O Pesquisador do Instituto de Biologia da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), José Luiz Proença Modena, participou de um estudo que analisa como o surto de Oropouche no Norte do Brasil pode impactar centros urbanos e as divisas com as áreas de matas. Além de pesquisadores da Unicamp, também participaram do estudo pesquisadores da USP (Universidade de São Paulo), da University of Kentucky e da Fundação Hospitalar de Hematologia e Hemoterapia do Amazonas.
A doença é transmitida aos humanos pela picada dos maruins (Culicoides paraensis), pequenos insetos do gênero Culicoides, conhecidos popularmente como “porvinha”. Em Campinas foram registradas a presença de potenciais vetores nos distritos de Sousas e Barão Geraldo.

Apesar disso, o pesquisador destaca que não há registros de transmissão da doença na região. “Ainda não temos indícios efetivos de transmissão do Oropouche aqui na região. Os casos registrados até agora são importados, de pessoas que se infectaram em outras regiões do país”, explica.
Sintomas são parecidos com dengue e chikungunya
Segundo os pesquisadores, a febre Oropouche apresenta sintomas semelhantes aos da dengue, zika e chikungunya, arboviroses já predominantes na região de cobertura da TV TODODIA, o que pode dificultar o diagnóstico correto. “Isso pode levar à subnotificação da doença. Em períodos de alta circulação de dengue, muitos pacientes recebem diagnóstico apenas pelo critério clínico e epidemiológico. Com isso, doenças menos prevalentes, como o Oropouche, podem passar despercebidas”, explicou o pesquisador.
O especialista também alertou para possíveis complicações raras associadas ao vírus, principalmente neurológicas e gestacionais. “O vírus pode atingir o sistema nervoso central. Já foram registrados casos associados à síndrome de Guillain-Barré, além de complicações na gestação, como aborto, alterações no crescimento fetal e microcefalia”, afirmou.
Atualmente, segundo o pesquisador, cerca de 10% das amostras negativas para dengue, zika e chikungunya acabam sendo identificadas como Oropouche ou Mayaro, outro vírus endêmico no Brasil.
Como acontece a transmissão
Diferente do mosquito da dengue, os mosquitos maruins, responsáveis por transmitir o vírus Oropouche pela picada, não possuem aparelho sugador. O inseto pousa sobre a pele, libera uma secreção que provoca uma pequena lesão e, em seguida, se alimenta do sangue na região afetada. A picada costuma causar vermelhidão intensa e coceira. Outras moscas hematófagas, como o borrachudo, também apresentam comportamento semelhante.
No Norte do Brasil, o principal vetor identificado é o Culicoides paraensis, mas pesquisadores alertam que outras espécies espalhadas pelo país também podem ter potencial de transmissão.
Condições ambientais favorecem propagação
A transmissão do Oropouche depende de condições ambientais específicas. O vetor se desenvolve em locais com solo úmido e matéria orgânica, comuns em regiões de mata e áreas agrícolas.
Plantações como banana, café e mandioca ajudam a manter a umidade do solo, criando ambientes ideais para a reprodução do inseto. Por isso, a transmissão costuma ocorrer em áreas periurbanas, nas bordas das cidades.
Surto em Manaus
Entre 2024 e 2025, um grande surto da doença foi registrado em Manaus. Segundo os pesquisadores, a partir desse episódio o vírus passou a se espalhar para outras regiões do Brasil, incluindo Espírito Santo, Minas Gerais e o litoral norte de São Paulo.
A doença passou a ser detectada em todos os estados brasileiros, o que chamou a atenção das autoridades sanitárias e da Organização Mundial da Saúde.
Estudo analisa impacto da BR-319
A pesquisa que teve estudo na Amazonas investiga os impactos da BR-319, rodovia que liga Manaus a Porto Velho e possui grande parte do trecho sem pavimentação.
Segundo Modena, o objetivo é entender como as mudanças na estrada podem influenciar a dinâmica de transmissão do vírus na Amazônia e em outras regiões do país. “Nós vimos isso como uma oportunidade para entender como a melhoria da estrada pode impactar a transmissão de vírus dentro e fora da Amazônia”, explicou.
Os pesquisadores avaliam que o asfaltamento pode aumentar a ocupação humana em áreas próximas à floresta, ampliando o chamado “efeito de borda”, região de contato entre áreas urbanizadas e ambientes silvestres.
Circulação silenciosa
A análise de amostras sanguíneas de moradores da região indicou que o vírus provavelmente começou a circular no sul do Amazonas ou no norte de Rondônia antes de chegar a Manaus. Segundo os pesquisadores, houve inicialmente uma circulação silenciosa da doença, até o aumento expressivo de casos chamar a atenção das autoridades de saúde. “Quando o vírus chega a Manaus, ele encontra uma região altamente conectada, com aeroporto e intenso fluxo de pessoas. Isso facilita a disseminação para outras partes do Brasil”, afirmou o pesquisador.
Como se proteger
Os pesquisadores alertam que telas convencionais e mosquiteiros podem não ser totalmente eficazes contra o transmissor do Oropouche, devido ao tamanho reduzido do inseto. Entre as alternativas estudadas estão o uso de repelentes, incensos e medidas adaptadas à realidade de cada comunidade.
Segundo os especialistas, projetos de pesquisa e extensão têm buscado soluções acessíveis para reduzir a exposição ao vetor e melhorar as condições de prevenção em regiões vulneráveis.





