e venda de drogas.”

Por fim, o comandante do CPI-9 reforçou que Helio Silva é o “Mister M” e repetiu informações sobre a ficha criminal atribuída a ele. “O que consta em ficha criminal, consta o artigo 121 (homicídio), 180 (receptação), 155 (furto). Então tem um histórico já criminal registrado na sua ficha.”

Câmara invoca “presunção de inocência”
Em nota emitida horas depois da prisão do presidente, a Câmara Municipal de Sumaré afirmou que os fatos divulgados na quarta-feira (09) “dizem respeito a uma investigação de caráter pessoal envolvendo o vereador e presidente Helio Silva”.

O órgão também declarou que, “até o momento, não há qualquer informação que relacione o caso às atividades institucionais do Poder Legislativo”.

Segundo a nota, “a defesa jurídica pessoal do vereador está realizando o levantamento das informações e dos fatos relacionados à investigação, para que os esclarecimentos necessários sejam apresentados no momento adequado”. A Câmara não informou quem são os advogados de defesa de Helio Silva.

Por fim, a Câmara “reforçou seu compromisso com a transparência e legalidade” e ressaltou que o vereador, “assim como qualquer cidadão, está amparado pelo princípio constitucional da presunção de inocência”.

As defesas dos demais citados não foram procuradas ao longo da quarta-feira e não foram localizadas. O espaço permanece aberto para manifestações.

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