
Piracicaba é o município brasileiro mais afetado pelo novo pacote de tarifas imposto pelo governo do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, sobre produtos do Brasil, segundo levantamento realizado pelo jornalista Daniel Weterman e publicado pelo Estadão neste domingo (26). A posição da cidade está relacionada principalmente às exportações de máquinas e equipamentos destinados às indústrias agrícola e automotiva norte-americanas, além de produtos químicos orgânicos, papel e etanol. O impacto à cidade pode chegar a US$ 1,19 bilhão.
Os dados utilizam informações do MDIC (Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços) e da Amcham Brasil (Câmara Americana de Comércio para o Brasil) e consideram os dez grupos de produtos mais atingidos pelas duas novas medidas, tomando como referência as exportações realizadas em 2024, antes da atual escalada tarifária.
A classificação não significa que Piracicaba perderá automaticamente o valor dessas vendas. As sobretaxas tornam os produtos brasileiros mais caros na entrada no mercado norte-americano, o que pode reduzir a competitividade, pressionar as margens das empresas e levar compradores a buscar fornecedores de outros países.
Como funciona o novo tarifaço
Os Estados Unidos adotaram duas medidas com base na Seção 301 da legislação comercial norte-americana. A primeira estabeleceu uma tarifa adicional de 25% para determinados produtos brasileiros e entrou em vigor em 22 de julho. A segunda, anunciada na sexta-feira (24), impôs 12,5% sobre mercadorias atingidas por uma investigação relacionada às políticas de prevenção e combate ao trabalho forçado nas cadeias globais de suprimentos.
Quando uma mercadoria está incluída nas duas medidas, as alíquotas são acumuladas e chegam a 37,5%. É o caso de diferentes tipos de máquinas e equipamentos, segmento de peso na indústria de Piracicaba.
A investigação que resultou nos 25% é específica sobre o Brasil e analisou práticas consideradas pelos Estados Unidos prejudiciais aos interesses comerciais norte-americanos, como o Pix. Já a relacionada ao trabalho forçado alcança os 60 maiores parceiros comerciais do país. O Brasil integra o grupo de 41 economias submetidas à alíquota de 12,5%.
A segunda medida substituiu uma tarifa temporária de 10% que vigorava desde fevereiro e expirou em 24 de julho.
Indústria de Piracicaba fica exposta
A presença de Piracicaba no topo do levantamento está diretamente ligada ao perfil industrial e exportador do município. Além das companhias que comercializam seus produtos diretamente com os Estados Unidos, há uma cadeia de fornecedores de peças, máquinas, equipamentos, tecnologia e serviços que pode sentir os reflexos de uma eventual retração das encomendas.
Ao Estadão, o presidente do Simespi (Sindicato Patronal das Indústrias do Setor Metalmecânico de Piracicaba, Saltinho e Rio das Pedras), Paulo Estevam Camargo, destacou que uma redução da competitividade do etanol brasileiro ou dos investimentos no segmento também repercute sobre a indústria metalmecânica responsável por abastecer a cadeia sucroenergética.

Segundo a entidade, cerca de 50 empresas de Piracicaba e região são diretamente afetadas pelo cenário, reunindo aproximadamente 10 mil trabalhadores.
O representante do setor também demonstrou preocupação com uma possível escalada comercial caso Brasil e Estados Unidos adotem novas medidas de retaliação. Para a indústria, esse movimento pode elevar custos e aumentar a insegurança para empresas que dependem do comércio internacional.
Quanto do Brasil foi atingido
Apesar da forte exposição de determinados polos industriais, as duas novas medidas somadas alcançam 23,1% das exportações brasileiras destinadas aos Estados Unidos, segundo o MDIC.
A maior parcela atingida, equivalente a 16,5% de tudo o que o Brasil vendeu aos norte-americanos em 2024, está submetida simultaneamente às duas tarifas. São US$ 6,6 bilhões em mercadorias sujeitas à sobretaxa acumulada de 37,5%, entre elas máquinas e equipamentos, diferentes tipos de madeira, gorduras e óleos, calçados, móveis e confecções.
Outros 4,7%, ou US$ 1,9 bilhão, estão sujeitos apenas aos 12,5%, enquanto 1,9%, correspondente a US$ 800 milhões, enfrenta exclusivamente a cobrança adicional de 25%.
Por outro lado, 52,7% das exportações, equivalentes a US$ 21,3 bilhões, permanecem fora tanto das novas sobretaxas quanto das tarifas setoriais previstas na Seção 232. Estão nesse grupo café, carnes, aeronaves, suco de laranja, frutas, ferro fundido, diversos produtos químicos e a maior parte da celulose.
Há ainda 24,2% das vendas, ou US$ 9,8 bilhões, submetidos às tarifas específicas da Seção 232. Esse mecanismo é utilizado pelos Estados Unidos para impor restrições a determinados setores sob a justificativa de segurança nacional e alcança, entre outros, produtos de aço e alumínio. Nesses casos, não há acúmulo com as novas cobranças da Seção 301.
Comércio entre Brasil e EUA perde força
O endurecimento da política tarifária ocorre em um momento de retração das relações comerciais entre os dois países.
Depois de atingir o recorde de US$ 40,4 bilhões em 2024, o valor das exportações brasileiras aos Estados Unidos caiu para US$ 37,7 bilhões em 2025.
A tendência continuou neste ano. No primeiro semestre de 2026, as vendas somaram US$ 17,4 bilhões, redução de 13% em relação ao mesmo período do ano passado. Entre os principais recuos estão os embarques de petróleo bruto, com queda de 30,4%, e de produtos semiacabados, lingotes e outras formas primárias de ferro ou aço, que diminuíram 21,7%.
Com isso, a participação dos Estados Unidos nas exportações brasileiras passou de 12,1% no primeiro semestre de 2025 para 9,4% no mesmo período deste ano.
Piracicaba volta ao centro do tarifaço
Não é a primeira vez que a economia piracicabana aparece entre as mais expostas à política comercial norte-americana. O município já havia sido apontado como o mais atingido pelo tarifaço de 50% adotado em 2025 e posteriormente derrubado pela Justiça dos Estados Unidos.
Agora, a combinação das novas medidas volta a atingir segmentos relevantes da economia local e amplia a preocupação de empresas que mantêm negócios com o mercado norte-americano.
O governo brasileiro considera as novas cobranças injustificáveis do ponto de vista técnico e discute uma reação por meio da Lei da Reciprocidade. Representantes do setor empresarial, porém, têm defendido cautela para evitar uma escalada de retaliações.
Ao Estadão, o presidente da Amcham Brasil, Abrão Neto, defendeu a retomada das negociações entre os dois governos como caminho para tentar reverter o cenário.
Para Piracicaba, os próximos efeitos dependerão principalmente da reação dos compradores norte-americanos ao encarecimento das mercadorias e da capacidade das empresas locais de absorver parte dos custos, renegociar contratos ou buscar outros mercados.
*Com informações do Estadão e da Agência Brasil





