sexta-feira, 12 junho 2026
SAÚDE MENTAL

Passeata em Piracicaba reforça luta antimanicomial e defesa do cuidado humanizado

Manifestação reuniu usuários, profissionais e movimentos sociais em defesa da saúde mental com inclusão e liberdade
Por
Paulo Carlim

Uma passeata antimanicomial reuniu, nesta sexta-feira (29), em Piracicaba, usuários da rede de saúde mental, profissionais, estudantes, familiares e representantes de movimentos sociais em defesa do cuidado humanizado às pessoas com sofrimento psíquico. O ato percorreu ruas centrais da cidade com mensagens de inclusão, liberdade e combate ao preconceito, dentro das mobilizações do mês da Luta Antimanicomial, celebrado nacionalmente em maio.

A mobilização foi marcada por música, palavras de ordem e relatos emocionados, com participantes destacando a importância da continuidade da luta por direitos e pelo fortalecimento de políticas públicas voltadas à saúde mental.

Durante a passeata, participantes relataram experiências de preconceito e dificuldades de inclusão, enquanto profissionais destacaram avanços no atendimento, considerado mais ético e centrado na dignidade da pessoa.

Histórico de exclusão e mudanças no cuidado
Durante décadas, pessoas diagnosticadas com transtornos mentais, além de dependentes químicos e indivíduos em situação de vulnerabilidade social, eram afastadas do convívio social e internadas por tempo indeterminado em hospitais psiquiátricos. Em muitos casos, o isolamento resultava na perda de autonomia, rompimento de vínculos familiares e tratamentos marcados por violência física e psicológica.

A luta antimanicomial no Brasil ganhou força entre as décadas de 1970 e 1980, inspirada por movimentos internacionais e impulsionada por profissionais da saúde, intelectuais e familiares. O principal marco foi a Lei da Reforma Psiquiátrica, sancionada em 2001, que estabeleceu novos parâmetros de atendimento, priorizando o cuidado comunitário e reduzindo internações prolongadas.

Os muros dos antigos manicômios
Entre os principais símbolos do modelo manicomial está o Hospital do Juquery, em Franco da Rocha, que chegou a abrigar milhares de pacientes em condições frequentemente associadas à superlotação e maus-tratos. Muitos internos permaneciam por anos sem perspectiva de retorno à sociedade.

Outro exemplo é o Hospital Pinel, na capital paulista, que, apesar de períodos de referência médica, também operou dentro da lógica de isolamento institucional, tratando a internação prolongada como solução padrão.

Em Piracicaba, o antigo Hospital Psiquiátrico Cesário Motta integrou esse cenário. A unidade recebeu pacientes da cidade e de municípios vizinhos por muitos anos, dentro de um modelo baseado no confinamento e com poucas alternativas terapêuticas fora da internação.

Avanço do cuidado em liberdade
Com a reforma psiquiátrica, o modelo de atendimento passou a priorizar o cuidado em liberdade. A proposta defende que pessoas com sofrimento mental sejam acompanhadas próximas de suas famílias e inseridas na comunidade, com abordagem que considera aspectos sociais e afetivos.

Nesse contexto, os CAPS (Centros de Atenção Psicossocial) assumiram papel central. As unidades oferecem atendimento multidisciplinar, com foco na autonomia, no fortalecimento de vínculos e na reinserção social dos pacientes.

Durante a passeata, participantes relataram experiências de preconceito e dificuldades de inclusão, enquanto profissionais destacaram avanços no atendimento, considerado mais ético e centrado na dignidade da pessoa.

Memória e mobilização permanente
A manifestação também teve caráter educativo, com cartazes e falas que reforçaram a importância de preservar a memória sobre os antigos manicômios para evitar a repetição de práticas de exclusão. Locais como Juquery, Pinel e o Cesário Motta foram citados como exemplos históricos desse modelo.

O ato foi encerrado com atividades culturais, rodas de conversa e apresentações artísticas no centro da cidade. A mobilização destacou a necessidade de manter e ampliar o cuidado humanizado, com foco no acolhimento, na escuta e na convivência social.

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